Memória
Sociologia brasileira perde Sergio Miceli (1945-2025), “inquieto e incansável, apaixonado e brilhante”
A USP, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e outras instituições acadêmicas e científicas lamentaram o falecimento do sociólogo Sergio Miceli Pessôa de Barros, ocorrido nesta sexta-feira (12/12), em São Paulo, aos 80 anos.
O velório será realizado no sábado (13/12), das 13h30 às 16h30, no Cemitério Parque Morumby (Rua Deputado Laércio Corte, 468), em São Paulo.
Docente aposentado do Departamento de Sociologia da FFLCH, Miceli exercia desde março de 2022 a presidência da Editora da USP (Edusp).
Em nota, a Reitoria da USP lembra que o professor graduou-se em Ciências Políticas e Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e cursou mestrado em Ciências Sociais na USP. Em 1978, obteve dupla titulação de doutorado pela USP e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França, sob a orientação de Pierre Bourdieu. “Sua tese ‘Intelectuais e classe dirigente no Brasil, 1920-1945’ pode ser considerada como obra de referência fundamental na área da sociologia”, diz a nota.
“Tornou-se professor da USP em 1989, mesmo ano em que se deu a publicação da História das ciências sociais no Brasil, obra coletiva que coordenou no Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp)”, prossegue a manifestação. “Miceli foi um prolífico autor e organizador, com mais de 40 livros publicados, e foi responsável por introduzir e organizar obras essenciais de Bourdieu no Brasil, como A economia das trocas simbólicas.”
Após lembrar que “Miceli deixa um legado inestimável para o pensamento social e para a publicação acadêmica no País”, a Reitoria “se solidariza com familiares, amigos, alunos e colegas da FFLCH e da Edusp neste momento de perda irreparável para a cultura e a ciência brasileira”.
O Departamento de Sociologia e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH também divulgaram nota de pesar nesta sexta-feira. “Nascido e criado no Rio de Janeiro, veio para São Paulo querendo se pós-graduar na linha de Florestan Fernandes, mas logo imprimiu sua marca muito própria e única, mestrando-se com o trabalho inaugural acerca ‘d’A Noite da madrinha’, que desde então alimenta gerações de sociólogas e sociólogos interessados nos fenômenos e nas dinâmicas culturais”, diz a nota conjunta. O trabalho abordou os programas de auditório da televisão, com foco na apresentadora Hebe Camargo.
“Sociólogo inquieto e incansável, apaixonado e brilhante, publicou muitos livros, ensinou e orientou por muitos anos, de sorte que sua presença fica viva em todos os que o leram e ouviram, e continuarão lendo e vendo e ouvindo (há vários vídeos no YouTube, assim como vários livros nas prateleiras)”, prossegue a nota, escrita pelo professor Leopoldo Waizbort.
Entre as muitas obras que publicou, estão: A noite da madrinha; Intelectuais à brasileira; A elite eclesiástica brasileira; Nacional estrangeiro; Sonhos da periferia; e Lira mensageira: Drummond e o grupo modernista mineiro.
“Sua liderança institucional fez-se sentir na FGV, no Idesp, na Unicamp, na USP, na Anpocs [Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais], na Edusp, na editora Perspectiva, na revista Tempo Social, e em várias outras instituições. Seu impacto se fez sentir também fora do Brasil, em suas temporadas na Argentina, na França e nos EUA”, diz ainda a FFLCH.
“Fã de ópera, leitor voraz, gostava de uma série televisiva e de um bom filme, e não deixava de lado o teatro. O que via e ouvia era assunto para conversa e matéria para reflexão. Em qualquer situação, quem estava ao seu lado saía mais inteligente do que quando chegou. Assim foi e assim continuará sendo”, conclui a nota.
Sua dedicação e liderança marcaram profundamente a Edusp e todos que trabalharam ao seu lado. Em nota divulgada em suas redes sociais, a Edusp recorda que Miceli já havia atuado na direção da editora entre 1994 e 1999 e registra que o professor “teve papel decisivo na formação do catálogo da Edusp”. “Seu profundo conhecimento em diversas áreas das ciências humanas e do meio intelectual guiou a criação e a renovação de coleções, a valorização de autores de destaque no pensamento social contemporâneo e a tradução de clássicos essenciais à formação universitária”, diz a Edusp.
A Anpocs, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Editora da Unicamp estão entre as entidades que publicaram manifestações de pesar pela morte do sociólogo.
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