A “eleição” para a Reitoria da Universidade de São Paulo — gestão 2026-2029 — ocorrerá nesta quinta-feira, 27 de novembro. Serão eleitoras cerca de 2 mil pessoas que compõem a Assembleia Universitária, constituída pelo Conselho Universitário, pelos conselhos centrais, pelas congregações das unidades e pelos conselhos deliberativos dos museus e dos institutos especializados da USP. A comunidade da USP é composta por mais de 100 mil pessoas entre servidora(e)s docentes, técnico-administrativa(o)s e estudantes. Sem contar a(o)s trabalhadora(e)s terceirizada(o)s que, embora estejam cotidianamente na universidade, muita(o)s cumprindo escala de trabalho 6 x 1 há muitas décadas, não têm o direito a se manifestar por meio do voto. Aliás, não têm direito a se manifestar de forma alguma, num alijamento absolutamente inaceitável em um ambiente que se pretende democrático e inclusivo. Ou seja: apenas cerca de 2% do total de pessoas que estão diretamente ligadas à USP votam. Ainda há o fato de as categorias de servidora(e)s técnico-administrativa(o)s e estudantes serem absolutamente sub-representadas na Assembleia Universitária.

Na última semana a Comissão Eleitoral realizou a chamada consulta indicativa, na qual dezenas de milhares de pessoas puderam votar. O resultado da consulta, divulgado imediatamente após o término, trouxe o resultado estratificado entre docentes, servidora(e)s técnico-administrativa(o)s e estudantes. Dos 5.518 docentes habilitada(o)s a votar, 3.726 (67,5%) participaram do pleito. Entre a(o)o 12.679 servidora(e)s técnico-administrativa(o)s, participaram 4.638 (36%). Do total de 73.991 estudantes de graduação e pós-graduação, somente 3.665 (4,95%) clicaram numa das opções. Somados todos os setores, de um total de 92.278 pessoas aptas a votar, o índice de abstenção foi de 87%. O que este altíssimo índice nos diz? Será falta de interesse da comunidade universitária? Será desconhecimento de um processo tão importante em curso? Ou será descrença em algo que mais parece um engodo? Há muita pertinência na última opção, uma vez que a “consulta indicativa” está sendo peremptoriamente ignorada!

Vejamos: na ausência de mais detalhamentos do resultado da consulta (divisão entre estudantes de graduação e pós-graduação, por nível de carreira, por unidades, por câmpus etc.), várias consultas informais começaram a ser realizadas por diferentes grupos, desde representantes no Conselho Universitário, até comissões estatutárias nas unidades, numa clara demonstração de que a consulta oficial carece de legitimidade.

Que indicação se tirou da consulta oficial, portanto? Quais eleitora(e)s considerarão o que a maioria escolheu? Quando o detalhamento do resultado da consulta foi solicitado, a Secretaria Geral alegou que não poderia fornecê-lo por conta do risco de exposição dos dados. A questão que fica é: mas como estratificaram por categoria? O resultado detalhado de um processo de consulta (ou eleitoral) contém dados de importante relevância política. Ou seja, o detalhamento poderia indicar melhor o desenho político deste processo. Há de se registrar que as chapas continuaram em campanha, algumas sem mencionar a consulta realizada.

Voltando um pouco mais no processo, é importante destacar que não houve debates entre as chapas. O que a Comissão Eleitoral chamou de “debates” foram apresentações pasteurizadas com questões pré-formuladas. Bem sabemos que num processo eleitoral, o embate direto com exposição de propostas e divergências é muito importante. Algumas unidades fizeram reuniões abertas de apresentação das chapas, o que não aconteceu na minha, a Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Pode ser que nas unidades em que as reuniões foram abertas tenha havido algum debate, mas não entre as chapas. Qual a intenção de cercear o debate franco e aberto? Defesa da democracia?

Recentemente, em 2022, reeditou-se o evento em defesa do Estado Democrático de Direito de 1977, no Largo São Francisco, sob a batuta do diretor da Faculdade de Direito, professor Celso Fernandes Campilongo, o mesmo que preside a Comissão Eleitoral para a Reitoria. No manifesto lido durante o ato, a Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito, pedia-se respeito ao resultado das urnas. Qual a razão de se defender a soberania do voto popular para as eleições gerais, mas não na USP? Por que não defendemos eleições diretas na USP? Por que dezenas de milhares de pessoas não podem exercer o direito de eleger quem as dirigirá e representará? E pior: até quando aceitaremos ingerências do executivo paulista que é quem, de fato, escolhe e nomeia a reitora ou o reitor da USP, num evidente ataque à autonomia universitária?

A paquidérmica e elitista USP de 1934 ainda está entre nós. Soa paradoxal este atraso no processo de democratização da USP, o que me faz lembrar do discurso de um colega indígena que, ao explicar como as nações indígenas se organizam, soltou um belo: “A democracia é um mito grego!”. E parece que na USP é mesmo!

EXPRESSO ADUSP


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