Saúde Pública
Após 113 mortes, governo estadual decreta emergência para dengue mas laboratórios da extinta Sucen seguem desativados, adverte APqC
Nesta quarta-feira, 19 de fevereiro, o governo estadual decretou situação de emergência em saúde pública, em razão da epidemia por dengue. De acordo com a Secretaria da Saúde, o estado já contabiliza mais de 124 mil casos da doença, com 113 óbitos, e serão destinados mais recursos para internações de pacientes com dengue. Mais detalhes estão disponíveis aqui.
No entender da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), a decisão evidencia a gravidade do quadro epidemiológico, que piora a cada ano, ao mesmo tempo em que reforça a negligência do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos)-Felício Ramuth (PSD) frente à estrutura de pesquisa pública para o controle de endemias.
A APqC tem denunciado a precarização de mais de dez laboratórios de pesquisa da extinta Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), além da falta de insumos e de pesquisadores.
“O problema se arrasta desde 2020, quando a lei 17.293/2020 encaminhada à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) pelo então governador João Doria [PSDB] e aprovada pelos deputados paulistas extinguiu a Sucen. Ela era responsável por monitorar, analisar e coordenar junto aos municípios do Estado ações de controle de doenças endêmicas, como dengue, zika, febre amarela, chagas, dentre outras”, lembra a APqC.
“A decisão desastrosa e irresponsável, tanto do governo da época quanto dos deputados que validaram a medida, comprometeu um trabalho essencial para proteger a sociedade, precarizando e fragilizando a estrutura de saúde de São Paulo”, denuncia.
“Desde a aprovação da lei, servidores que atuam na pesquisa foram deslocados para o Instituto Pasteur, enquanto a área de vigilância, que deveria atuar em complemento à pesquisa, foi para o Centro de Controle de Doenças (CCD). Essa medida compromete a eficiência do trabalho”.
Ademais, para que o Instituto Pasteur passe a responder por toda estrutura da Sucen seria necessária uma mudança administrativa, que depende de iniciativas do governo estadual para acontecer, aponta a APqC, que por diversas vezes já advertiu o Ministério Público (MP-SP) quanto à gravidade desse cenário para a saúde pública, que inclui o perigoso retorno do sorotipo 3 da dengue.
Extinção da Sucen afeta controle da transmissão da doença de Chagas
A extinção da Sucen também é sentida em outras áreas, como o controle da doença de Chagas. Exames realizados recentemente pelo Laboratório Municipal de Saúde Pública (Labfauna), ligado à Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, constataram que diversos espécimes do inseto hematófago conhecido como “barbeiro” (ou “bicho-barbeiro”) coletados no Instituto Butantan estavam infectados pelo parasita Trypanosoma cruzi, que é o vetor da doença. Casos anteriores ocorreram na Cidade Universitária do Butantã (em 2023), bem como na zona sul da capital, no Jardim Zoológico, desde 2019.
“É de conhecimento da CCD, ligada à Secretaria de Estado da Saúde, que há animais reservatórios do parasita, os saruês ou gambás, infectados com o Trypanosoma cruzi na periferia de São Paulo, mas não estamos vendo providências para alertar a população do entorno sobre medidas educativas e de prevenção de acidentes”, diz Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.
“Já se passaram mais de quatro anos desde que o Estado tomou a decisão irresponsável de extinguir a Sucen e, até agora, mais de dez laboratórios seguem sem um CNPJ, comprometendo gravemente a realização de pesquisas. Equipes de vigilância e pesquisa foram separadas, sendo direcionadas para órgãos diferentes, impactando diretamente o papel do Estado na coordenação do controle de endemias, como é o caso da doença de Chagas”, explica.
O surgimento de “barbeiros” na região do Butantã pode estar relacionado aos impactos ambientais provocados pela expansão imobiliária na zona oeste de São Paulo. “O próprio Instituto Butantan fez uma supressão importante de árvores para sua expansão, enquanto no entorno há uma verticalização gigantesca, com a construção de prédios no lugar de casas, com supressão de vegetação, e isso tudo acaba alterando o ambiente, deslocando os saruês de seu habitat natural e favorecendo o contato do bicho-barbeiro com os humanos”, observa a presidente da APqC.
“O que mais nos preocupa é que se nenhuma atitude for tomada pela Secretaria da Saúde, no que diz respeito a alertar a população e reestruturar as atividades da Sucen para que voltem a ser conduzidas de forma articulada junto às vigilâncias municipais, isto pode resultar em infecção de seres humanos, se é que já não estão ocorrendo”.
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