Serviço Público
Evidências científicas de fraude sistêmica no Provão Paulista são ignoradas pelo governo estadual, que fala em ampliar número de vagas no ensino superior oferecidas pelo exame
A publicação, no início de setembro, de extensa e detalhada Nota Técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), que aponta contundentes evidências de fraude sistêmica no Provão Paulista, não evitou que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, anunciasse, no último dia 21, que pretende ampliar a quantidade de vagas em universidades públicas oferecidas por meio desse exame. Embora o estudo do Repu tenha repercutido em diversas mídias — como a Folha de S. Paulo, o portal G1 e Carta Capital — a Secretaria da Educação (Seduc) tergiversou a respeito.
A Nota Técnica do Repu transmite os achados de pesquisa científica realizada pelo grupo com base no universo de microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 do Provão Paulista, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e cotejados com dados referentes às bonificações pagas pela Seduc a profissionais da rede estadual e ao contingente de estudantes convocados(as) para ingresso nas instituições públicas de ensino superior paulistas nos anos de 2024, 2025 e 2026.
De autoria conjunta de Leonardo Crochik (Instituto Federal de São Paulo), Ewout ter Haar (Instituto de Física da USP), Fernando Cássio (Faculdade de Educação da USP), Márcia Aparecida Jacomini (Unifesp) e Aline Michelle Dib (Univesp e Unicsul), a Nota Técnica do Repu é muito clara: “A análise identifica milhares de estudantes da rede estadual com variações de desempenho altamente improváveis em diferentes edições da prova, concentradas em determinadas escolas e regiões do estado. Entre os(as) estudantes que completaram o ciclo seriado entre 2023 e 2025, metade dos 4.305 desempenhos atípicos identificados na edição 2025 do Provão Paulista (3º ano do Ensino Médio) estava concentrada em apenas 50 escolas, correspondentes a 1,4% das escolas estaduais participantes. Em 44 escolas estaduais, mais de 40% dos(as) estudantes apresentaram desempenhos atípicos em 2025, chegando a mais de 90% em alguns casos”.
Isso não impediu que o governador acenasse com a proposta de ampliação, conforme reportado pelo G1: “A ideia é aumentar a quantidade de vagas. Ainda não, porque a gente vai ter que, obviamente, construir isso com as universidades. A possibilidade nasce do desempenho dos alunos do Provão Paulista nos cursos superiores. Isso nos dá o espaço para pensar em uma ampliação. Hoje, a gente oferece 15 mil vagas por ano”. A Secretaria da Educação afirma que os dados apresentados no estudo do Repu “não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo”.
A Nota Técnica do Repu sustenta, porém, que os resultados de sua pesquisa demonstram “indícios consistentes e contundentes da ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista, especialmente na edição de 2025”. Em manifestações posteriores, seus autores reafirmam as conclusões da análise, que a Seduc sequer procurou contestar.
“Padrões semelhantes [de desempenho atípico] não foram encontrados nas ETECs, tampouco nas escolas municipais participantes. A concentração de desempenhos atípicos em somente algumas escolas, sua ocorrência em diferentes regiões do estado e sua forte expansão entre 2024 e 2025 afastam explicações baseadas em flutuações estatísticas ou em desempenhos individuais excepcionais”, diz a Nota Técnica. “As análises sugerem que as condições de aplicação do Provão Paulista não foram homogêneas na rede estadual e que as irregularidades não podem ser reduzidas a episódios individuais. Essas distorções tiveram consequências para o processo seletivo de ingresso nas instituições públicas de ensino superior que admitem o Provão Paulista como alternativa à entrada via vestibular tradicional”.
Observa-se, além disso, “forte correlação entre a proporção de desempenhos atípicos nas escolas e a proporção de estudantes convocados(as) para matrícula”. Assim, entre os(as) convocados(as) para ingresso em instituições de ensino superior no primeiro semestre de 2026, “11,3% estudavam em escolas com mais de 20% dos desempenhos individuais classificados atípicos no Provão Paulista 2025”.
Embora os dados disponíveis não permitam determinar quais vagas foram efetivamente ocupadas em decorrência de resultados produzidos sob condições irregulares, prossegue a Nota Técnica, “eles demonstram sem sombra de dúvida que a fraude sistêmica afetou as listas de convocação e comprometeu a igualdade de condições entre os(as) participantes”.
Por outro lado, a Nota Técnica do Repu esclarece que a fraude sistêmica “não pode ser compreendida separadamente das políticas implementadas pela própria Seduc-SP”. Isso porque o Provão Paulista “acumula finalidades incompatíveis: funciona simultaneamente como processo seletivo para o Ensino Superior, instrumento de avaliação de escolas e critério para bonificações e medidas punitivas contra docentes e gestores(as) escolares. A combinação dessas funções produz conflitos de interesse e incentiva a inflação dos resultados”, adverte o Repu.
A essa combinação perversa de finalidades, soma-se “uma política de plataformização que incorporou celulares e ferramentas digitais ao cotidiano escolar, ao mesmo tempo em que manteve a aplicação do Provão Paulista nas próprias escolas e sob a fiscalização de profissionais diretamente afetados pelos resultados da avaliação”. Incentiva-se, portanto, a prática de fraudes. No entender do Repu, a gravidade do problema é ampliada pela falta de transparência da Seduc. “Os microdados de 2025 foram divulgados em sucessivas versões”, permanecendo incompletos mesmo após diversas solicitações via LAI.
“Diante dos achados da pesquisa, a Nota Técnica recomenda o reconhecimento público do caráter sistêmico das fraudes; a revisão dos procedimentos de aplicação do Provão Paulista; a criação de mecanismos permanentes de auditoria; a participação das instituições de ensino superior envolvidas na revisão dos mecanismos de segurança; a suspensão do uso do exame para bonificação, punição ou responsabilização; a separação entre avaliação de sistema e processo seletivo; e a publicização integral dos microdados e da documentação metodológica”. O governo estadual e a Seduc, no entanto, ignoraram as recomendações do Repu.
“As análises apresentadas não permitem a atribuição retrospectiva de fraude a estudantes individuais, que exigiria evidências que os microdados não podem fornecer”, diz ainda a nota. “O problema demonstrado é de natureza institucional: mecanismos de aplicação e políticas de responsabilização permitiram que resultados anômalos se disseminassem por escolas inteiras e por diferentes regiões do estado. Cabe, portanto, ao governo paulista reconhecer as irregularidades, investigar suas causas, corrigir as vulnerabilidades que favoreceram sua ocorrência e impedir que elas voltem a ocorrer nas futuras edições do Provão Paulista”.
Em nota reproduzida na reportagem do G1, a assessoria da campanha de Tarcísio informou que o Provão Paulista “já oferece 15.819 vagas nesta edição, para ingresso em 2027: são 1.500 na USP, 929 na Unesp, 326 na Unicamp, 3.064 na Univesp e 10 mil nas Fatecs”, e reforçou o anúncio do governador e candidato, de finalidades claramente eleitorais: “A intenção é ampliar progressivamente essa oferta nas próximas edições. A quantidade de vagas destinada ao Provão é definida em articulação com as instituições participantes, respeitando a autonomia e as regras de cada universidade. A definição será construída com as instituições e incorporada às próximas edições do Provão Paulista”.
“Fraudes são induzidas por políticas da Seduc”, avalia a NT do Repu
A Nota Técnica do Repu aprofunda a crítica ao emprego do Provão Paulista como instrumento de avaliação das equipes que atuam na rede pública e do corpo discente. “O fato de que as notas em avaliações externas aumentam quando são usadas para fins de bonificação, punição ou outros tipos de responsabilização é incontroverso entre os especialistas. Há, sobre isso, uma vasta literatura, baseada sobretudo em casos ocorridos nos Estados Unidos, onde as políticas de responsabilização docentes baseadas em testes padronizados se intensificaram nos anos 2000”, argumenta.
“Essa literatura descreve e conceitualiza um efeito que poderia ser chamado de ‘inflação de notas’: o aumento aparente de resultados educacionais sem melhoria real na aprendizagem dos(as) estudantes (Cook; Pitoniak, 2025). Empiricamente, esta inflação é observada comparando-se o resultado de avaliações de alto impacto (high-stakes assessments) com avaliações de monitoramento para fins de auditoria (Koretz, 2017)”.
A inflação de notas em indicadores educacionais, prossegue, “é uma das inúmeras de manifestações práticas da conhecida Lei de Campbell (1979): quanto mais uma determinada métrica for usada para a tomada de decisões de alto impacto, mais ela perderá o seu valor de monitoramento”. Um segundo efeito, mais grave, é que a “pressão sobre as métricas não apenas as enfraquece, mas pode corromper o próprio processo social que a métrica deveria monitorar (Campbell, 1979)”.
No caso da Seduc-SP, diz a Nota Técnica do Repu, “ao menos duas políticas em curso na rede estadual parecem contribuir diretamente para corromper as métricas avaliativas: 1) a plataformização radical no ensino estadual; e 2) as políticas de responsabilização baseadas em bonificações e punições a gestores(as) e docentes da rede de ensino paulista”.
Duas Notas Técnicas produzidas em 2025 pelo mesmo grupo de pesquisadores apontaram “uma série de consequências preocupantes” das políticas de plataformização e responsabilização de diretores(as) escolares e docentes em decorrência dos resultados atingidos pelas escolas nas avaliações estaduais. Uma dessas consequências é a pressão para o falseamento de dados educacionais, amplamente relatada por professores(as) da rede estadual.
“Colegas estão sendo assediados o tempo todo para cumprir metas focadas em plataformas que não corroboram para a aprendizagem dos alunos. Nada importa além de frequência sem aprendizado, plataformas sem aprendizado. Se não tem meta alcançada, cessação quando [o diretor escolar é] designado e afastado quando [é] titular”, disse um depoente.
“Temos que fazer o gabarito das provas externas e passar as respostas aos alunos para não sofrermos sanções pelo baixo desempenho dos alunos. Temos que preencher as plataformas dos alunos com deficiência, principalmente dos alunos que não podem frequentar a escola (…) para aumentar os índices de acesso às plataformas”, relatou outro depoente.
“Eu e meus colegas professores estamos sendo coagidos a colocar presença para alunos que não estão presentes na escola. (…) Quando questionei, recebi como resposta que essa orientação vinha da supervisão escolar. Trabalho em outra escola e a coordenação confirmou que a gestão está sendo cobrada a ter a mesma conduta, pois as ausências reais incorrem no não cumprimento das metas”, testemunhou uma terceira pessoa.
O assédio na rede estadual paulista para que as metas impostas pela Seduc sejam alcançadas, explica o Repu, “tem óbvios efeitos sobre os(as) estudantes, em particular devido ao incentivo do uso de ferramentas digitais para responder tarefas em plataformas e para a realização da avaliação em larga escala bimestral conhecida como Prova Paulista”, dando como exemplo pesquisa de Juliana Fonseca de Oliveira Neri sobre a plataformização.
Responsáveis pela gestão de escolas e docentes da Baixada Santista ouvidos(as) nessa pesquisa apontaram que o uso generalizado do celular para a realização da Prova Paulista induz o emprego de expedientes fraudulentos na resolução do exame: “o aluno usa o celular para fazer a prova, e então entra na Internet, no ChatGPT, e responde tudo corretamente”; “alguns alunos sequer leem a pergunta inteira; colocam no celular, copiam e colam… e isso se converte em nota”.
O emprego de scripts para resposta automatizada das tarefas das plataformas, incluindo a leitura de livros inteiros e a elaboração de redações, também já foi relatado por alunos(as) da rede estadual como “formas de abreviar o tédio e as pressões” quando a “ferramenta pedagógica se afasta dos processos de ensino e aprendizagem e torna-se um fim em si mesma”.
A banalização do uso de celulares também durante a aplicação do Provão Paulista é fartamente documentada. “Assim, as políticas de plataformização que estimulam o uso de equipamentos eletrônicos e, na mesma medida, a burla de tarefas escolares, de avaliações e de indicadores educacionais (Barbosa et al., 2026; Jacomini et al., 2026), também induzem a ocorrência de irregularidades em uma avaliação como o Provão Paulista”.
Quanto às políticas de bonificação, embora elas tenham uma “história bem mais longa no estado de São Paulo” como lembra o grupo, “a atual política de responsabilização punitiva de diretores(as) escolares e docentes por resultados nas avaliações em larga escala é uma novidade implementada pela Seduc-SP concomitantemente à criação do Provão Paulista, que substituiu o Saresp para o Ensino Médio a partir de 2023”.
Além de servir como via de acesso ao Ensino Superior público, diz a Nota Técnica do Repu, o Provão Paulista teria, segundo a Seduc-SP, o potencial de implementar “uma apuração mais precisa dos resultados” e a valorização da “atuação direta dos docentes, com metas específicas por componente curricular” (Resolução Seduc 66/2025). “Isto porque, enquanto o Saresp era aplicado apenas ao 3º ano do Ensino Médio e restrito às disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais e Língua Inglesa, o Provão Paulista passou a ser aplicado nos três anos do Ensino Médio e a envolver as disciplinas de Língua Portuguesa, Língua Inglesa, Matemática, História, Geografia, Biologia, Física, Química, Filosofia e Sociologia”.
Porém, o aumento do escopo do exame sacrificou a comparabilidade entre provas. “Devido ao caráter de vestibular do Provão Paulista, não há equalização das notas obtidas entre um ano e outro e os resultados de diferentes edições não podem ser comparados. Assim, o Provão Paulista não serve para avaliar eventual melhora ou piora de aprendizagens”.
Entre estudantes de Ensino Médio, 69% (965 mil alunos) estudavam em escolas que não atingiram a metade da meta “Ouro”, resultado considerado insatisfatório e passível de punição pela Seduc. “A existência de um número tão grande de escolas com resultados tidos como insatisfatórios deve-se muito mais ao caráter irrealista e arbitrário do critério oficial do que propriamente a problemas de aprendizagem nas escolas. A variação nos resultados obtidos por escolas individuais em avaliações em larga escala de um ano para o outro é quase sempre menor do que a própria incerteza estatística associada à nota obtida (Travitzki, 2020). Ou seja, é estatisticamente esperado que a maioria das escolas apresente uma situação de estabilidade nos resultados nas avaliações, com notas um pouco maiores ou menores do que no ano anterior, mas dentro da margem de erro”, continua.
“Em outras palavras, mudanças sensíveis no desempenho de uma escola só podem ser percebidas no curso de vários anos. Exigir, como mínimo necessário para evitar punições, que a escola registre um aumento na nota obtida (de metade da meta ‘Ouro’), desconsiderando a margem de erro intrínseca a esse tipo de avaliação, já seria irrealista em um exame que apresentasse resultados comparáveis ano a ano”, pondera o Repu. “Entretanto, quando esta exigência está associada a exames sem nenhuma comparabilidade, a avaliação converte-se num simulacro que admite todo tipo de manipulação e inconsequência. Nesse sentido, decisões sobre bonificar ou punir educadores(as) podem ser tomadas a partir de critérios arbitrários e intencionalidades políticas não declaradas”.
Em que medida, indaga a Nota Técnica, “esse sistema de punições e recompensas serve como estímulo às fraudes de natureza sistêmica que identificamos no Provão Paulista”? Embora os dados analisados não permitam estabelecer relações de causalidade direta, “a literatura especializada já estabeleceu de forma cabal a relação entre o excesso de consequências atribuído a avaliações em larga escala, a perda de relevância dessas avaliações para o monitoramento pretendido e a deterioração dos próprios processos sociais que elas pretendem monitorar (Afonso, 2009, 2012; Brooke; Cunha, 2011)”.
Nesse sentido, afirma, “é possível examinar a influência das políticas de responsabilização da Seduc-SP na corrosão da confiabilidade do Provão Paulista e da legitimidade de seus resultados”, o que a Nota Técnica realiza em minúcias. “Ainda que não seja possível estabelecer uma relação monocausal entre os dois fenômenos”, ou seja a bonificação e aumento do percentual de resultados atípicos (outliers), “a atual política de responsabilização da Seduc, baseada em bonificações e punições, tem impactos evidentes sobre a fraude sistêmica observada no Provão Paulista”, conclui.
Fatores que, segundo o Repu, contribuíram para a fraude sistêmica
“O aparente rigor da Seduc-SP na lida com os resultados das escolas considerados insatisfatórios contrasta com a tibieza em fornecer respostas institucionais adequadas às reiteradas denúncias de fraudes no Provão Paulista”, feitas pelos(as) próprios(as) estudantes da rede, afirma a Nota Técnica. “Também chama atenção que nem a Seduc nem a Fundação Vunesp tenham notado os padrões estatísticos tão gritantemente anômalos nos resultados do Provão Paulista”, destaca. “A não ser pela criação de comissões de investigação e pela responsabilização individual de um diminuto número de estudantes que postaram imagens de provas em andamento em redes sociais, o governo paulista não realizou quaisquer mudanças substantivas no Provão Paulista. O posicionamento oficial da Seduc-SP ainda é o de que as irregularidades foram pontuais e as providências cabíveis tomadas”.
No entender do Repu, ao menos quatro fatores contribuíram para o padrão sistêmico de fraudes identificado no Provão Paulista, todos eles de responsabilidade da proṕria Seduc: “1) leniência com relação às reiteradas denúncias de fraudes durante a aplicação das provas; 2) adoção de uma política de responsabilização fundada em indicadores arbitrários, que exige resultados inatingíveis e distribui punições a escolas e UREs [Unidades Regionais de Ensino] que permanecem com desempenhos estáveis; 3) adoção de uma política de plataformização do ensino igualmente punitiva, que estimula o uso de celulares para a realização de provas oficiais e facilita a burla das avaliações; e 4) negligência com relação aos procedimentos de realização do Provão Paulista e à análise de seus resultados, inflacionados em determinadas escolas e Unidades Regionais de Ensino desde o ano de 2024 (responsabilidade compartilhada com a Fundação Vunesp)”.
A imprópria dupla função do Provão Paulista como avaliação de sistema e concurso vestibular, acrescenta a Nota Técnica, “agrava as consequências da fraude, cujo impacto ultrapassa a mera manipulação de indicadores educacionais – ao nível das escolas e UREs, para evitar punições ou atrair bonificações; e ao nível do governo central, para exploração político-eleitoral dos resultados positivos”. Adicionalmente, a fraude ameaça a credibilidade dos processos seletivos de ingresso nas instituições públicas de ensino superior que admitem o Provão Paulista como via de entrada alternativa aos vestibulares tradicionais.
Parte das escolas com alto número de resultados atípicos no Provão Paulista 2025 chama atenção, diz o Repu, pelo “igualmente elevado número de estudantes convocados(as) para matrícula em instituições públicas de Ensino Superior paulistas” no primeiro semestre de 2026. “Ao analisar a distribuição de aprovados(as) no Provão Paulista 2025, constata-se que 97% dos(as) estudantes da rede estadual paulista estudam em escolas que tiveram menos de 20% de estudantes convocados/as para algum curso superior pelo Provão Paulista. Já ao isolar a porção superior dessa distribuição contendo apenas as escolas com mais de 20% de convocados/as(Figura 15, inferior), percebe-se nitidamente a alta incidência de estudantes com resultados individuais atípicos nas escolas que tiveram taxas de aprovação no Provão Paulista igualmente elevadas, sugerindo que esses/as estudantes foram admitidos/as por instituições de Ensino Superior”.
Apenas 538 escolas com aprovados(as) no Provão Paulista 2025 possuem estudantes com resultados atípicos — 17,6% de um total de 3.055 escolas da rede estadual com pelo menos um/a estudante aprovado/a em 2025. “Entre essas escolas, todavia, a correlação entre o percentual de outliers e de estudantes aprovados(as) no Provão Paulista é bastante forte”, pontua a Nota Técnica. “O coeficiente de correlação entre essas duas variáveis, ponderadas pelo número de estudantes que cursaram o 3º ano de cada escola em 2025 e considerando apenas as 538 escolas com pelo menos um resultado individual atípico no Provão Paulista 2025, é 0,76, indicando correlação linear forte entre essas variáveis e fortalecendo a hipótese de que os/as estudantes da rede estadual com resultados atípicos no Provão Paulista foram, em grande medida, aprovados(as) em instituições públicas de Ensino Superior no primeiro semestre de 2026”.
Destaca que, do total de 14.271 estudantes da rede estadual convocados(as) no primeiro semestre de 2026 (convocações relativas aos resultados no Provão Paulista 2025), “11,3% estudavam em 128 escolas com incidência de outliers acima dos 20%, região em que a correlação entre os percentuais de aprovação e de resultados atípicos por escola é forte”.
Na página 54 da Nota Técnica, a Figura 16 exibe um conjunto de escolas da rede estadual com proporções simultaneamente elevadas de resultados individuais atípicos no Provão Paulista 2025 e de convocados(as) por instituições de ensino superior no primeiro semestre de 2026. “Nesses casos, não há dúvida de que expedientes fraudulentos resultaram em ingressos em instituições de ensino superior”. Na página 55, a Tabela 7 “exemplifica essa situação para as nove escolas estaduais que tiveram mais de 75% de resultados individuais atípicos e mais de 75% de estudantes convocados(as)”.
Uma vez que a distribuição de bonificações pelo cumprimento de metas, prossegue a Nota Técnica, “explodiu nas UREs da rede estadual entre 2024 e 2025, é possível concluir que a política de responsabilização da Seduc que induziu a fraude sistêmica na avaliação do Ensino Médio estadual também levou a distorções nas listas de estudantes que ingressaram em instituições públicas de Ensino Superior pela via do Provão Paulista”.
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