Serviço Público
Governo estadual e cúpula da USP celebram entrada da Google no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, embora a “big tech” forneça IA para o Pentágono; será “complexo de vira-latas”?

A big tech Google inaugurou, no último dia 27 de maio, no câmpus do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), uma unidade que inclui um “Centro de Engenharia de Segurança” — Google Safety Engineering Center, ou GSEC; um “Centro de Descoberta de Acessibilidade” — Accessibility Discovery Center, ou ADC; e um espaço dedicado a startups. As atividades serão desenvolvidas no edifício “Adriano Marchini”, histórico prédio do IPT, reformado pela própria Google com esta finalidade.
Empresa pública vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do governo estadual, o IPT está situado na Cidade Universitária do Butantã, pertencente à USP mas onde também se encontram outras importantes instituições, como o Instituto Butantan, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) e o Centro Tecnológico da Marinha de Guerra.
A presença da Google na Cidade Universitária do Butantã se tornou mais ostensiva em novembro de 2016, quando o então reitor da USP M.A. Zago assinou contrato com a big tech referente ao uso do Google Apps for Education, que prometia uso infinito de serviços de mensageria (e-mail) e de drive de armazenamento de dados para docentes usuários. Em 2024, por decisão unilateral anunciada já em 2021, a Google atropelou o contrato e cortou o espaço ilimitado na nuvem.
Em fevereiro de 2024, em solenidade realizada no Palácio dos Bandeirantes com a presença do então reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr., o governador Tarcísio de Freitas anunciou com estardalhaço a entrada da Google no câmpus do IPT, cometendo assim talvez a primeira de uma série de demonstrações de autoridades brasileiras, ocorridas nos últimos anos, de subserviência geopolítica e miséria intelectual frente às big techs. Demonstrações que se enquadrariam perfeitamente na metáfora “complexo de vira-latas”, cunhada por Nelson Rodrigues.
“O contrato com a Google, que parece envolver um montante de R$ 176 milhões (sua documentação não foi divulgada), foi celebrado no âmbito do programa ‘IPT Open Experience’, criado no governo de João Doria (PSDB), com a finalidade de acelerar a privatização institucional e “física” do centenário instituto público de pesquisas — por meio da cessão, inclusive de parte de sua área construída e seus equipamentos, a grandes empresas privadas”, informou à época o Informativo Adusp Online. “O paradigma do ‘IPT Open’ é o contrato sigiloso firmado em 2021 com a Faculdade Inteli-IBTCC, objeto de investigação anunciada pelo Ministério Público (MP-SP)”, acrescentava a reportagem.
Crescente envolvimento da Google com o Pentágono
Nem parece que a Google é a megaempresa contratada pelo Pentágono para suprir modelos de inteligência artificial (IA) para todos os seus setores, sob protesto, aliás, de um numeroso contingente de funcionários da própria big tech. Nem parece que ela está profundamente envolvida, ao lado das demais big techs, nos crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza.
Em dezembro de 2025, o Pentágono (atual Departamento de Guerra dos EUA) anunciou em sua página na Internet “o lançamento do Gemini for Government do Google Cloud, o primeiro de vários recursos de IA de ponta a serem hospedados no GenAI.mil, a nova plataforma de IA personalizada do Departamento”. Que não restem dúvidas sobre a finalidade dessa iniciativa, que busca, nas palavras do Pentágono, cultivar “uma força de trabalho ‘priorizando a IA’, aproveitando os recursos de IA generativa para criar uma organização mais eficiente e preparada para o combate” (destaques nossos). Mais: “O Gemini for Government é a personificação da excelência americana em IA, colocando um poder analítico e criativo incomparável diretamente nas mãos da força de combate mais dominante do mundo” (idem).
A inauguração do dia 27 se prestou a novas exibições de vassalagem explícita. “Hoje inauguramos oficialmente o Centro de Engenharia do Google no IPT, que sediará 400 engenheiros trabalhando em temas relacionados à inteligência artificial e à internet. Trata-se do maior centro do Google no mundo instalado dentro de uma instituição de pesquisa, como o IPT”, celebrou em seu perfil no Linkedin o presidente do IPT, Anderson Correia, nomeado por Tarcísio.
Anderson festejou o fato de a Google ser “uma das maiores empresas globais de tecnologia” e de possuir a marca “mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 1,5 trilhão”, e deu as boas-vindas à big tech: “Ter um grande centro instalado dentro do IPT traz benefícios diretos e indiretos para o Instituto, fortalecendo ainda mais nosso ambiente de inovação, colaboração e desenvolvimento tecnológico”.
O reitor da USP, Aluísio Augusto Cotrim Segurado, a vice-reitora, Liedi Légi Bariani Bernucci, e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), arranjaram tempo para comparecer à inauguração no IPT, apesar das greves em andamento na USP (de estudantes e de docentes) e na Prefeitura de São Paulo. Vahan Agopyan, secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, também compareceu, uma vez que o IPT é formalmente subordinado à sua pasta, e ele sempre deu apoio ao processo de privatização iniciado por João Doria e aprofundado por Tarcísio.
Em dezembro de 2025, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) inaugurou a “Cátedra Google-USP em IA Responsável”, incorrendo em ostensivo conflito de interesses. O Informativo Adusp Online revelou que o coordenador acadêmico da nova “cátedra” é pai do diretor jurídico da Google Brasil.
“IPT é apenas um terreno com apelo de marketing”, diz SINTPq
Quanto ao corpo de funcionários(as) do IPT, eles foram informados da inauguração em comunicado recebido por e-mail cujo teor foi assim resumido, ironicamente, pela geóloga Priscila Leal, pesquisadora do instituto e secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia de São Paulo (SINTPq): “O evento é só para convidados, e você não é um deles. Orientamos que não atrapalhe a organização do evento. Em algum momento futuro a Google deixará vocês fazerem uma visita, com hora marcada e escolta”.
No decorrer da inauguração, um técnico com mais de cinquenta anos de casa no IPT decidiu se aproximar de uma tenda do evento, ao pé da escadaria principal do edifício “Adriano Marchini”, cuja fachada exibe o logotipo e o nome do IPT em grandes letras, e solicitou às atendentes um brinde. O brinde consistia de uma agenda e uma caneta, contida em uma ecobag bege, todas ilustradas com um desenho da fachada do “Adriano Marchini”, porém sem o logo e nome do IPT. O técnico recebeu a explicação de que os brindes eram reservados para convidados. Somente conseguiu ganhar o brinde depois de apelar à coordenação do evento.
“O ocorrido caracteriza muito bem a relação Google-IPT: somos apenas um terreno com apelo de marketing para o posicionamento da marca Google no ambiente do câmpus da USP. Isso ocorreu da mesma forma com o IBTCC Inteli”, avalia Priscila, do SINTPq. “A comunidade do campus ainda aguarda os demonstrativos das vantagens para a instituição, a publicação dos termos de cessão de espaço e plano de trabalho entre IPT e estas instituições privadas [Google, Inteli e outras] plantadas em território público, como preconiza o arcabouço legal que permitiu estes enclaves”.
No dia seguinte à inauguração da nova unidade da Google no Brasil, o governo de Donald Trump, atendendo a pedido do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), anunciou que decidiu classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “organizações terroristas estrangeiras”. Clara interferência indevida na política brasileira, destinada a apoiar a candidatura do PL, a medida abre caminho para agressões militares dos EUA ao Brasil.
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