Universidade
Pró-Reitoria de Pós-Graduação vai oferecer disciplina para formar “cientistas empreendedores”, que poderão apresentar suas ideias aos tubarões do mercado
Aluna(o)s de pós-graduação da USP terão a oportunidade, a partir deste primeiro semestre, de viver uma experiência semelhante à dos programas de televisão do tipo Shark Tank, nos quais potenciais empreendedores apresentam seus projetos aos “tubarões” que poderão investir – ou não – em sua concretização.
Trata-se da disciplina “Formação de Cientista Empreendedor”, a ser oferecida – estranhamente – pela própria Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG), instância administrativa da universidade, e não unidade de ensino e pesquisa.
A disciplina, de acordo com e-mail enviado pela PRPG a aluna(o)s e orientadora(e)s da USP, tem como um de seus objetivos “oferecer a oportunidade de apresentação do projeto de empreendedorismo através de um PITCH para a Banca de Avaliadores formada por investidores early stage” – ou seja, o modelo dos programas de televisão nos quais, como diz o site da versão brasileira, os “tubarões” podem “surfar” nas ideias apresentadas.
O e-mail não explica com base em quais critérios será formada a Banca de Avaliadores, embora tudo leve a crer que seus integrantes venham a ser representantes do setor privado. Afinal, é lá que se busca quem tenha cacife para bancar os chamados investimentos early stage, fase inicial de desenvolvimento de uma nova empresa de tecnologia – perdão, de uma startup.
O próprio termo startup aparece várias vezes no e-mail da PRPG. Por exemplo, na descrição de outros dos objetivos da disciplina, como “fomentar criação de equipes multidisciplinares para desenvolvimento de projetos de empreendedorismo com potencial de transformação em startups a partir de tecnologias desenvolvidas pelos pós-graduandos” e “apresentar os aspectos relacionados à criação e gestão de startup em diferentes setores de atividade econômica”.
A disciplina, com 50 vagas, tem como público-alvo “mestrandos e doutorandos detentores de tecnologia ou com interesse em formar times de sócios fundadores para desenvolvimento de uma startup a partir de uma tecnologia desenvolvida por um dos alunos”. As aulas serão realizadas uma vez por semana – em formato remoto, claro, mais adequado ao perfil inovacionista proposto.
Outra característica da rendição da universidade ao discurso do inovacionismo e do empreendedorismo tão ao gosto do “mercado” está no processo de avaliação: “O trabalho da disciplina consistirá no desenvolvimento da inovação a partir da tecnologia do pós-graduando”.
Pesquisas e estudos de consultorias privadas como a PwC apontam que nove de cada dez startups criadas no Brasil não conseguem sobreviver. Não se sabe se a análise desses dados está incluída na ementa da disciplina.
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