Universidade
Reitoria da USP anuncia investimentos de R$ 50 milhões no Hospital Universitário, mas não prevê contratação de pessoal, maior carência numa instituição que perdeu 30% do quadro nos últimos anos

A Reitoria da USP anunciou na semana passada que investirá R$ 50 milhões no Hospital Universitário (HU), “com destaque para a modernização da Unidade de Urgência e Emergência Referenciada e para o aprimoramento da qualidade assistencial no Centro Cirúrgico, no Centro Obstétrico, no Serviço de Anatomia Patológica e nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal e de Adultos”, de acordo com texto publicado no Jornal da USP no dia 30 de julho.
A matéria registra declaração do superintendente do HU, José Pinhata Otoch, para quem trata-se de “uma das maiores intervenções já realizadas no hospital desde sua inauguração”. A iniciativa, prossegue Pinhata, “integra um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento de sua capacidade de assistência, de ensino e de pesquisa”.
O anúncio foi feito poucos dias depois da ocorrência de mais um episódio que evidencia as consequências do desmonte do HU: o rompimento de uma tubulação de água que inundou parte do hospital e levou à interrupção do abastecimento. Na última sexta-feira (31 de julho), o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) organizou uma manifestação para denunciar o novo caso e o “desmanche programado” da instituição.
O texto do Jornal da USP menciona apenas as diversas etapas de intervenções em infraestrutura e nas instalações físicas. Não há nenhuma referência à contratação de pessoal, principal carência do HU e razão da queda significativa do número de atendimentos prestados a partir do desmonte promovido pela gestão de M.A. Zago-V. Agopyan (2014-2017) e não revertido pelos reitores que se seguiram.
Em 2013, o hospital tinha um total de 1.850 servidores(as). Em 2025, de acordo com o Anuário Estatístico da USP, eram apenas 1.284, uma queda de 566 funcionários(as), o que significa a perda de 30,6% do quadro de pessoal.
Uma análise detalhada dos números e do histórico de sucateamento da instituição foi apresentada no artigo A continuidade do desmonte do HU, de César Augusto Minto e Michele Schultz, ex-presidentes da Adusp.
“Como explicar que o hospital já tenha sido capaz de realizar um atendimento à comunidade USP de 1) 1.170 cirurgias em 2010 e tenha realizado apenas 297 em 2024?; 2) 163.035 consultas médicas em 2013 e tão somente 43.912 em 2024?; 3) 398.756 exames complementares em 2012 e 108.582 em 2024?; e 4) 1.472 internações em 2009 e apenas 236 em 2024?”, perguntam o autor e a autora no artigo.
Não adianta reformar sem contratar, afirma diretor clínico
Na avaliação do médico João Paulo Becker Lotufo, diretor clínico do HU, o recente anúncio das obras não representa nenhuma melhoria no que de fato importa: o atendimento à população.“Cinquenta milhões e nenhuma contratação: se a gente não mudar esse comportamento, não adianta reformar o hospital, porque nada acontecerá”, afirma.
A contratação de pessoal é o principal tema da pauta da reunião que Lotufo terá nesta quarta-feira (5 de agosto) com a diretora da Faculdade de Medicina (FMUSP), Eloisa Silva Dutra de Oliveira Bonfá, presidente do Conselho Deliberativo do HU.
O diretor clínico lista alguns dos problemas atuais do hospital, como o não funcionamento da terapia semi-intensiva e a redução de cerca de 50% dos leitos desde 2013. “Um estudante acaba operando uma ou duas pessoas no período de estágio. Qual é a experiência que ele vai ter?”, questiona.
Outra realidade é a existência de uma fila de espera de 180 a 200 pacientes para cirurgia de adenoide no setor de otorrinolaringologia.
O aumento de leitos é fundamental, defende Lotufo. “Não precisa ser total, mas tem que ser pelo menos parcial, para que a gente abra a semi-intensiva, aumente um pouco as cirurgias eletivas e trate melhor a população, que é a nossa função”, afirma.
Mario Balanco, servidor aposentado da USP e integrante do Coletivo Butantã na Luta, que há anos se mobiliza contra o desmonte do HU, enfatiza que “a recuperação plena do hospital passa necessariamente pela contratação de novos profissionais, via carreira da USP, para recompor o quadro, hoje com um déficit de mais de 500 funcionários”.
“A recuperação da infraestrutura não pode estar dissociada da recuperação da capacidade do hospital para voltar a realizar um excelente serviço para a população. Sem a recuperação do quadro de pessoal, isso acaba sendo impossível”, prossegue Balanco.
O Butantã na Luta tem encontro agendado com o superintendente do HU, também nesta quarta-feira (5), para conhecer mais detalhes das anunciadas reformas.
Questionada pelo Informativo Adusp Online por meio de sua Assessoria de Imprensa, a Reitoria da USP respondeu que, “em 2022, com a retomada das contratações na Universidade, das 400 vagas autorizadas para a USP, 120 foram destinadas ao Hospital Universitário (HU)”. “Desde então, as vagas decorrentes de desligamentos/aposentadorias vêm sendo repostas por meio de concursos públicos”, diz a Reitoria.
Os números do próprio Anuário Estatístico da USP demonstram que, mesmo com essa suposta reposição, o número de servidores(as) do HU segue em queda: 1.378 em 2022; 1.310 em 2024; e 1.284 em 2025.
“Ao investir na modernização do hospital, a USP reafirma seu compromisso com a qualificação da assistência prestada à população, a formação de profissionais de excelência e a produção de conhecimento voltada ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde”, disse o reitor Aluísio Segurado ao Jornal da USP.
O diretor clínico João Paulo Becker Lotufo recorda que Segurado — que é médico, assim como Zago e Carlos Gilberto Carlotti Junior, a quem sucedeu na Reitoria — “nunca entrou no Hospital Universitário”. “Ele foi convidado, antes da sua eleição, para discutir a situação do HU, mas se recusou a comparecer”, relata.
Possivelmente, Segurado estará presente em eventuais reinaugurações de áreas reformadas, mas, ao que tudo indica, também deixará seu nome registrado como mais um reitor médico a compactuar com o processo de contínua erosão da qualidade do atendimento do hospital, que depende essencialmente de servidores(as) e não apenas de instalações.
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