André OliveiraAndré Oliveira
Árvore destruída pelo vendaval no campus de Ribeirão Preto em 24 de julho

“A situação é desesperadora”. A frase consta de carta encaminhada pela professora Annie Schmaltz Hsiou, coordenadora do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada (LAPI), à chefia e ao conselho do Departamento de Biologia (DB) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), a “Filô”, a propósito dos graves danos causados nos blocos do DB pelo evento climático ocorrido em Ribeirão Preto no último dia 24 de julho.

“Na ocasião, eu estava afastada de minhas atividades na universidade em razão de trabalho de campo e pesquisa no interior do Estado do Acre, entre os dias 20/7 e 2/8/2026, retornando à USP apenas ontem, 3/8/2026”, explica Annie, que é diretora regional da Adusp e 3ª vice-presidenta do Andes-Sindicato Nacional.

A seu ver, o episódio de 24 de julho “não deve ser tratado como um evento isolado ou excepcional (episódico), mas como parte de uma realidade em que fenômenos climáticos extremos tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade neste decênio, exigindo respostas institucionais mais estruturadas e preventivas”.

Ela relata que, ao chegar no DB, após seu retorno, “para verificar as condições do Bloco 13, bem como as do meu laboratório, inaugurado há apenas dois meses”, deparou-se com uma situação extremamente preocupante. “Além dos danos à infraestrutura do prédio, ficou evidente que, nas atuais condições, não há segurança nem condições adequadas para a continuidade das atividades de pesquisa, ensino e orientação no LAPI”.

Trata-se, prossegue a carta, de “laboratório recém-implantado, fruto de investimentos públicos significativos da Fapesp e do esforço coletivo de docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos, cuja plena utilização encontra-se comprometida pela ausência de solução efetiva para os problemas estruturais do bloco”.

No documento, Annie relata que equipamentos e demais materiais do laboratório (computadores, notebooks, impressoras, lupas, nobreaks), bem como estudantes que nele atuam, foram provisoriamente remanejados para outro laboratório: “enquanto estava em campo, meus alunos estavam desesperados e os orientei a buscar o Laboratório de Paleontologia de Ribeirão Preto (LPRP) por conta da nossa afinidade em pesquisa e compartilhamento de espaços comuns de laboratório de preparação de fósseis e coleção científica há 15 anos”.

“Não há previsão para o conserto do telhado do Anfiteatro André Jacquemin, que afetou severamente a sala 10 do bloco 13, onde está instalado o LAPI. Assim, é impossível manter a rotina de trabalho presencial na USP, tanto para mim quanto para o meu grupo de pesquisa”, afirma a docente na carta.

“Confesso que estou muito frustrada com toda essa situação, com a morosidade na tomada de decisões e com o fato de a USP ostentar uma situação financeira confortável enquanto problemas dessa gravidade permanecem sem solução”, enfatiza ela, fazendo referência aos R$ 8,6 bilhões que a Reitoria mantinha em caixa no início do ano. “Situações como a que estamos vivendo deveriam ser tratadas como prioridade absoluta pela administração central da Universidade de São Paulo”.

Eventos climáticos como o de 24/7 tendem a se tornar cada vez mais frequentes, adverte Annie. “Hoje são os blocos da Biologia, os laboratórios e as salas de aula da graduação. Amanhã poderão ser outros laboratórios e outras dependências na nossa unidade. Acredito que a chefia, o Conselho do Departamento e nossos representantes nas comissões internas deveriam atuar de forma articulada e solicitar, em unidade, uma reunião com a Diretoria da Faculdade, com a maior brevidade possível”.

A seu ver, não basta “instalar lonas sobre telhados que voltarão a permitir infiltrações e alagamentos na próxima chuva, tampouco adotar medidas paliativas para problemas estruturais que se acumulam há anos” nos prédios do DB. Nem é aceitável, protesta ela, “transferir, ainda que indiretamente, o ônus desse evento climático extremo aos(às) docentes, que diariamente sustentam as atividades de ensino, pesquisa e extensão e que, justamente no momento em que mais necessitam de respaldo institucional, veem-se obrigados a encontrar soluções individuais para problemas que são de responsabilidade da universidade”.

Annie considera ainda “inaceitável a normalização de uma realidade que não deveria ser aceita como parte do cotidiano da Universidade de São Paulo”, razão pela qual propõe às instâncias do DB uma atitude determinada e combativa: “Precisamos cobrar e pressionar os gestores da unidade e da Universidade para que sejam adotadas medidas efetivas e estruturantes. Confiar apenas na boa vontade da institucionalidade não resolverá o problema”, diz. “Tampouco podemos deixar de exercer a legítima pressão institucional sob a justificativa de que tudo o que precisava ser dito já foi dito ou encaminhado e que, a partir de agora, resta apenas aguardar os trâmites burocráticos”.

A carta assinala que é “revoltante” constatar que, apesar de sua pujança financeira, a USP não se disponha a reverter uma parcela de seus recursos “à recuperação da infraestrutura do campus de Ribeirão Preto e de suas unidades de ensino”, e que sua execução permaneça “centralizada na Prefeitura do Campus (PUSP-RP)”. Isso porque, observa ela, são os dirigentes das unidades que “conhecem de perto a realidade de seus espaços”, as fragilidades de sua infraestrutura e as necessidades cotidianas de docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes.

“Diante da gravidade da situação vivenciada após o evento climático extremo, torna-se evidente a necessidade de ampliar a autonomia das unidades para definir prioridades e executar intervenções emergenciais, garantindo maior agilidade na resposta a problemas que comprometem diretamente as atividades de ensino, pesquisa e extensão”, continua.

“A excessiva centralização das decisões e dos recursos acaba por retardar soluções urgentes, ampliando prejuízos materiais, acadêmicos e humanos que poderiam ser minimizados por uma atuação mais célere e descentralizada”, arremata.

“USP não está preparada para situações de emergência”

Outros laboratórios da unidade sofreram danos severos no dia 24 de julho. “Já se passaram duas semanas da ocorrência do temporal e somente agora recebemos informações de que a Reitoria liberou recursos para o nosso campus. Para a remoção dos resíduos vegetais ainda teremos que esperar mais uma semana para que o processo de contratação de uma empresa seja finalizado”, declarou ao Informativo Adusp Online o professor Marcelo Pereira, que divide a coordenação do Laboratório de Ensino de Biologia (LEB) com o professor Marcelo Tadeu Motokane.

No tocante aos reparos de telhados e forros, “o serviço também só será contratado na semana que vem, para que seja realizado para todas as unidades em um contrato conjunto”, acrescentou.

“Ainda não está claro se haverá ordem de prioridades e quando exatamente os serviços serão iniciados. Menos ainda quanto ao prazo de execução! É um tempo gigantesco para quem corre o risco de perder experimentos e equipamentos a qualquer momento. Isso sem falar na deterioração dos prédios afetados”, deplora o docente.

“Isso nos leva a concluir que a USP não está minimamente preparada para administrar situações de emergência. Demonstra também um descaso com relação às atividades, com o patrimônio e com pessoas do nosso campus”, completa Marcelo, que é o representante da “Filô” no Conselho de Representantes (CR) da Adusp.

“A situação é trágica realmente! Estamos muito ocupados tentando salvar o que sobrou e retomar os trabalhos. Temos prazos para cumprir e relatórios para entregar às agências que financiam nossa pesquisa!”, diz a professora Maria Helena de Souza Goldman, coordenadora do Laboratório de Biologia Molecular de Plantas da Filô.

Direção da unidade reage a questionamentos da comunidade

Nesta quinta-feira, 6 de agosto, a direção da “Filô” encaminhou à comunidade, por e-mail, considerações sobre a situação decorrente do vendaval, bem como um “Relatório de Ações Emergenciais e Operacionais”, elaborado na véspera pela Divisão Administrativa da FFCLRP.

“Considerando os impactos do evento climático extremo ocorrido em 24 de julho de 2026 e os questionamentos recebidos de diferentes segmentos da comunidade universitária, compartilhamos a seguir uma atualização sobre as ações de recuperação da infraestrutura da FFCLRP e os próximos passos previstos”, principia o comunicado.

“Desde a ocorrência da tempestade, a Diretoria, com o apoio das equipes da Unidade, tem atuado continuamente para minimizar os impactos causados e restabelecer, com a maior brevidade possível, as condições para o pleno funcionamento das atividades acadêmicas e administrativas. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas nos primeiros dias — como a interrupção do fornecimento de energia elétrica, da rede de dados e os danos significativos à infraestrutura — as atividades essenciais da Unidade não foram interrompidas”.

A direção informa que 43 das 57 edificações da unidade “sofreram avarias em suas coberturas, sendo que 4 delas necessitarão de reconstrução completa dos telhados”. O levantamento técnico realizado identificou, “entre outras necessidades, aproximadamente 6.215 m² de telhados, 1.975 m² de forros, 11.187 m² de pintura e 64 m² de vidros a serem recuperados ou substituídos”, o que implicará despesas de R$ 4,5 milhões.

Diz que “foram executadas inúmeras ações emergenciais” (vistorias, proteção provisória das coberturas com lonas, operação contínua de geradores, remoção de árvores e galhos com risco iminente, desobstrução de vias internas etc.) e que, em razão da “magnitude dos danos” e do “elevado volume de recursos necessários para a recuperação das unidades atingidas”, a Reitoria definiu “que as contratações de maior porte fossem conduzidas de forma centralizada” pela PUSP-RP, “possibilitando uma condução padronizada dos procedimentos administrativos”.

Pondera que, embora se trate de contratações emergenciais, “todos os processos deverão observar os procedimentos previstos na legislação aplicável à Administração Pública, incluindo a elaboração da documentação técnica, a análise prioritária pela Procuradoria Geral e, posteriormente, a assinatura da autoridade competente”, no caso o reitor.

EXPRESSO ADUSP


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