No dia 14 de maio, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) emitiu nota na qual reafirma “a vocação e o compromisso das três instituições [USP, Unesp, Unicamp] em defesa do pluralismo, diversidade de opiniões e do espírito democrático e republicano”; diz compreender “o cenário de dificuldades pelo qual passa o ensino superior em nosso país”; e ressalta, “entretanto”, que “divergências devem ser enfrentadas e ultrapassadas por meio do diálogo”.

Acrescenta a nota que a “universidade pública deve, acima de tudo, cumprir a missão de promover um ambiente acolhedor e tranquilo para as discussões com a comunidade”, e que o Cruesp refuta “veementemente qualquer iniciativa que estimule a violência nos segmentos discente, servidores docentes e técnico-administrativos”. Por fim, diz acreditar que é “com o esforço de toda a comunidade que superaremos eventuais divergências de ideias”.

Não deixam de ser intrigantes, no sentido de despertar curiosidade, tais afirmações das reitorias.

Daniel GarciaDaniel Garcia
Debate realizado pelo movimento estudantil durante a ocupação da Reitoria, em 9 de maio

Foi o reitor da USP que, unilateralmente, decretou o encerramento de negociações com as representações estudantis da universidade; e assim, ao suspender o diálogo, empurrou o movimento grevista à ocupação do prédio da Reitoria, no dia 7 de maio.

Foi a Reitoria da USP que, sem buscar negociar previamente com as lideranças do movimento grevista, comunicou a existência da ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), a pretexto de cumprir “seu dever de ofício de proteção da integridade física dos docentes, servidores técnico-administrativos, estudantes e terceirizados, bem como dos espaços físicos” e, claro, “com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais”.

E, ainda que a Reitoria negue haver pedido à SSP a desocupação ocorrida na madrugada de 10 de maio, ela se limitou a “lamentar” os “acontecimentos” (sic), a saber: as violências desnecessariamente cometidas pela Polícia Militar contra os ocupantes da Reitoria, entre as quais se inclui um golpe de cassetete que quebrou o braço de uma aluna negra.

Nem a Reitoria, nem o Cruesp condenaram explicitamente a truculência da PM, situada na contramão da proposta de “ambiente acolhedor e tranquilo” sugerida pela nota.

Tais “acontecimentos” parecem distantes do “espírito democrático e republicano” a que o Cruesp faz alusão — a não ser que a referência seja ao partido Republicanos, do governador Tarcísio de Freitas, a quem se atribui a ordem de reintegração de posse da Reitoria da USP.

Quanto ao “esforço de toda a comunidade” que viabilize a superação de “eventuais divergências de ideias”, é importante que as reitorias se incluam em tal “comunidade” e se disponham a um diálogo efetivo com as representações estudantis (e do Fórum das Seis). Além disso, na realidade não há “eventuais divergências”, e sim um conflito claro, nitidamente delineado, em torno da alocação de recursos públicos.

O GT Verbas da Adusp já demonstrou que, no tocante à USP, igualar a bolsa de permanência (PAPFE) ao salário-mínimo paulista traz um impacto suplementar de 1,9% ao orçamento, portanto perfeitamente suportável para uma universidade que tinha em caixa, em dezembro de 2025, nada menos que R$ 8,699 bilhões.

Íntegra da nota do Cruesp

O Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), entidade que reúne a Unesp, a USP e a Unicamp, reafirma a vocação e o compromisso das três instituições em defesa do pluralismo, diversidade de opiniões e do espírito democrático e republicano. Compreendemos o cenário de dificuldades pelo qual passa o ensino superior em nosso país. Ressaltamos, entretanto, que divergências devem ser enfrentadas e ultrapassadas por meio do diálogo.

A universidade pública deve, acima de tudo, cumprir a missão de promover um ambiente acolhedor e tranquilo para as discussões com a comunidade. Portanto, refutamos veementemente qualquer iniciativa que estimule a violência nos segmentos discente, servidores docentes e técnico-administrativos.

A universidade pública deve preservar e fortalecer a responsabilidade e serenidade perante a sociedade. Trata-se de tarefa que envolve todos aqueles que fazem parte do patrimônio composto pelas três instituições públicas de ensino paulistas. É com o esforço de toda a comunidade que superaremos eventuais divergências de ideias e prosseguiremos na caminhada que elevou USP, Unicamp e Unesp a figurarem entre as melhores universidades do Brasil.

Maysa Furlan

Presidente do Cruesp e reitora da Unesp

EXPRESSO ADUSP


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