Universidade
Reunida em assembleia geral, comunidade da Faculdade de Saúde Pública reconhece legitimidade da greve discente e propõe à Reitoria “retomada urgente” do diálogo
Reunida em 1º de junho último, a comunidade da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), reunida em Assembleia Geral dos três segmentos (estudantes, docentes e funcionários-as técnico-administrativos-as), aprovou carta-manifesto diante da greve estudantil em curso, em que considera “inadmissíveis” as “condições materiais de vida enfrentadas por parcela significativa do corpo estudantil da USP”, e lembra que a efetivação do direito à educação “exige a consolidação e o fortalecimento de políticas permanentes de permanência estudantil, capazes de garantir condições concretas para que estudantes ingressem, permaneçam e concluam sua formação com dignidade”.
Nesse sentido, prossegue o documento, “as pautas apresentadas pelo movimento estudantil são legítimas e expressam demandas urgentes relacionadas à construção de uma universidade mais inclusiva, democrática e comprometida com as necessidades da sociedade”, além de dialogar diretamente “com os princípios que orientam a defesa da educação pública e com o compromisso institucional de enfrentamento das desigualdades”.
A carta-manifesto destaca ainda que, no âmbito da FSP, “os primeiros dias da greve foram marcados pela construção de espaços coletivos de diálogo, negociação e escuta entre os diferentes segmentos da comunidade acadêmica”, e que o “diálogo democrático é o caminho mais legítimo para o enfrentamento dos conflitos que atravessam a vida universitária”.
Íntegra da carta-manifesto da FSP-USP
A comunidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, reunida em Assembleia Geral dos três segmentos (estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos) no dia 1º de junho de 2026, vem a público manifestar seu posicionamento diante da greve estudantil em curso e dos acontecimentos que a cercam.
A Faculdade de Saúde Pública é uma instituição historicamente comprometida com a defesa da saúde como direito, da educação pública, da democracia, da justiça social e da produção de conhecimentos voltados à transformação das condições de vida da população brasileira. É a partir desses princípios que nos posicionamos neste momento.
Reconhecemos que as condições materiais de vida enfrentadas por parcela significativa do corpo estudantil da Universidade de São Paulo são inadmissíveis. As dificuldades relacionadas à moradia, alimentação, transporte, saúde mental, acesso a recursos pedagógicos e manutenção da vida acadêmica expressam desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira e se reproduzem, ainda que de formas específicas, no interior da universidade pública.
Reconhecemos, igualmente, a importância histórica e estratégica das políticas de acesso e ações afirmativas para a democratização do ensino superior. Contudo, entendemos que o ingresso na universidade, embora fundamental, não é suficiente. A efetivação do direito à educação exige a consolidação e o fortalecimento de políticas permanentes de permanência estudantil, capazes de garantir condições concretas para que estudantes ingressem, permaneçam e concluam sua formação com dignidade.
Nesse sentido, afirmamos que as pautas apresentadas pelo movimento estudantil são legítimas e expressam demandas urgentes relacionadas à construção de uma universidade mais inclusiva, democrática e comprometida com as necessidades da sociedade. São reivindicações que dialogam diretamente com os princípios que orientam a defesa da educação pública e com o compromisso institucional de enfrentamento das desigualdades.
Destacamos que, no âmbito da Faculdade de Saúde Pública, os primeiros dias da greve foram marcados pela construção de espaços coletivos de diálogo, negociação e escuta entre os diferentes segmentos da comunidade acadêmica. Tais processos ocorreram de maneira respeitosa, transparente e comprometida com a busca de soluções compartilhadas, demonstrando que o diálogo democrático é o caminho mais legítimo para o enfrentamento dos conflitos que atravessam a vida universitária.
Ao mesmo tempo, manifestamos nossa profunda preocupação e indignação diante da invasão da Polícia Militar ao prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo, ocorrida na madrugada do Dia das Mães. A presença de forças policiais para intervir em conflitos políticos e institucionais internos da universidade representa um grave episódio que fere a autonomia universitária, fragiliza a construção democrática e produz efeitos incompatíveis com os princípios que devem orientar uma instituição pública de ensino superior.
Tal ação deve ser amplamente debatida, criticada e rechaçada pela universidade. Acreditamos que as mobilizações estudantis, incluindo a greve, constituem parte legítima da tradição democrática das universidades públicas. Mais do que instrumentos de reivindicação, representam experiências formativas que possibilitam o exercício da participação política, da construção coletiva, da reflexão crítica e da produção de novos sentidos para a vida universitária. Ao longo da história, importantes avanços sociais e institucionais foram impulsionados pela capacidade de mobilização de estudantes, trabalhadores e movimentos sociais.
Por essa razão, entendemos que o atual cenário exige a retomada urgente dos canais institucionais de negociação. A comunidade da Faculdade de Saúde Pública conclama a Reitoria da Universidade de São Paulo a reabrir o processo de diálogo com o movimento estudantil, reconhecendo a legitimidade de suas demandas e construindo caminhos efetivos para o enfrentamento dos problemas que deram origem à greve. A negociação democrática não deve ser compreendida como concessão, mas como condição indispensável para a vida universitária.
Mais do que expressar um posicionamento conjuntural, esta assembleia reafirma compromissos coletivos que deverão orientar a atuação da comunidade da Faculdade de Saúde Pública nos próximos períodos. Assumimos o compromisso permanente de defender as pautas relacionadas à inclusão, permanência estudantil e democratização da universidade, compreendendo que tais temas não se restringem ao contexto imediato da greve, mas constituem desafios estruturais da instituição.
Comprometemo-nos a fortalecer e apoiar mobilizações, debates, pesquisas, atividades de ensino, projetos de extensão e demais iniciativas acadêmicas que promovam a reflexão crítica sobre inclusão, permanência estudantil, desigualdades sociais, justiça social e democratização da educação superior.
Reafirmamos nosso compromisso com a não retaliação, não punição e não reprovação de estudantes em decorrência de sua participação na greve, reconhecendo o direito à organização política e à mobilização coletiva como dimensões constitutivas da experiência universitária.
Defendemos, ainda, a construção de mecanismos que permitam a recomposição do calendário acadêmico, respeitando as especificidades da unidade, as condições concretas de estudantes e trabalhadores e a preservação da qualidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Por fim, reafirmamos que a universidade pública somente cumpre plenamente sua função social quando é capaz de acolher a diversidade de seus estudantes, enfrentar as desigualdades que limitam sua permanência e sustentar espaços democráticos de escuta, participação e construção coletiva. O presente momento exige coragem institucional, compromisso público e disposição para o diálogo.
A comunidade da Faculdade de Saúde Pública da USP permanece ao lado da defesa da educação pública, gratuita, democrática e inclusiva, e conclama toda a Universidade de São Paulo a transformar este momento de conflito em uma oportunidade de fortalecimento de seus princípios mais fundamentais.
Assembleia Geral da Comunidade da Faculdade de Saúde Pública da USP – Estudantes, Servidores Técnico-Administrativos e Docentes
1º de junho de 2026
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