Serviço Público
“Uma equipe em que vários integrantes trabalharam por vinte anos foi dispensada sem nenhuma palavra de reconhecimento”; jornalistas desligados da revista “Pesquisa Fapesp” denunciam gestão Zago por falta de diálogo, desinformação e descaso
Dezesseis jornalistas que trabalharam por anos na revista Pesquisa Fapesp e que foram desligados, no início deste mês, a pretexto da “reestruturação” do setor de comunicação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciada no último dia 19 de fevereiro, publicaram uma “carta de despedida” no portal especializado Observatório da Imprensa, no qual denunciam o modo como as mudanças foram conduzidas e o tratamento desrespeitoso que receberam. A Fapesp é presidida desde 2018 por M.A. Zago, ex-reitor da USP.
A gestão atual da Fapesp atropelou a aposta feita por seus antecessores na virada do século. “No final dos anos 1990, a direção da Fapesp tomou a decisão visionária de criar sua própria revista sobre ciência brasileira, feita por um time de jornalistas especializados e dedicados integralmente à publicação”, diz o artigo. “O visionarismo do passado deu lugar a uma confusão conceitual: a revista passou a ser vista pela Fundação como um veículo de caráter mais institucional”.
O grupo de jornalistas cita como exemplo do entendimento distorcido da cúpula da fundação acerca do papel da revista o documento intitulado “Manifestação do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da Fapesp sobre a reestruturação da revista Pesquisa Fapesp”, de 9 de março (publicado no dia seguinte), no qual “o desempenho da revista é comparado ao da agência de notícias” da Fapesp, e “o custo de produção da revista é cotejado, de modo pouco fiel, ao da gerência de comunicação institucional”.
A única métrica de desempenho mencionada no comunicado, dizem os autores e autoras, são as “menções na mídia nacional e internacional, indicador aplicável a uma assessoria de imprensa ou agência de notícias”, mas não a uma revista com as características singulares de Pesquisa Fapesp, que fizeram dela uma publicação de prestígio na comunidade científica e cuja finalidade é “falar diretamente com a população sobre ciência”, razão pela qual estava subordinada diretamente à Diretoria Científica da Fapesp.
“É de causar espanto o fato de que uma das principais agências de fomento à atividade científica e tecnológica do país tenha esquecido um ensinamento repetido a todo pesquisador em início de carreira: não se pode comparar objetos de categorias diferentes como se fossem equivalentes”, advertem. “Uma revista jornalística tem por objetivo expor resultados de forma abrangente e crítica, escolhendo pautas e cuidando do texto de modo a atrair e reter a atenção dos leitores. Já a missão de uma agência de notícias institucional é fornecer a outros veículos de comunicação informações pertinentes à atuação da instituição que a abriga”.
Produzir todo o conteúdo que Pesquisa Fapesp publicava mensalmente, “respeitando seus procedimentos de checagem e aperfeiçoamento, tem um custo, assim como tem um custo fazer ciência de qualidade, com rigor”, assinalam. “É prerrogativa da Fundação decidir se é do seu interesse manter esse investimento. Essa avaliação de que a revista seria ‘cara’ foi reforçada por cifras fantasiosas, que circularam na comunidade científica e foram difundidas por jornalistas sem averiguação”.
De acordo com a “carta de despedida”, publicada no dia 8 de maio último, a “desinformação a respeito do seu custo, somada à confusão conceitual sobre seu propósito e a dificuldades operacionais resultantes de escolhas administrativas e jurídicas equivocadas da Fundação, motivaram uma radical reestruturação da Pesquisa Fapesp neste ano e, a partir de junho, o desligamento de toda a equipe de 25 pessoas”.
Como agravante, relatam, “o caminho adotado pela cúpula da Fapesp para essa ‘reestruturação’ foi marcado pela ausência de diálogo, por propostas de trabalho precarizado, pela divulgação de informações contraditórias, quando não erradas, além de insinuações sobre o descumprimento de medidas (quais? por quem?) e de “usos político-partidários” da revista – lembrando que a pauta de todas as edições era previamente avaliada e avalizada pela direção da Fapesp e que nenhuma edição seguia para a gráfica sem o ‘de acordo’ de todos os seus diretores”.
O grupo aponta como exemplo do descaso da cúpula da fundação o fato de não ter sido publicada no site institucional ou na Agência Fapesp, até a data de publicação da “carta de despedida”, sequer uma nota sobre a edição 2026 do Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, concedido em maio à revista pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Uma equipe em que vários integrantes trabalharam por vinte anos foi dispensada sem nenhuma palavra de reconhecimento”, deploram.
“Ao longo de décadas, a revista Pesquisa Fapesp se consolidou como uma das mais importantes referências do jornalismo científico brasileiro, graças ao talento, ao rigor e ao compromisso de profissionais que souberam traduzir a complexidade da ciência para o público em geral. Como pesquisador e comunicador, sempre reconheci na revista Pesquisa Fapesp um espaço fundamental de diálogo entre a produção científica e a sociedade”, comentou, a pedido do Informativo Adusp Online, o biólogo e documentarista José Sabino, diretor da produtora Natureza em Foco.
“Em tempos marcados pela desinformação, o trabalho desses jornalistas tornou-se ainda mais valioso. Sua contribuição ultrapassa a cobertura de pesquisas: ajuda a formar uma cultura científica mais sólida, crítica e democrática. Expresso minha solidariedade aos profissionais desligados e minha esperança de que sua experiência e dedicação continuem encontrando espaços para enriquecer o jornalismo e a divulgação científica no Brasil”.
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