Nota da Diretoria
“Nova” política de claros mantém competição entre unidades e insegurança na reposição de docentes
A Reitoria da USP divulgou em 14 de agosto uma Política de Distribuição de Cargos de Professor Doutor, que deverá orientar a distribuição de claros entre 2026 e 2029. A Circular 285 do Gabinete do Reitor estabelece que as vagas abertas por aposentadorias e desligamentos não serão automaticamente devolvidas às unidades de origem, e reserva parte delas para “redimensionamento do quadro docente” e “projetos institucionais”.
A medida incide sobre um problema antigo que a USP ainda não resolveu. A insuficiência do número de professores devida à redução do quadro docente operada a partir da gestão de Zago e Vahan (2014-2018) foi um dos principais motivos da greve estudantil de 2023.
Naquele momento, sob a gestão de Carlotti Jr. e Arruda, a mobilização colocou no centro do debate a falta de professores em diferentes cursos e unidades. Em outubro daquele ano, a Reitoria anunciou a disponibilização de mais de mil vagas docentes: mais precisamente 879 já pertencentes ao plano de contratações em andamento e outras 148 conquistadas pelo movimento estudantil durante a negociação. Assumiu também o compromisso de avançar, até o final daquela gestão, para a reposição automática das vagas abertas por aposentadorias, falecimentos e exonerações.
O problema vem de longe. Em janeiro de 2014, quando Marco Antonio Zago assumiu a Reitoria, a USP contava com 6.026 docentes, o maior contingente registrado naquele período e o patamar que a própria Universidade adotaria anos depois como referência para a recomposição do quadro. Diante da crise de financiamento, a gestão Zago respondeu com uma política de forte contenção de despesas, que incluiu a suspensão das contratações de pessoal — inclusive das reposições de aposentados e demitidos. Como hoje sabemos, o ajuste das contas foi feito por meio da redução prolongada dos quadros e do arrocho salarial — nossos salários ainda hoje têm poder de compra cerca de 15% inferior ao daquele período.
Em setembro de 2023 a folha da USP registrou 5.272 docentes ativos. Ou seja: 754 docentes a menos do que em janeiro de 2014, uma redução de 12,5%. A escassez era ainda mais grave em algumas unidades e cursos e, como dito, se tornou um dos temas centrais da greve estudantil daquele ano.
Apesar das promessas, desde esse pior momento em setembro de 2023, foram contratados apenas 938 novos docentes efetivos — 83 no fim de 2023, 331 em 2024, 326 em 2025 e 198 no primeiro semestre de 2026. No mesmo período, porém, 614 docentes deixaram a Universidade por aposentadoria ou outros desligamentos. Assim, apesar das contratações, o crescimento líquido do quadro foi de apenas 325 docentes.
Com isso, em junho de 2026, a USP tinha 5.655 docentes ativos. São 371 a menos do que os 6.026 de janeiro de 2014, um déficit ainda superior a 6%. Mais de uma década depois do início da redução do quadro — e três anos depois de uma greve que tornou suas consequências impossíveis de ignorar —, a Universidade ainda não fez a reposição necessária e prometida.
É nesse contexto que a política da nova gestão causa preocupação. Em vez de completar a recomposição e enfrentar as desigualdades por meio da ampliação do quadro, a circular transforma novamente as vacâncias em instrumento de disputa entre as unidades. Estabelece como referência que ao menos 70% dos cargos sejam destinados à reposição, e deixa claro que ela será “preferencial, mas não automática”. Apenas unidades com até três vacâncias terão reposição integral garantida, e os percentuais poderão ser revistos anualmente.
Na prática, a Comissão de Claros Docentes, presidida pelo reitor, toma das unidades 30% dos cargos vacantes e sua distribuição fica a cargo dela própria. Afinal, quem e quais critérios definirão o redimensionamento do corpo docente de acordo com os projetos institucionais?
A Reitoria justifica a medida pela necessidade de corrigir “assimetrias históricas entre as unidades”. Não se corrige a má distribuição de um quadro insuficiente redistribuindo a insuficiência. A medida faz com que unidades e departamentos convivam com a incerteza quanto à reposição de cada docente perdido, e as coloca em competição por um conjunto limitado de cargos, cuja distribuição ficará sob decisão da Comissão de Claros Docentes.
A Adusp defende outro caminho. O Programa da Adusp para a USP, atualizado em 2025, propõe a descentralização da distribuição dos claros; a reposição automática das vagas decorrentes de aposentadorias, falecimentos e rescisões nos locais de origem; e, adicionalmente, a ampliação do quadro docente, de forma a recuperar as perdas acumuladas e responder à expansão e às desigualdades existentes na Universidade.
Depois da crise que levou à greve de 2023, a tarefa da atual gestão deveria ser superar a política de administração da escassez. A USP precisa garantir a reposição de quem sai e criar novos cargos para corrigir os déficits onde eles são maiores — ao invés de transformar unidades e departamentos em concorrentes pelos claros disponibilizados pela perda de seus próprios docentes.
A insuficiência generalizada de docentes tem efeitos diretos e profundos sobre o trabalho cotidiano na Universidade. A redução prolongada do quadro, somada à má distribuição entre unidades, produz uma sobrecarga crescente sobre os professores que permanecem, obrigados a acumular disciplinas, assumir turmas maiores, ampliar orientações e suprir lacunas administrativas. Esse cenário já resultou em numerosos casos de adoecimento, incluindo quadros de exaustão extrema e burnout, que não apenas comprometem a saúde dos docentes, mas também colocam em risco a qualidade da atividade didática, a continuidade dos cursos e a formação dos estudantes.
A USP não pode normalizar esse nível de desgaste do corpo docente como parte de seu funcionamento regular; trata-se de um sinal claro de que o quadro atual é insuficiente para sustentar as demandas acadêmicas da instituição.
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