Conjuntura Nacional
“Somos o alvo preferencial da retaliação que a ultradireita prepara. Não nos enganemos. O regime de exceção está enunciado com todas as letras”, adverte na FFLCH, em fala contundente, Paulo Sérgio Pinheiro
Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) aposentado há mais de duas décadas, diplomata, ex-ministro de Direitos Humanos e integrante da hoje extinta Comissão Nacional da Verdade, Paulo Sérgio Pinheiro voltou à unidade no último dia 7 de outubro para participar de um evento sobre o segundo turno das eleições presidenciais, a convite da direção da unidade.
Na ocasião, proferiu uma fala curta, porém arrebatadora, na qual advertiu para os graves riscos que a democracia enfrenta neste momento e convocou a comunidade universitária a resistir e tomar posição contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). “Nós somos o alvo preferencial da retaliação que a ultradireita prepara”, disse, fazendo referência às universidades públicas. “Não se iludam a esse respeito. Durmam e acordem com isso na cabeça durante essas três semanas. Não nos enganemos. O regime de exceção está anunciado com todas as letras”.
O docente elencou uma série de perigos que decorrerão, a seu ver, de uma eventual vitória do candidato do PL no segundo turno, tanto para as liberdades democráticas em geral como, em particular, para as instituições federais e estaduais que financiam a pesquisa científica — como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
“Ataque frontal à universidade pública, cortes brutais de verbas, fim da liberdade de reunião e de pensamento. CNPq fechado. Capes totalmente esvaziada”, disse. “A Fapesp com o governador neofascista [será] enfraquecida, porque estamos prestes à negociação dos fundos com os quais, graças a Caio Prado Júnior, a Fapesp foi criada e continua a sobreviver”.
Pinheiro não poupou o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e potencial postulante à Presidência da República: “O que significa a extrema-direita com o Congresso na mão? A Presidência ao alcance de um governador neofascista de São Paulo? 60% da votação deste governador neofascista que institui escolas civil-militares”.
Ainda segundo o docente, um eventual governo de Flávio Bolsonaro perseguiria seus inimigos: “Perseguição ideológica. Prisão de professores e estudantes. Esse vai ser o dia a dia. Cerceamento da atividade sindical dos funcionários. Não vai ter sindicato protestando legalmente dentro da universidade”, disse.
Íntegra da fala do professor Paulo Sérgio Pinheiro na FFLCH
Eu queria saber quantos professores estão aqui. Quantos? Quer dizer, onde estão os outros professores? Do bastião do progressismo da universidade [ironiza]. Deve ter mais alguns lá atrás. Estudantes estão bastante. Agora, professores estão muito, muito reduzidos. E aí, vou dizer tudo que esses professores que estão aqui deviam ter consciência do que vai acontecer se o regime de exceção for estabelecido. Se vocês não se movimentarem, é isso que vai acontecer dentro da universidade [apontando para a folha de papel com seu discurso].
Eu estou aposentado desde 2001. Mas, de qualquer maneira, me espanta que os professores não estejam aqui. O que significa a extrema-direita com o Congresso na mão? A Presidência ao alcance de um governador neofascista de São Paulo? 60% da votação deste governador neofascista que instituiu escolas civil-militares. Ataque frontal à universidade pública. Cortes brutais de verbas. Fim da liberdade e reunião de pensamento.
Isso será impossível [em referência a eventos como o da FFLCH]. No outro dia, que eu estava lá no Pensa Brasil, e eu fui substituir o “Elton John”, que era a ministra Carmen, e eu dizia, esse Pensa Brasil não vai ser possível de novo, se a extrema-direita conquistar a Presidência da República. Isso é que todos os professores deveriam espalhar.
E os alunos cobrem seus professores. Os professores que não se manifestarem estão coonestando o regime de exceção que vai ser instalado. Se as outras faculdades não se manifestarem, a Faculdade de Filosofia tem que se manifestar. Em honra de todos os que nos precederam aqui nessa faculdade, lembremo-nos deles, Florestan, só cito Florestan, e tantos outros que já se foram, e fizeram tanto, tantos outros nomes podem ser lembrados.
É que eu tinha uma frase do Florestan na cabeça, do discurso dele, em 64, na formação de uma turma aqui na Filosofia, ele dizia: “Os intelectuais universitários da universidade são os lídimos defensores da instalação da democracia”. Eu acho que isso precisa ser relembrado.
Eu continuo. Cortes brutais de verbas. Fim da liberdade, reunião de pensamento. Destruição do financiamento da pesquisa. CNPQ fechado. Capes totalmente esvaziada. A Fapesp com o governador neofascista, enfraquecida, porque estamos prestes à negociação dos fundos com os quais, graças a Caio Prado Júnior, a Fapesp foi criada e continua a sobreviver.
Mesmo durante a Ditadura, todos meus projetos foram financiados pela Fapesp, depois eu soube, graças a um anjo da guarda que eu vou dizer, que era totalmente secreto, que era o grande professor Aziz Simão.
Arrocho salarial. Estão todos contentes com esse arrocho? Virá mais arrocho. Virá mais arrocho.
Perseguição ideológica. Prisão de professores e estudantes. Esse vai ser o dia a dia. Cerceamento da atividade sindical dos funcionários. Não vai ter sindicato protestando legalmente dentro da universidade.
Eu vou terminar.
O que vier depois do segundo turno depende de nós, e dos que não estão aqui, das universidades, dos intelectuais, dos movimentos sociais, dos defensores dos direitos humanos, dos jornalistas, dos partidos. Nós somos o alvo preferencial da retaliação que a ultradireita prepara. Não se iludam a esse respeito.
Durmam e acordem com isso na cabeça durante essas três semanas. Não nos enganemos. O regime de exceção está enunciado com todas as letras.
Já tentaram impô-lo em 8 de janeiro. E sem fazer loas ao maior responsável sobre isso, que foi o Supremo Tribunal Federal, sem um juiz, sem um ministro, e sem o Supremo Tribunal Federal, o gângster Bolsonaro e os seus sete generais, que estão em detenção, não estariam presos.
E os 800 que participaram do putsch de 8 de janeiro. E esse é o projeto do candidato de extrema-direita. Dar a graça, indulto a todos. Ele ameaçou o Supremo. Se o Supremo contestar o indulto, a graça que eu vou dar, vamos invadir militarmente o Supremo. Esse é o projeto.
Esse momento não admite silêncio dos professores, nem dos alunos. Neutralidades, nem desculpa. Não venham com desculpas, que não podem se mobilizar, que têm muito o que fazer, que têm pesquisas. Aulas a dar. Azar! Eu acho que uma faculdade funcionando plenamente nessas três semanas é absolutamente fundamental. Eu não estou convidando a nenhuma greve.
Mais ação, mais ação! Não podemos [ter] professores blasée achando que essas três semanas são normais. Não são normais.
Se vocês não se manifestarem, isso vai totalmente para o buraco. Ou resistimos agora, ou amanhã teremos que explicar, que vergonha, por que, tendo compreendido o perigo, nada fizemos para eleger Lula, para impedir a tomada do Estado pela extrema-direita bolsonarista.
É isso aí. Obrigado.
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