Defesa da Universidade
Oficinas de job crafting, palestras sobre “papel do herdeiro” e outros atalhos para o fundo do poço
No último dia 28/5, os docentes da USP receberam e-mail enviado pelo “Escritório de Desenvolvimento de Carreiras” (ECar), órgão da Pró-Reitoria da Graduação (PRG), no qual se anunciava a realização de “duas Oficinas Job Crafting para docentes USP”, agendadas para 1o/6 e 8/6. A mensagem explicava que o job crafting é “uma ferramenta para customização do trabalho através da alteração das tarefas, das relações e do significado do trabalho com o objetivo de torná-lo mais significativo e envolvente”.
Ainda segundo o e-mail enviado pelo ECar, as oficinas têm dois objetivos: “1. Possibilitar que os docentes olhem para as suas atividades de trabalho atuais com um novo olhar e reflitam sobre novas formas de reestruturá-las, alinhando-as com seus valores, pontos fortes e interesses”, e “2. Oferecer formas de crafting do trabalho, de modo a aumentar a satisfação e o bem estar no trabalho dos docentes, por meio de técnicas para obtenção de mais sentido no trabalho docente”.
Seria cômico, não fosse trágico. Por intermédio do ECar, a PRG oferece aos docentes da USP uma possibilidade de “customização” do trabalho, por meio de técnicas que permitam obter “mais sentido no trabalho docente”. Será que a Comissão Permanente de Avaliação (“Nova CPA”) foi informada de que é possível “customizar” o trabalho docente? Será que a possibilidade de “aumentar a satisfação e o bem estar no trabalho” está mais relacionada às preferências individuais dos docentes do que às condições de trabalho oferecidas pela universidade?
“Sinceramente, considero ultrajante receber um e-mail da Pró-Reitoria de Graduação divulgando ação deste tipo. Mas ele é significativo do ‘para onde vamos’”, protestou um docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA), em mensagem enviada à Adusp. De fato, cabe perguntar: qual a pertinência de organismos como o ECar?
Outra atividade realizada pelo escritório foi a palestra “O papel do herdeiro frente aos negócios da família”, realizada em 29/5 no auditório da Faculdade de Educação e que teve como “público-alvo” docentes, alunos, funcionários técnico-administrativos e “comunidade externa”. “O sucesso da sua carreira, com certeza, poderá agregar para o sucesso da empresa da sua família”, dizia o convite.
A palestrante, Renata Bueno, foi assim apresentada: “Parceira Estratégica do ECar; psicóloga; mestre e doutora em Psicologia Clínica; psicodramatista; terapeuta familiar sistêmica; coach de Carreira; MBA em Gestão de Pessoas; consultoria de carreira; atua em São José dos Campos, como psicóloga, terapeuta de famílias empresárias e coach de herdeiros; herdeira, da segunda geração, de um grupo logístico”.
É inegável que as rumorosas questões suscitadas por processos de sucessão familiar nas empresas deram origem a um próspero ramo da economia, que eventualmente pode ser objeto de disciplinas acadêmicas. Mas entre essa constatação, por um lado, e a inclusão, por outro lado, de palestras desse tipo na agenda de um órgão da USP vai uma enorme distância. Será que o ECar foi pensado como um meio de fornecer aos docentes uma generosa dose de escapismo, por intermédio de técnicas de coaching?
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