Memória
Adusp completa 50 anos de fundação no próximo dia 19/10; seu primeiro presidente eleito, Modesto Carvalhosa, relembra as lutas da entidade em meio à repressão da Ditadura Militar: “denúncia e ação”
A Associação de Docentes da USP, a Adusp, foi fundada numa assembleia realizada em 19 de outubro de 1976, há exatos 50 anos, na sequência de uma mobilização cujo catalisador foi o assassinato do jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) Vladimir Herzog pela Ditadura Militar, em 25 de outubro de 1975.
Uma Diretoria provisória, referendada por aclamação naquela assembleia, assumiu a entidade até a organização da eleição e a posse da primeira Diretoria escolhida pelo voto da categoria.
O primeiro presidente eleito foi Modesto Souza Barros Carvalhosa, professor da Faculdade de Direito da USP, que dirigiu a Adusp entre os anos de 1977 e 1979.
Em entrevista ao Informativo Adusp Online, que contou com a participação de Michele Schultz, ex-presidenta da Adusp por duas gestões e docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), e de Marcos Bernardino de Carvalho, 2º secretário da Diretoria da Adusp e também docente da EACH, Carvalhosa relembrou acontecimentos marcantes do período.
Nesta reportagem, destacamos alguns trechos da entrevista do professor. O depoimento completo de Carvalhosa, que completou 94 anos em 2026, integrará uma publicação especial que a Adusp vai lançar em comemoração aos 50 anos. A data também será celebrada em outros eventos. Acompanhe as notícias pelo site e publicações da Adusp.
Havia um sentimento de que “a Ditadura estava enfraquecida”
Carvalhosa abriu seu depoimento citando o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973). “Certa vez lhe disseram: você é o homem da ruptura, um pioneiro de toda a arte moderna e da pintura moderna. E ele, que era muito despachado, falou que não era pioneiro coisa nenhuma. ‘As ideias já estavam no ar’, disse. Veja que coisa sábia: as ideias estavam no ar, e estavam todos fazendo rupturas, alguns já anos antes do Picasso”, relata.
O professor evocou essa visão para falar de “um clima geral, um sentimento, digamos, difuso, pouco racional, pouco estabelecido até do ponto de vista da ação, de que a Ditadura iniciada em 1964 estava enfraquecida”.
Em diversos âmbitos da sociedade surgiam iniciativas e eram organizados movimentos. Na USP, a revolta da comunidade docente frente ao assassinato de Herzog foi um fator decisivo para a retomada da organização da categoria contra a repressão, as arbitrariedades policiais e as medidas de exceção da ditadura.
Uma comissão formada por nomes como Dalmo de Abreu Dallari (FD), Antonio Candido e Juarez Rubens Brandão Lopes, ambos da FFLCH, entre outros(as) docentes, entregou à Reitoria da USP uma nota de protesto pela morte do jornalista e professor.
A partir de então, os contatos para a formação de uma associação de docentes se intensificaram, num contexto em que se percebia a necessidade de abertura do regime e se constatava que a Ditadura começava a perder força.
No dia 19 de outubro de 1976, uma assembleia realizada no então chamado salão de convenções da Reitoria, à época sediada nos atuais blocos K e L da Administração Central, formalizou a criação da nova entidade.
A Diretoria de fundação aclamada pela assembleia teve a seguinte composição: Crodowaldo Pavan (IB), presidente; Domingos Valente (IB), 1º vice-presidente; Simão Mathias (IQ), 2º vice-presidente; Alberto da Rocha Barros (IF), 1º secretário; José Jeremias de Oliveira Filho (FFLCH), 2º secretário; Milton Santos de Campos (FMVZ), 1º tesoureiro; Carolina Bori, 2ª tesoureira.
Oito meses mais tarde, foi eleita, estatutariamente, a Diretoria que conduziu a Adusp no biênio 1977-1979.
A nova entidade substituiu a Associação de Auxiliares de Ensino, fundada em 1956. Na época, a denominação “auxiliar de ensino” englobava todos(as) os(as) professores(as) não catedráticos(as), como assistentes ou livre-docentes. O regime da cátedra vigorou na academia até a reforma universitária promovida pela Ditadura em 1968, quando foi introduzido o modelo de departamentos.
De acordo com Antonio Candido, em fala proferida no evento de comemoração dos 30 anos da Adusp, em 2006, “a Associação dos Auxiliares de Ensino conseguiu algo extraordinário: criou a carreira docente, a base para o ensino universitário regular”. Até então, o auxiliar de ensino era demissível e não tinha nenhum direito, relembrou.
Depoimentos sobre a época e sobre a Associação de Auxiliares de Ensino, cuja atuação acabou sendo bastante prejudicada na Ditadura, podem ser lidos num encarte especial publicado pela Revista Adusp nº 8 em dezembro de 1996, quando da comemoração dos 20 anos de fundação da Adusp.
O encarte reproduz uma mesa-redonda que reuniu vários docentes por iniciativa do professor e historiador Shozo Motoyama – que posteriormente criaria o Centro Interunidades de História da Ciência (CHC) na USP, dirigido por ele até a sua aposentadoria, em 2009 –, cuja transcrição foi publicada originalmente pela revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1984.
Vale lembrar que o Diretório Central dos Estudantes da USP também foi refundado em 1976, após a extinção decorrente da repressão da Ditadura. A entidade adotou então o nome DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, em homenagem ao estudante de Geologia da USP torturado até a morte no Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do II Exército em março de 1973 — mesmo centro de torturas em que Herzog seria assassinado em 1975.
Adusp denunciou Aesi, estrutura clandestina de espionagem política criada pela Reitoria
Carvalhosa conta que foi procurado por professores e professoras como Antonio Candido, Eunice Durham (FFLCH), Carlos Eduardo Baldijão (ICB), Luís Carlos de Menezes (IF) e José da Rocha Carvalheiro (FMRP) com a intenção de propor o seu nome como presidente de uma chapa para concorrer à eleição da Diretoria da Adusp.
“O Antonio Candido disse que queria que eu encabeçasse a chapa. Ele seria o vice-presidente, para me dar mais respaldo”, relata. Além de Carvalhosa e Candido, o grupo que venceria a eleição contra a chapa liderada por Simão Mathias tinha Erasmo Garcia Mendes (IB) como 2º vice-presidente; Carlos Baldijão como secretário; José Eduardo Martinho Hornos (IFSC) como 2º secretário; Gabriel Oselka (FMUSP) como tesoureiro; e José Carvalheiro como 2º tesoureiro.

“Eu disse então que topava concorrer, e eles me alertaram que eu podia não saber o que estava topando. Perguntei por que e me disseram: ‘Você fica aqui nesta Faculdade de Direito reacionária, mas lá na Reitoria o reitor tem ao lado dele uma delegacia de polícia’.”
O que Carvalhosa chamou de “delegacia de polícia” era a Assessoria Especial de Segurança e Informação (Aesi), criada pelo reitor Miguel Reale em 1972. A Aesi era vinculada ao Gabinete do Reitor e “colhia e repassava dados sobre supostas atividades subversivas ocorridas na USP a outros órgãos da chamada ‘comunidade de informações’, como o Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (Cisa), o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), a Polícia Federal, o SNI [Serviço Nacional de Informações] e o DOI-Codi”, define reportagem da Revista Adusp 33, publicada em outubro de 2004.
“A Eunice, uma grande líder, uma mulher fantástica, dizia: ‘A situação é grave. E a primeira coisa que nós temos que fazer na USP são denúncias; denunciar tudo o que tiver que ser denunciado’”, descreve Carvalhosa.
Orientada por um princípio de unir denúncia e ação, a Adusp trabalhou pela desmontagem dessa estrutura clandestina de espionagem da comunidade acadêmica. “Numa das assembleias – nossas assembleias eram cheiíssimas, lotadas, as pessoas ficavam de pé – foi tomada a deliberação de publicação do chamado O Livro Negro da USP: O Controle Ideológico na Universidade. Depois ele foi reeditado sem o ‘negro’ no título, o que foi muito correto. Na época não havia essa preocupação”, diz o ex-presidente.
Lançado em 1978, o volume tinha a finalidade de denunciar e deixar registradas as perseguições da Ditadura ao corpo docente da universidade. Em 2004, decorridos quarenta anos do golpe militar, a Adusp lançou uma edição revista e ampliada desse dossiê, sob o novo título O Controle Ideológico na USP (1964-1978). Uma edição conjunta com a Editora da USP (Edusp) foi publicada em 2018, por ocasião do cinquentenário do Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968.
“Grande parte do mérito desse livro, como tudo que se relaciona à Adusp na época, cabe ao Antonio Candido, que dava muita força a tudo. A Eunice, que nem estava na Diretoria, também ajudava demais”, ressalta Carvalhosa.
A Aesi teve as suas atividades oficialmente encerradas em 1982, quatro anos depois da publicação do relatório produzido pela Adusp.
Greve unificou o funcionalismo contra Maluf
A primeira gestão eleita para dirigir a Adusp também teve papel de liderança na construção de uma grande greve unificada do funcionalismo público de São Paulo, em 1979. A articulação foi feita com outros sindicatos de servidores(as) e visava especialmente o governador Paulo Maluf, eleito de forma indireta em 1978 pela Arena, partido de apoio à Ditadura Militar.
“A greve foi um sucesso. Houve uma paralisação efetiva, com o pretexto da melhoria de salários. Mas a razão não era essa, era peitar a Ditadura”, descreve o ex-presidente. O aumento salarial não foi alcançado, mas o objetivo de questionar a Ditadura, sim. Vale lembrar que as greves eram consideradas ilegais ou abusivas durante o regime militar, razão pela qual Carvalhosa qualifica o movimento como “uma ousadia”.

“Fizemos uma famosa assembleia da Adusp na FAU em que abri dizendo: ‘Paulo Maluf, filho bastardo da ditadura’. Para quem não a viveu, é difícil imaginar o que era a Ditadura”, pondera o professor. “Era um horror, um horror. Fazer uma declaração como essa numa assembleia tinha um peso”, recorda.
Carvalhosa relata ter sido preso em três oportunidades durante o regime. “Na última vez, fizeram um grande processo contra mim na 2ª Região Militar. Eu estava em prisão domiciliar, mas tinha que me apresentar todo dia. Não havia horário fixo, eu podia ir a qualquer hora. E me perguntava: vou ou não vou? Se for, podem me prender de novo, porque eu continuava falando mal da Ditadura na Faculdade de Direito. Era sempre um risco. Essa era a Ditadura. Um horror.”
Depois da greve, diz Carvalhosa, a Adusp passou a ter um reconhecimento nacional, o que impulsionou o processo de criação das associações de docentes no Brasil inteiro e, finalmente, a fundação da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior, em 1981, a Andes. Após a promulgação da Constituição de 1988, a entidade passou a ser o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN).
Outro evento marcante do período foi a leitura da Carta aos Brasileiros, ocorrida em grande manifestação contra a Ditadura no Largo São Francisco, em 8 de agosto de 1977. Carvalhosa representou a Adusp no ato, a convite do professor Goffredo da Silva Telles Júnior, ex-vice-diretor da Faculdade de Direito da USP e idealizador do documento.

Já na época da gestão de sua primeira Diretoria eleita, a Adusp se colocou na luta pela defesa da autonomia universitária e da eleição direta de reitor(a) e dos órgãos colegiados, sem qualquer ingerência do Ministério da Educação, do Conselho Federal de Educação (substituído em 1995 pelo Conselho Nacional de Educação), de governos ou de órgãos de segurança. São bandeiras que permanecem atuais.
Na avaliação de Carvalhosa, uma diferença importante do período em que esteve à frente da Adusp é que “havia uma união do campo democrático”. “Não havia divisão política. O clima era outro, não era um clima de divisões, como atualmente. Todos ali estavam unidos contra a Ditadura e a favor das liberdades públicas”, afirma.
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