Universidade
No lugar dos livros, piscinas plásticas e baldes: desde maio, a Biblioteca da Faculdade de Educação vive uma rotina de emergências, sem solução rápida da Reitoria para restaurar o telhado do prédio
Três piscinas plásticas, dessas que as crianças usam para se divertir no quintal de casa, ocupam agora espaços da Biblioteca “Celso de Rui Beisigel”, da Faculdade de Educação (FE-USP). O motivo, entretanto, nada tem a ver com brincadeiras infantis.
As piscinas são uma alternativa encontrada pelas servidoras da biblioteca para reduzir a ocorrência de danos ao acervo de 250 mil volumes, das quais 60 mil formam uma coleção de obras raras e especiais, expostas ao risco que a água da chuva acarreta especialmente desde maio, quando uma verdadeira inundação, causada por uma obra malfeita que deixou vulnerável o telhado do prédio, atingiu cerca de 3 mil livros.
Com a ajuda de lonas posicionadas nos pontos mais problemáticos e onde estão localizadas as maiores goteiras, a equipe constrói uma espécie de “funil” que direciona a água para as piscinas, impedindo o acúmulo nos pisos, escadas e corredores.
Destinada a ser um local de estudo e pesquisa, a biblioteca está fechada ao público e não recebe estudantes, docentes e pesquisadores(as) desde a inundação de maio, mantendo o serviço de empréstimo de volumes graças ao esforço da equipe de 11 funcionários(as) que atuam no local — outros dois estão na biblioteca da Escola de Aplicação.

São estes servidores e servidoras, por sinal, que estão atuando de forma emergencial e verdadeiramente heroica na linha de frente para minimizar os danos à edificação e preservar o acervo, garantindo a integridade de um patrimônio cuja manutenção deveria ser preocupação prioritária da Reitoria. Desse acervo faz parte, por exemplo, a maior coleção de livros didáticos do país, que conta toda a história desses manuais desde o início da escolarização no Brasil.
“O nosso trabalho hoje virou proteger o patrimônio, seja o patrimônio bibliográfico, seja o imobiliário, o próprio prédio. O principal elemento de proteção aos livros é o edifício. Se o edifício não está bem, dificilmente o acervo estará. Nada do que nós estamos fazendo aqui terá sucesso se a principal camada de proteção ao acervo não estiver íntegra e se estiver entrando água no prédio”, diz Daniela Pires, chefe técnica da biblioteca e servidora da USP há 21 anos. “O que a gente quer é abrir, é ter estudantes aqui dentro, é poder fazer o nosso trabalho especializado e fazer com que essa instituição cumpra aquilo que é o seu papel”.
O sinal de alerta máximo está ligado na biblioteca porque a temporada de chuvas de primavera e verão se aproxima — este atípico setembro é o mais chuvoso desde 1943, apontam os serviços de meteorologia — e, se não houver ação imediata para a reforma do telhado e a solução de outros problemas, o quadro tende a se agravar bastante.
Chamar a atenção da Administração da USP para a situação insustentável da biblioteca e cobrar soluções é o objetivo da manifestação convocada pela comunidade da FE-USP na próxima segunda-feira (28/9). O ato vai reivindicar “caminhos, decisões e medidas efetivas que permitam solucionar o problema”. A manifestação partirá às 16h do Portão 1 da Cidade Universitária, com destino à Reitoria.
“A Biblioteca da Faculdade de Educação abriga patrimônio bibliográfico, documental, histórico e acadêmico construído ao longo de décadas e constitui infraestrutura essencial para o ensino, a pesquisa, a extensão e a formação de estudantes e pesquisadores da Universidade. Preservar esse patrimônio e assegurar condições seguras de trabalho e atendimento à comunidade é uma responsabilidade institucional compartilhada”, diz o texto de um abaixo-assinado online aberto a adesões.
Equipe atua em condições insalubres para garantir integridade do acervo
A reportagem do Informativo Adusp Online visitou a biblioteca no último dia 18 de setembro. Em todas as direções para as quais se olhe, o cenário é desolador, e a constatação é de que só o esforço gigantesco e exaustivo da equipe de servidoras(es) impede prejuízos irreparáveis ao patrimônio da universidade.
Os armários e prateleiras, mesmo no térreo, estão cobertos de lonas pretas para proteger os livros. Por sinal, instalações cobertas de lona preta se espalham por toda parte. Há ventiladores e desumidificadores posicionados nos ambientes para mitigar os danos ao acervo. O ar condicionado não está funcionando, porque as instalações elétricas do prédio também estão comprometidas pela infiltração da água.
Salas antes destinadas a coleções, ao trabalho administrativo e ao estudo estão agora vazias, ocupadas por baldes e outros equipamentos utilizados para reter a água e evitar mais estragos. Móveis se acumulam fora de seus locais e capacetes estão à disposição sobre algumas mesas.

O ambiente é insalubre para trabalhadores e trabalhadoras, e propício à proliferação de micro-organismos que se sentem à vontade com a mistura de papel e umidade.
“O grande problema é que não conseguimos trabalhar com uma previsibilidade. Hoje estamos puxando água [com rodos e panos]. É a nossa rotina. Temos inclusive uma escala de trabalho do dia para puxar água”, descreve Daniela. Dessa rotina, que inclui monitoramentos inclusive nos finais de semana, só ficam de fora as pessoas que têm limitações físicas.
“A goteira pode aparecer em qualquer lugar. Então a gente vive nesse estado de alerta o tempo inteiro porque não sabemos onde vamos ter que controlar. Viramos engenheiras de goteira”, relata.
Muitos dos equipamentos utilizados por servidoras e servidores da biblioteca desde a emergência de maio, como galochas para não ficar com os pés e calçados encharcados, são trazidos de casa ou adquiridos com recursos de vaquinhas lideradas por docentes.
Dada a falta de medidas concretas da Reitoria para a resolução estrutural dos problemas da biblioteca, em agosto a equipe começou a fazer a retirada dos livros do segundo andar. A previsão era de que o processo levaria vinte dias, mas a equipe, auxiliada por seis carregadores contratados, conseguiu mover 150 mil volumes para o térreo e o primeiro andar na metade desse prazo.
O trabalho terminou no dia 28 de agosto, o que foi absolutamente providencial, dadas as intensas chuvas que caem desde o início de setembro.

“O que nós queremos é uma solução. Porque uma coisa é a gente trabalhar com a perspectiva de que nos próximos dois meses vamos puxar água. Com isso, acho que podemos lidar. Agora, não conseguimos lidar com uma situação em que não sabemos quando vamos parar de puxar água e poderemos nos dedicar efetivamente a cuidar da coleção, atender aos estudantes, aos pesquisadores”, afirma Daniela.
Em nota enviada ao Informativo Adusp Online por meio de sua Assessoria de Imprensa, a Reitoria da USP diz que “a Universidade já fez uma contratação emergencial para instalar uma nova cobertura provisória, significativamente mais resistente, o que já está em curso desde o último sábado [19/9]”.
“Essa nova estrutura vai garantir a proteção do prédio e suportar a espera até a conclusão da licitação e a retomada definitiva da reforma. Enquanto isso, a SEF [Superintedência do Espaço Físico] segue trabalhando permanentemente no edifício, apoiando e orientando a direção da Faculdade sobre alternativas de preservação da integridade do patrimônio bibliográfico até a conclusão total das obras”, prossegue a nota (leia a íntegra abaixo).
A nota da Reitoria menciona apenas os acontecimentos recentes, mas não se refere à situação que se arrasta desde o final de 2024 e do início de 2025, quando a equipe de servidoras(es) instalou a primeira piscina plástica no segundo andar. Também não fala em prazos para o encaminhamento de soluções definitivas para os problemas estruturais do prédio nem dos entraves que a Procuradoria-Geral da universidade estaria impondo por supostas limitações legais para autorizar a adoção de medidas emergenciais na biblioteca, como a contratação de obras com dispensa de licitação.
Primeira goteira foi detectada no final de 2024; intervenção demorou um ano e meio
O “calvário” da biblioteca da FE começa bem antes da crise registrada a partir de maio deste ano. Já em novembro de 2024, foi detectada a primeira goteira em área de acervo.
Em fevereiro de 2025 a equipe instalou uma piscina plástica no segundo andar, que se transformou num “símbolo da nossa tragédia”, como descreve a chefe técnica da biblioteca.

Somente em abril de 2026, um ano e meio depois da detecção da primeira goteira por conta de infiltração, uma empresa foi contratada para realizar as obras de reparo no telhado.
A Bellacon Construtora e Incorporadora, contratada mediante processo formal de edital público, “agiu com negligência ao retirar a estrutura antiga sem instalar a proteção provisória adequada”, descreve a nota enviada pela Reitoria.
A água da forte chuva que caiu no no dia 10 de maio, domingo do Dia das Mães, encontrou caminho livre para entrar no prédio, porque parte das telhas havia sido retirada e nenhuma cobertura provisória foi instalada. Houve queda de placas do forro e invasão de água não só no segundo andar, mas também nos pavimentos inferiores, com a formação de “corredeiras” nas escadas.
A situação só não se tornou catastrófica porque, atenta ao fato de que os funcionários da Bellacon pareciam apenas retirar telhas e não providenciar outra cobertura, e sabendo que a previsão do tempo para o final de semana indicava chuva, as(os) servidoras(es) da biblioteca trataram de cobrir suas mesas e equipamentos de trabalho com lonas.
No dia 11, segunda-feira, encontraram um cenário de destruição, com pedaços do forro espalhados pelo chão, água em todo o piso e livros molhados, Graças à ação preventiva da equipe, computadores e outros equipamentos eletrônicos foram preservados. Perdeu-se apenas um projetor data show que estava instalado no teto.

Também graças ao trabalho e à dedicação da equipe da biblioteca, que contou com a ajuda de um mutirão de funcionários(as) de outros setores da FE-USP, estudantes, docentes e voluntários(as) de outras unidades, os cerca de 3 mil volumes atingidos pela água puderam ser recuperados.
No final de maio, a USP instaurou processo administrativo para rescindir unilateralmente o contrato com a Bellacon e adotar sanções como aplicação de multa, retenção de pagamentos e inscrição da empresa no Cadastro Informativo dos Créditos Não Quitados de Órgãos e Entidades Estaduais (Cadin), o que a impede de participar de licitações públicas.
No início de setembro, a Bellacon obteve liminar na 15ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) para suspender a exigibilidade do débito, em vista de depósito judicial, e requerer que a USP abstenha-se “de proceder ao registro da pendência junto ao Cadin” até a decisão final do processo.
A Bellacon não tem página na Internet nem perfis nas mídias sociais. O Informativo Adusp Online entrou em contato com a Lacintra Sociedade de Advogados, que representa a empresa na Justiça, mas não teve retorno.
“Sou uma bibliotecária, não uma engenheira de goteiras”, diz chefe técnica
O corpo docente da FE está envolvido na organização da manifestação do próximo dia 28 e tem também procurado demonstrar apoio à equipe de servidoras(es) da biblioteca.
“Como é possível que a universidade seja incapaz de resolver esse problema?”, pergunta o professor João Francisco Migliari Branco, do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação (EDA).
“Temos soluções a conta-gotas, e por isso alguns docentes cunharam a expressão ‘pedagogia da goteira’. É uma coisa que vai um pouco na chave da ideia de pedagogia da crueldade, da Rita Segato [antropóloga argentina], que é normalizar essas situações absurdas”, prossegue.

Na avaliação do docente, a situação acarreta impactos em todos os pilares que sustentam a universidade — ensino, pesquisa, extensão e inclusão. “O que é o cotidiano de uma faculdade sem biblioteca? Dá para existir uma universidade pública sem biblioteca?”, questiona Branco.
“Não é possível postergar mais”, afirma a professora Carmen Sylvia Vidigal Moraes, docente aposentada do EDA, que se mantém ativa na unidade. A professora aponta outros problemas de infraestrutura que se arrastam sem solução, como a falta de espaço adequado para o Centro de Memória da Educação da FE-USP e a necessidade de reforma do Bloco B da unidade.
Enquanto as soluções definitivas não chegam, a rotina na biblioteca segue sendo de resolver emergências, num cenário em que, pelo terceiro final de ano seguido, uma das tarefas da equipe será monitorar baldes, e não realizar as atividades próprias de seu setor profissional. “Eu sou uma bibliotecária. Não sou uma engenheira de goteiras”, resume Daniela Pires.
Leia a íntegra da manifestação da Reitoria da USP
As fortes chuvas dos últimos dias provocaram a entrada de água na biblioteca da Faculdade de Educação (FE) após o volume das precipitações superar a capacidade da cobertura emergencial do edifício. Todo o acervo da biblioteca, no entanto, encontra-se preservado e em segurança.
Para contextualizar a situação do prédio, é preciso esclarecer que o local passa por um processo de substituição integral do telhado. Durante o início dos trabalhos, a empresa que havia sido originalmente contratada mediante processo formal de edital público agiu com negligência ao retirar a estrutura antiga sem instalar a proteção provisória adequada, o que resultou em um primeiro episódio de escoamento de água meses atrás. Diante da falha técnica, a USP rescindiu o contrato com a prestadora, tomou as providências legais e iniciou os trâmites da licitação para convocar a próxima empresa apta a assumir a obra.
Desde a rescisão, o prédio foi abrigado por uma cobertura de emergência e passou a ser monitorado continuamente por equipes de engenharia da Superintendência do Espaço Físico (SEF), que prestam apoio técnico diário à direção da FE.
Embora tenha protegido o local ao longo dos últimos meses, essa estrutura emergencial não resistiu à intensidade das tempestades da semana. Como resposta imediata, a Universidade já fez uma contratação emergencial para instalar uma nova cobertura provisória, significativamente mais resistente, o que já está em curso desde o último sábado [19/9]. Essa nova estrutura vai garantir a proteção do prédio e suportar a espera até a conclusão da licitação e a retomada definitiva da reforma. Enquanto isso, a SEF segue trabalhando permanentemente no edifício, apoiando e orientando a direção da Faculdade sobre alternativas de preservação da integridade do patrimônio bibliográfico até a conclusão total das obras.
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