Guilherme Farpa/DivulgaçãoGuilherme Farpa/Divulgação
Ação violenta da PM ocorreu na na madrugada de domingo

No comunicado “Contra a violência policial e em defesa da resolução democrática de conflitos na USP”, divulgado no último domingo (10 de maio), horas depois da violenta desocupação do prédio da Reitoria da USP, realizada pela Polícia Militar na madrugada do dia das mães, a Diretoria da Adusp “repudia veementemente a ação violenta da Polícia Militar na reintegração de posse da Reitoria da USP, então ocupada por estudantes, e manifesta profunda preocupação com a decisão da Reitoria de abandonar o caminho do diálogo e optar pela repressão policial para lidar com um conflito político na universidade”.

O comunicado lembra que no último dia 4 de maio os(as) estudantes estavam em processo de negociação com a Reitoria quando foram surpreendidos(as), durante a reunião do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) com o Fórum das Seis, pelo anúncio do encerramento unilateral das negociações. “Inconformados com essa ruptura abrupta do diálogo, decidiram ocupar, na quinta-feira, o prédio da Reitoria e, ao longo dos dias de mobilização, buscaram reiteradamente retomar os canais de negociação”, prossegue a nota.

Guilherme Farpa/DivulgaçãoGuilherme Farpa/Divulgação
Estudantes relataram agressões por parte dos policiais

“A ação dos estudantes teve como objetivo explícito reivindicar um espaço legítimo de negociação com a Reitoria. Ainda assim, a administração central recusou-se sistematicamente a construir uma saída negociada. A universidade deveria cumprir o seu papel social e pedagógico na construção de formas democráticas de resolução de conflitos por meio do diálogo, especialmente em situações que envolvam sua própria comunidade. A Reitoria teve diversas oportunidades de retomar as negociações e, lamentavelmente, optou pela saída violenta, recorrendo à força policial”, registra a Diretoria da Adusp.

“Relatos sobre a operação policial, realizada durante a madrugada, mencionam o uso de bombas, gás, agressões físicas, detenções arbitrárias e práticas humilhantes contra estudantes durante a reintegração. A opção por uma ação da PM contra estudantes da própria universidade agrava desnecessariamente a situação e contribuiu para um cenário de violência que poderia ter sido evitado pelo diálogo e pela mediação institucional”, diz a nota.

“A USP não pode banalizar ou normalizar a presença da polícia como instrumento para a resolução de conflitos internos da comunidade universitária. Defendemos a democracia e o diálogo em todas as esferas da USP, princípios básicos para a construção de uma universidade genuinamente para todas(os)”, defende a Adusp.

Questionada, Secretaria da Segurança não diz quem deu a ordem para desocupar

Em nota enviada ao Informativo Adusp Online, a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que a ação de desocupação envolveu aproximadamente 50 policiais, retirou cerca de 150 pessoas do prédio “e foi concluída sem feridos, após o esgotamento de tentativas de diálogo, observando o princípio legal do poder-dever, o fator surpresa para a segurança dos envolvidos e o uso moderado da força diante de resistência física às ordens legais”.

Daniel GarciaDaniel Garcia
Estudantes conversam com policiais em frente à Reitoria da Unesp

De acordo com a SSP, “Havia situação de flagrante delito e crime permanente, não sendo necessária ordem judicial ou notificação para a desobstrução do espaço”. A nota não esclarece quem determinou que a ação ocorresse: se o próprio Comando da PM ou o governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O Informativo Adusp Online questionou especificamente a secretaria a respeito, mas a pergunta não foi respondida.

Ainda segundo a nota, “toda a operação foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes”. “Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial, onde o caso foi registrado como dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após serem qualificadas, elas foram liberadas. O policiamento segue na região para garantir a ordem pública e a preservação do patrimônio”, conclui a SSP.

“Não iremos parar por aqui”, afirma DCE-Livre em nota

Ainda no domingo, o DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” divulgou nota sobre a ação da PM. “A ocupação já passava de 60 horas, não havia qualquer sinal de violência ou grave ameaça a qualquer pessoa, a operação ocorreu fora do horário de funcionamento administrativo, e a todo momento houve acompanhamento policial. Ainda no rol das ilegalidades, não há qualquer informação sobre a motivação real para a detenção de quatro estudantes, ou mesmo, quais condutas lhes foram imputados para que ensejasse o encaminhamento destes estudantes à 7ª DP”, disse a entidade.

Daniel GarciaDaniel Garcia
Manifestação ocorreu na Praça da República mesmo sem reunião com Cruesp

“Os estudantes querem saber: Aluísio e Edmilson [referência ao chefe de gabinete da Reitoria, Edmilson Dias de Freitas], por que escolheram ameaçar a integridade física e emocional dos estudantes? Por que escolheram ignorar as reivindicações dos estudantes pelo básico, como comida decente e moradia digna? O que vão dizer para as mães das centenas de estudantes que vão precisar consolar seus filhos hoje após essa ação truculenta?”, pergunta a nota.
“A atual Reitoria da USP envergonha nossa história e toda a comunidade acadêmica. Diante de tudo, os estudantes, representados pelo DCE-Livre Alexandre Vannucchi Leme, reafirmam: nossos passos vêm de longe, nossa história é de lutas e não iremos parar por aqui”, finaliza a entidade.

Reitoria pediu a PM no prédio, mas alega não ter sido avisada da desocupação

Também no domingo, a Reitoria divulgou comunicado em que afirma que a “desocupação do espaço público pela Polícia Militar” ocorreu “sem comunicação prévia” à universidade. “Segundo nota oficial da SSP, ‘a Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas’”, prossegue a Reitoria.

A nota afirma que a USP “lamenta os acontecimentos durante o processo de reintegração de posse do prédio da Reitoria” e diz ainda que, ao longo de todo o período da greve discente, “a Reitoria manteve a disposição permanente para o diálogo e para o acompanhamento dos encaminhamentos acordados nas negociações com o movimento estudantil”.

Daniel GarciaDaniel Garcia
Ato percorreu ruas do Centro de São Paulo

“A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil, o que pressupõe a manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade. Por fim, a USP repudia que a violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias e reforça que continuará atuando com responsabilidade institucional, buscando a pacificação do ambiente universitário”, conclui o comunicado.

Embora, segundo a Reitoria, a USP não tenha chamado a PM para realizar a desocupação, o fato é que agentes do Batalhão de Ações Especiais da Polícia (BAEP) permaneciam no prédio desde a noite da quinta-feira (7), quando os(as) estudantes iniciaram a ocupação.

Em entrevista ao Jornal da USP publicada no final da tarde da sexta-feira (8) — um dia após a ocupação do prédio e antes, portanto, da violenta ação da madrugada do domingo —, o reitor Aluísio Segurado afirmou que “a polícia está ali porque foi solicitada uma ação proporcional à dos estudantes, sem excessos, garantindo a segurança e a integridade física de todas as pessoas envolvidas, mas ao mesmo tempo buscando evitar maiores danos ao patrimônio público”.

Segurado nega reajustar PAPFE, e Cruesp cancela reunião com Fórum das Seis

Em relação às negociações com os(as) estudantes, Segurado afirmou na entrevista ao Jornal da USP que as demandas foram organizadas “em três naturezas”. “Primeiro, demandas pertinentes às questões estudantis e que poderiam já ser equacionadas, e foram”; em segundo lugar, questões “também pertinentes, mas que exigiriam estudos e avaliações orçamentárias para implementação ou articulação com órgãos colegiados das Pró-Reitorias”, que a administração considera “encaminhadas por meio da constituição de grupos de trabalho”.

“E há um terceiro componente”, prossegue Segurando, referindo-se a “demandas que nós não julgamos pertinentes e que não seriam passíveis de atendimento em hipótese alguma”. “Cito aqui a reivindicação referente ao aumento dos valores dos auxílios de permanência estudantil”, disse o reitor, referindo-se exatamente à principal reivindicação apresentada pelos(as) discentes, ou seja, o aumento do valor das bolsas do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE).

Embora repetidamente bata na tecla da abertura para o diálogo como característica de sua gestão — cuja chapa, ao lado da vice-reitora Liedi Bernucci, apresentou-se às eleições com o nome de “USP pelas Pessoas” —, o fato concreto é que Segurado desmarcou uma reunião com a representação estudantil, prevista para o dia 7 de maio, e encerrou unilateralmente as negociações com os(as) estudantes, sem entrar em contato diretamente com as organizações discentes.

Daniel GarciaDaniel Garcia
Docentes da USP participam da manifestação

Para piorar, como salienta a nota da Adusp, os(as) estudantes tomaram conhecimento do fim do diálogo com a Reitoria por meio da imprensa, que repercutiu comunicado publicado no site da USP no dia 4 de maio.

Em novo episódio que demonstra a distância entre o discurso e a prática, a segunda reunião de negociação da data-base entre o Cruesp e o Fórum das Seis, marcada para a tarde desta segunda-feira (11), foi cancelada pelos reitores, alegadamente por conta da manifestação organizada pelas entidades do Fórum na Praça da República, onde se localiza a Reitoria da Unesp.

“A medida foi tomada de forma preventiva, visando preservar a integridade de todos os participantes e assegurar condições apropriadas para futuras tratativas institucionais relativas à pauta unificada de reivindicações 2026 do Fórum das Seis”, alega a mensagem encaminhada na manhã desta segunda-feira pela reitora da Unesp e presidenta do Cruesp, Maysa Furlan, ao coordenador do Fórum, João da Costa Chaves Júnior, diretor da Adunesp.

A razão real do cancelamento, no entanto, certamente está ligada à tensão provocada pela desocupação violenta da Reitoria da USP e ao temor de Segurado de encontrar a representação discente da universidade um dia depois do episódio.

O ato público organizado pelas entidades na Praça da República foi mantido, e Maysa Furlan concordou em receber os(as) representantes do Fórum, que manifestaram sua indignação pelo cancelamento da reunião e solicitaram que uma nova data para a negociação seja agendada ainda nesta semana.

Unidades da USP e entidades exortam Reitoria a reabrir o diálogo

Desde que chegou ao conhecimento do público, a desocupação protagonizada pela PM vem merecendo amplo repúdio de toda a comunidade acadêmica, na USP e fora dela. Muitas unidades da própria USP e de outras universidades, além de diversas organizações e entidades estudantis, docentes e de outros setores da sociedade, têm divulgado notas de repúdio à ação violenta da PM e manifestado solidariedade aos e às estudantes.

O Fórum das Seis considera que “as cenas de violência da ação policial mancham a história da USP, trazendo à lembrança os sombrios períodos da ditadura militar-empresarial”. O Fórum “insta o reitor Aluísio Segurado a reabrir as negociações com as entidades representativas e dialogar efetivamente sobre as justas reivindicações dos estudantes, que lutam por condições dignas de estudo e permanência”.

Entre as unidades da USP que se manifestaram, estão a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a Faculdade de Educação (FE), a Faculdade de Saúde Pública (FSP), o Instituto de Psicologia (IP) e a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH).

As faculdades de Direito de São Paulo (FD) e de Ribeirão Preto (FDRP) divulgaram comunicado conjunto em que “manifestam seu mais veemente repúdio à utilização da violência como instrumento de ação política ou mecanismo de solução de conflitos no âmbito universitário”.

As duas unidades reafirmam “a necessidade urgente de retomada do diálogo entre a Reitoria e a comunidade estudantil, em ambiente pautado pelo respeito mútuo, pela responsabilidade institucional e pela observância dos princípios democráticos que regem a vida universitária”.

No entanto, no dia 7 de maio, após a ocupação da Reitoria, a Diretoria da FD havia divulgado uma nota em que condenou duramente a decisão do movimento estudantil, dizendo acompanhar “com profunda preocupação os graves atos de violência [sic] praticados”, e declarou que “nenhuma reivindicação — por mais relevante que seja — autoriza práticas de violência, intimidação, depredação do patrimônio público ou invasão de espaços institucionais” e que o “Estado de Direito não pode ceder à lógica da ilegalidade”. A maioria das unidades emitiu declarações desse tipo, que de algum modo criaram um cenário favorável à intervenção policial e à recusa da Reitoria em negociar com a representação discente.

Já o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH) ressalta que “a universidade pública deve ser, antes de tudo, um território livre de repressão policial”. “Somente assim a instituição pode se consolidar como um espaço de acolhimento, justiça social e compromisso com a democracia”, considera o IFCH.

EXPRESSO ADUSP


    Se preferir, receba nosso Expresso pelo canal de whatsapp clicando aqui

    Fortaleça o seu sindicato. Preencha uma ficha de filiação, aqui!