A USP voltou a viver um episódio de agressão e ataque da extrema direita na última quarta-feira (4 de março), novamente protagonizado pelo vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), desta vez ao lado da vereadora Eduarda Campopiano (PL), de Praia Grande. Vários seguranças particulares acompanhavam a dupla de provocadores.

A pretexto de debater questões ligadas aos seus projetos, Pavanato instalou-se numa tenda montada por sua equipe na Praça do Relógio, nas proximidades dos prédios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), alvo recorrente das agressões dos militantes da extrema-direita. Uma placa afixada na tenda dizia: “aborto é assassinato”.

De acordo com nota divulgada pelo Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários “Oswald de Andrade” (CAELL), “o vereador insultou estudantes, afirmou que estava ‘desafiando o DCE da USP’ e disse que ‘nenhum estudante conseguiria debater com ele’, em uma tentativa explícita de gerar confronto e ganhar palco político às custas da comunidade universitária”.

Estudantes se reuniram para repudiar a presença dos extremistas de direita e, de acordo com o CAELL, “a resposta veio na forma de violência: seguranças ligados ao vereador partiram para agressões físicas contra estudantes, com socos e uso de spray de pimenta”. O confronto então se generalizou, e Pavanato entrou num carro para fugir do local.

Dois estudantes ficaram feridos e passaram por exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal. Um deles, Francisco Napolitano, diretor do DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, registrou boletim de ocorrência contra os agressores. A vereadora de Praia Grande também relatou ter sido agredida no confronto, do qual foi uma das incitadoras.

De acordo com os estudantes, um dos seguranças levados pelo vereador ao câmpus é o mesmo que havia participado de um episódio anterior, quando chegou a sacar uma arma para ameaçar alunos e alunas da USP.

Em vídeo postado nas mídias sociais, Napolitano relatou que ele e um colega, que os seguranças de Pavanato estavam tentando culpar pelo caso, foram liberados do 14º Distrito Policial, em Pinheiros, depois da meia-noite, já na quinta-feira. Integrantes da direção do DCE e o diretor da FFLCH, professor Adrián Pablo Fanjul, também estiveram na delegacia.

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Diretor da FFLCH, Adrián Fanjul (à dir.), com estudantes em frente ao 14º DP

“É inaceitável que agentes da extrema-direita entrem na universidade acompanhados de seguranças para intimidar estudantes e depois tentem inverter os fatos, criminalizando quem estava apenas defendendo o seu espaço e seus colegas”, ressalta a nota do CAELL.

Pavanato e seus capangas deveriam estar presos! A USP não pode fechar os olhos para mais um ataque da extrema-direita. Precisa colocar os seus advogados à disposição para defender seus alunos que foram brutalizados!”, protestou o DCE em seu perfil no Instagram (destaques no original).

Nesta sexta-feira (6 de março), o Fórum das Seis divulgou nota de “repúdio aos novos ataques fascistas na USP”. “Ao que parece, o vereador Pavanato almeja voos políticos mais ambiciosos e, para isso, avalia que atacar a universidade pública e a ciência lhe renda votos. Trata-se de um misto de arrogância e estupidez, que já ultrapassou o portal da barbárie. Agredir fisicamente estudantes universitários/as, acompanhado de uma trupe armada, raivosa e agressiva, configura comportamento inaceitável no âmbito do estado democrático de direito, que não pode ser tolerado e cuja responsabilização é dever das autoridades públicas”, diz o texto.

O Fórum das Seis defende ainda que “também é dever da reitoria da USP e de todas as universidades públicas posicionar-se firmemente contra episódios como esse e garantir a segurança da comunidade acadêmica”.

FFLCH sofreu 8 agressões em 2025; em outubro, ato público repudiou violência

A liberdade de expressão e a pluralidade de ideias “são princípios basilares da vida acadêmica”, declarou, por sua vez, a Reitoria da USP, em nota divulgada pela imprensa.

“A Universidade é, por excelência, o espaço do debate plural, do questionamento crítico, da convivência entre diferentes perspectivas e visões de mundo. A Universidade é um ambiente em que diferentes opiniões têm o direito de se expressar, resguardados, obviamente, os princípios da convivência democrática mutuamente respeitosa. A USP repudia qualquer tipo de violência que imponha restrições ao exercício desta liberdade de opinião dentro dos limites da convivência republicana”, prossegue o texto, sem fazer referência às agressões cometidas pelo grupo comandado por Pavanato e Campopiano.

Pelo menos oito ocorrências de agressão e provocação a estudantes, docentes e funcionários(as) da FFLCH foram registradas no ano passado, algumas delas com participação de Pavanato, além de um grupo chamado “União Conservadora”.

reprodução do Instagramreprodução do Instagram
Estudante Francisco Napolitano, agredido por seguranças de Pavanato, registrou B.O.

Em outubro, um grande ato público no vão do prédio de História e Geografia repudiou os atos de agressão e manifestou apoio à unidade e à USP.

“Os incidentes que ocorreram nesse espaço são expressão do avanço da extrema-direita em nossa sociedade. Não são episódios isolados, mas sintomas de um projeto de destruição do pensamento crítico, de ataque às instituições democráticas e de intimidação aos que resistem. É urgente que a USP proteja de forma efetiva os seus espaços democráticos. Os agressores devem ser responsabilizados criminalmente. Impunidade não é tolerância, é conivência”, disse no ato Paulo Sérgio Pinheiro, professor aposentado do Departamento de Ciência Política e ex-ministro de Direitos Humanos.

Grupo agrediu estudantes da Unicamp em fevereiro

A Unicamp também sofreu novo episódio de agressão no dia 23 de fevereiro, quando do início das aulas do semestre.

Nota divulgada pela direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da universidade relata que durante a recepção aos e às novos(as) estudantes, “um grupo de nove pessoas sem qualquer vínculo com a Unicamp utilizou o câmpus como palco para vandalismo e ataques deliberados à integridade dos alunos do IFCH e do IEL [Instituto de Estudos da Linguagem]”.

“O episódio marca uma escalada inaceitável das invasões com ações racistas e transfóbicas que vêm ocorrendo desde março de 2025 e que agora transformou-se em violência física direta e premeditada, conforme comprovam vídeos de ‘preparação’ publicados pelos próprios agressores em redes sociais para fins de propaganda política”, prossegue a nota.

A Reitoria da Unicamp também manifestou seu repúdio “à invasão e aos atos de intimidação e agressão” protagonizados pelo grupo.

“Episódios de invasão de qualquer natureza, filmagens não autorizadas e agressões são intoleráveis, representando uma grave afronta à democracia, à autonomia universitária, à segurança de estudantes, funcionários e docentes, e ao livre exercício do debate acadêmico. A universidade é um espaço de pluralidade, pautado pelo diálogo, não se submetendo a ações que busquem impor interesses por meio da violência ou da coerção”, diz a nota.

O Fórum das Seis divulgou nota de solidariedade à comunidade da Unicamp e repúdio ao vandalismo e às agressões de cunho fascista realizadas em fevereiro. “Não se trata de fato isolado. Ações semelhantes, de cunho fascista e racista, vêm ocorrendo nas três universidades estaduais paulistas e em outras públicas, sinalizando uma escalada de discursos de ódio e agressões contra instituições que se apresentam como contraponto à ignorância e aos preconceitos que alimentam estes grupos. A história recente do país compôs e estimulou um cenário de banalização da violência e da discriminação, induzindo fascistas enrustidos e racistas de todos os matizes a se exporem com mais tranquilidade. O Fórum das Seis manifesta irrestrita solidariedade às vítimas e insta as autoridades a apurarem os fatos, responsabilizarem e punirem os autores dos ataques à Unicamp”, diz a entidade.

EXPRESSO ADUSP


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