No seu primeiro comunicado na nova gestão reitoral, emitido nesta quarta-feira, 22 de abril, a Pró-Reitoria de Graduação (PRG) mandou um duro recado aos e às estudantes em greve. De acordo com o documento, assinado pelo pró-reitor Marcos Garcia Neira e pelo pró-reitor adjunto Paulo Takeo Sano, não serão admitidas “alterações no período de aulas” nem nos prazos para lançamento de notas, nem outras medidas que normalmente são adotadas nos períodos posteriores às greves para ajustar as situações decorrentes desses movimentos.

“Na reunião realizada na manhã de hoje entre a Reitoria e as(os) dirigentes das Unidades, a Pró-Reitoria de Graduação reiterou a necessidade de observância integral do calendário escolar aprovado pelo Conselho de Graduação em 27/11/2025, de modo a assegurar o cumprimento dos dias letivos”, diz o Comunicado PRG 01/2026.

“Considerando a greve deflagrada pelas(os) estudantes, não estão previstas nem autorizadas alterações no período de aulas, nas interações de matrícula, nos prazos para lançamento de notas e frequências ou no período de recuperação. Da mesma forma, não está autorizada a migração de aulas presenciais para o formato remoto, tampouco sua substituição por aulas gravadas”.

Trata-se de um endurecimento inédito. Mesmo em gestões reitorais caracterizadas por autoritarismo explícito, evitava-se adotar esse tipo de ameaça direta à categoria discente. Como a posição da PRG conta com o aval do reitor Aluísio Segurado, depreende-se que a atual gestão esteja tentando sinalizar uma posição de força, após o revés sofrido perante a greve de funcionários(as) técnico-administrativos(as).

PRG “busca desmobilizar o movimento”, avalia DCE

“Ao insistir na manutenção do calendário acadêmico e na impossibilidade de alteração dos prazos previstos, a PRG adota uma postura que, na prática, busca desmobilizar o movimento estudantil, ao permitir que estudantes sejam prejudicados pela ausência de aulas ou pelo cumprimento rígido de prazos, como o lançamento de notas”, declara ao Informativo Adusp Online o Diretório Central dos Estudantes (DCE-Livre) “Alexandre Vannucchi Leme”.

Além disso, diz o DCE, o comunicado abre margem para punições. “A rigidez dos prazos impõe que, caso a greve se estenda”, estudantes possam ser punidos academicamente, “seja por faltas, seja por prejuízos em avaliações, o que configura uma forma indireta de retaliação”.

Igualmente, adverte o DCE, a “proibição de aulas remotas e gravadas, conforme normativas internas da USP, é um elemento importante nesse contexto, pois impede que docentes recorram a alternativas que contornem a paralisação”. Tais alternativas, acrescenta, contribuiriam “para preservar a efetividade da greve e garantir condições mais igualitárias entre os estudantes”, evitando que uma parte da comunidade acadêmica siga o calendário normalmente enquanto outra é prejudicada. “É fundamental que todos — inclusive os grevistas — tenham seus direitos respeitados dentro das condições impostas pela mobilização”.

Prossegue a nota do DCE: “Cabe destacar que uma das principais reivindicações dos estudantes em greve é a garantia de que não haverá qualquer tipo de retaliação, seja de natureza acadêmica, política ou judicial. Em experiências anteriores de mobilização na USP, a organização estudantil foi decisiva para impedir medidas como aplicação de faltas ou reprovações decorrentes da participação em greves. Adicionalmente, reivindica-se a prorrogação do prazo final para o lançamento de notas, como medida mínima para mitigar os impactos acadêmicos da paralisação”.

Por fim, o DCE reitera que “a forma mais rápida de encerrar a greve” é a abertura imediata de um processo efetivo de negociação por parte da Reitoria. “É fundamental que a universidade escute e responda às demandas por acesso, permanência e condições dignas de estudo. O mínimo esperado é o respeito ao direito de greve”, sem qualquer tipo de punição de estudantes.

Documento tem caráter punitivo e nada fala de reivindicações

A Diretoria da Adusp emitiu nota a respeito, na qual manifesta preocupações com o conteúdo do Comunicado da PRG. “À parte da não autorização de aulas remotas ou gravadas, o que é certamente adequado, o comunicado busca garantir que o calendário escolar seja mantido em sua integralidade. Não há uma palavra a respeito das reivindicações das e dos estudantes e das eventuais iniciativas que estão sendo tomadas para que se abra um processo de negociação com a reitoria”, pondera.

“Ao se ater a um aspecto, aparentemente burocrático, a pró-reitoria avaliza uma finalização do semestre que implique que as ementas sejam cumpridas e as avaliações sejam realizadas de modo açodado, com evidente prejuízo para a qualidade dos cursos”, aponta a Diretoria da Adusp.

“Além disso, o comunicado da PRG pode coibir docentes que pretendam oferecer alternativas às e aos estudantes de fazê-lo com a tranquilidade e a liberdade que devem caracterizar a docência na universidade pública”.

A nota chama atenção, igualmente, para o aspecto repressivo do documento da PRG. “Mais preocupante é o caráter punitivo que o conteúdo carrega. A categoria das e dos estudantes, assim como as das e dos técnico-administrativos, tem uma representação pífia nos órgãos de decisão da universidade e, por isso mesmo, não conseguem se fazer ouvir por meio de caminhos institucionais”, argumenta.

“Para serem ouvidos, precisam recorrer a outros expedientes. Quando o fazem, a administração, ao invés de abrir espaços de interlocução e negociação, indica caminhos que ensejam desrespeito e punições para com um movimento por reivindicações claras e legítimas”. Confira aqui a íntegra da nota da Diretoria da Adusp.

EXPRESSO ADUSP


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