Conjuntura Nacional
Mesa-redonda na Esalq abordou desigualdades de gênero e violências contra mulheres; público, majoritariamente feminino, participou ativamente do debate
No último dia 6 de março, em alusão ao Mês Internacional das Mulheres, foi realizada no Pavilhão de Ciências Humanas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) a mesa-redonda “Quais as barreiras enfrentadas pelas mulheres?”, organizada pelo Laboratório de Educação e Política Ambiental da unidade (OCA).
A atividade contou com a participação de Savana Fernandes, coordenadora de Segurança Alimentar na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social e Família de Piracicaba; de Karina Sabedot, psicóloga jurídica da Defensoria Pública do Estado de São Paulo; e da professora Nathalia Nascimento, do Departamento de Ciências Florestais da Esalq, que coordenou os trabalhos.
Karina Sabedot apresentou reflexões a partir de sua trajetória profissional como psicóloga, incluindo sua experiência como servidora pública no sistema prisional feminino no estado do Rio Grande do Sul. Em seu depoimento, destacou que as mulheres enfrentam diversas barreiras estruturais na sociedade, associadas à permanência de padrões patriarcais. Segundo a psicóloga, essas dificuldades tendem a se intensificar em contextos marcados pela pobreza e atingem de forma ainda mais severa as mulheres negras, evidenciando também os impactos do racismo estrutural.
As políticas públicas de assistência social frequentemente são subfinanciadas, o que afeta diretamente a vida das mulheres, ressaltou Karina. Ainda assim, enfatizou que a assistência social deve ser compreendida como uma “política de esperança ativa”, ao oferecer caminhos de proteção social às mulheres.
Na sequência, Savana Fernandes compartilhou reflexões baseadas em mais de vinte anos de atuação como assistente social no município de Piracicaba. Destacou que as desigualdades de gênero se manifestam desde a infância, quando normas e expectativas sociais passam a impor limites e atribuições distintas para meninas e meninos. Salientou ainda que, para as mulheres negras, a desigualdade de gênero se soma ao racismo, ampliando as formas de exclusão e vulnerabilidade.
Como caminho para a transformação dessa realidade, Savana ressaltou a importância dos processos educativos, tanto no âmbito familiar, escolar e governamental, quanto através de políticas públicas. Assinalou também o papel fundamental dos coletivos e da organização social na construção de espaços de diálogo para enfrentar a violência contra as mulheres.
Relatos de assédio moral e assédio sexual no ambiente universitário
Encerrando as exposições, a professora Nathalia Nascimento abordou o tema das violências de gênero no ambiente universitário. Em sua narrativa, ela mencionou situações de assédio e práticas machistas que desvalorizam ou intimidam o trabalho de pesquisadoras. Apresentou diversos dados do estudo “Index da Igualdade de Gênero nas Universidades Públicas do Estado de São Paulo”, de 2025, que evidencia, por meio de indicadores, a persistência de desigualdades de gênero no corpo docente das universidades públicas paulistas.
Entre os números exibidos por Nathalia, destaca-se a baixa presença feminina nos cargos mais altos da carreira acadêmica: atualmente, apenas cerca de 30% dos cargos de professor titular são preenchidos por mulheres. Quanto ao conjunto do corpo docente da USP, a participação das mulheres é um pouco melhor, chegando a aproximadamente 40%.
Após as exposições, o público — majoritariamente feminino — participou ativamente do debate, compartilhando relatos e reflexões. Entre os depoimentos, foram frequentes os relatos de assédio moral e físico no ambiente universitário, bem como a manifestação da necessidade de fortalecer redes de apoio e ampliar as iniciativas de enfrentamento dessas situações.
Ao final do encontro, a professora Nathalia Nascimento convidou as participantes a conhecerem e participarem das atividades do grupo Sustenta Gênero (@sustentagenero), iniciativa vinculada ao OCA que promove rodas de acolhimento e espaços de troca entre mulheres. O grupo é voltado principalmente para mulheres que possuem vínculo com a Esalq, mas também é aberto à participação da comunidade em geral.
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