Universidade
“USP tem que servir para pensar como superar a condição periférica. Tem que produzir pensamento crítico”, sustenta professor em atividade de apoio à greve discente
“Nós temos que pensar para que serve o pensamento crítico gerado por esta universidade num país que está se desindustrializando. Para que serve formar tantos engenheiros, se o país se desindustrializou? Para que serve formar engenheiros para o mercado financeiro? É óbvio que uma universidade tem que ser de excelência [mesmo] na periferia do capitalismo. Mas ela tem que servir para pensar como superar a condição de periferia. Ou como problematizar a condição de periferia. Pensar quais são os dilemas da economia periférica na mal-chamada globalização”.
Esse comentário do professor Lincoln Secco, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), fez parte da aula pública “Uma crítica da trajetória da USP”, realizada em 28 de abril no auditório do Instituto de Geociências (IGc) pelo Grupo Gmarx, em solidariedade à greve dos estudantes. O título remete a artigo recente de autoria de Lincoln e da pesquisadora Rosa Rosa Gomes, escrito a propósito da discussão em torno da Gratificação por Atividades Estratégicas Complementares (GACE).
“Nós já temos um lugar definido na divisão internacional do trabalho. Um lugar estrutural e histórico. Nós surgimos como colônia e continuamos como colônia. Mesmo tendo passado por um processo de relativa industrialização e agora de desindustrialização. Para que serve uma universidade que não pensa nesse problema, que é o problema central do nosso país?”, questionou o docente da FFLCH.
“A gente está numa universidade que gera profissionais qualificados e não existe mais emprego qualificado, porque essa é a condição do país periférico. Já é na verdade um problema que atinge o mundo todo, a questão dos empregos qualificados, mas a periferia é antes, a periferia primeiro. Na periferia os problemas são mais radicais, mais graves, e têm que ser pensados de forma mais radical. É por isso que a universidade tem sempre que produzir conhecimento crítico”, sustentou.
“Conhecimento crítico não serve [somente] para filósofo. Conhecimento crítico serve para engenheiro. Ele precisa saber disso. Porque se não houver conhecimento crítico na Universidade de São Paulo, o engenheiro não vai ter emprego, porque o modelo econômico que se implantou nesse país, há bastante tempo, é um modelo de destruição desse tipo de emprego. As greves, especialmente estudantis, sempre foram um momento de pensar criticamente a universidade e o país, e é isso que estamos fazendo agora”.
A greve traz a coletividade, disse Rosa na aula pública, afirmando que o movimento se dá em sentido inverso ao da competição e do empreendedorismo impulsionados pelas gestões reitorais. “É um momento em que a gente se junta entre as categorias e entre nós mesmos, que eu falo com um colega com quem [normalmente] eu não falo tanto, que a gente vai conversar, encontrar alunos, que de outra forma talvez não encontrasse. Esse é um momento importante para trabalhadores e estudantes, e isso incomoda também. Porque estão o tempo todo falando de empreendedorismo, e esse movimento gera outra coisa”.
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