Conjuntura Nacional
Militantes de extrema-direita arrombam portas de salas das entidades estudantis da “Filô” e rasgam cartazes; direção da unidade pede providências à Reitoria
Na última sexta-feira, 5 de junho, dois militantes de extrema-direita, Renato Almeida e Hagara Espresola Ramos, autointitulado “Hagara do Pão de Queijo”, invadiram dependências da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) ocupadas por entidades estudantis, arrombaram portas e rasgaram cartazes.

Os próprios Almeida e Hagara gravaram vídeos que registram a invasão e que eles postaram nos respectivos perfis no Instagram. Foram arrombadas as portas internas do Centro de Vivência (CV), que inclui o Centro Estudantil do Curso de Pedagogia (CEPed) e as associações atléticas, e do Centro Estudantil do Bacharelado em Biblioteconomia e Ciências da Informação (CECI).
A direção da Filô emitiu nota na qual diz haver tomado “conhecimento, no dia 6 de junho de 2026, de atos de invasão e depredação em dependências da Unidade”, e que desde então “todas as providências cabíveis” vêm sendo adotadas. “Foi registrado Boletim de Ocorrência junto à Guarda Universitária, e a Direção mantém contato com a Administração Central da Universidade para análise e encaminhamento das demais medidas administrativas e institucionais pertinentes”.
Após assinalar que a FFCLRP-USP “reafirma seu compromisso com a preservação do patrimônio público, com a convivência respeitosa e com os princípios que regem a Universidade”, a direção da unidade “repudia de forma veemente qualquer ato de violência, intimidação, vandalismo ou dano ao patrimônio público, por entender que tais práticas atentam contra o ambiente universitário, a liberdade acadêmica e os valores democráticos que sustentam a vida universitária”.
Almeida é pré-candidato a deputado estadual, e Hagara a deputado federal. O ataque à “Filô”, como é conhecida a FFCLRP, é uma tática eleitoral cuja finalidade é repercutir seus nomes nas redes sociais e projetar as respectivas candidaturas. Mas, no caso de Hagara, a provocação contra o movimento estudantil da “Filô” e da USP provavelmente ampliará a já extensa relação de ações judiciais que ele enfrenta.
O portal especializado Jusbrasil registra atualmente a existência de nada menos que 35 processos judiciais contra Hagara, inclusive por parte do Ministério Público (MP-SP). São ações de indenização por dano moral, responsabilidade civil, ou motivadas por ameaças e difamação que ele é acusado de cometer.
Em abril último, o juiz Paulo César Gentile, da Vara da Infância e Juventude de Ribeirão Preto, emitiu liminar em ação civil pública ajuizada pela Procuradoria Geral do Município e proibiu Hagara de ingressar em escolas municipais sem autorização prévia da Prefeitura de Ribeirão Preto. A proibição deve-se ao fato de que, durante uma “visita” à Escola Municipal de Ensino Fundamental Anísio Teixeira, o pré-candidato realizou filmagens, que ele divulgou, nas quais questiona o uso do banheiro feminino por uma aluna transgênera.
A Diretoria da Adusp emitiu nota de repúdio à invasão da Filô, que atribuiu a “fins político-eleitorais”. O Centro de Vivência, diz a nota, “constitui um espaço legítimo de organização e construção coletiva dos(as) estudantes, integrando a tradição democrática do movimento estudantil e da vida universitária”. Ações intimidatórias, de vandalismo e de violência política não podem ser naturalizadas nem toleradas, frisa a Diretoria da Adusp.
“O ocorrido não pode ser compreendido isoladamente. Insere-se em um contexto mais amplo de ofensivas da extrema-direita contra as universidades públicas, a ciência e a construção de pensamento crítico”, adverte. “Nos últimos anos, têm-se multiplicado iniciativas que buscam deslegitimar as universidades, atacar sua autonomia, restringir a liberdade de ensino e de pesquisa e criminalizar movimentos estudantis e sindicais”.
A nota também exige “a apuração dos fatos, a responsabilização dos envolvidos e a adoção das medidas necessárias para garantir a integridade dos espaços estudantis e a segurança da comunidade universitária frente a esses ataques da extrema-direita na USP”. Leia a seguir a íntegra do texto.
Nota de repúdio ao ataque à FFCLRP
A Diretoria da Adusp manifesta seu veemente repúdio à invasão do Centro de Vivência dos(as) estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) por Hagara Espresola Ramos e Renato Almeida, que adentraram o espaço com fins político-eleitorais, promovendo o arrombamento e a depredação do espaço.
O Centro de Vivência (CV) constitui um espaço legítimo de organização e construção coletiva dos(as) estudantes, integrando a tradição democrática do movimento estudantil e da vida universitária. Qualquer tentativa de violar sua autonomia ou de instrumentalizá-lo em fins eleitoreiros representa um ataque às liberdades democráticas, à organização estudantil e à autonomia universitária.
A Adusp solidariza-se com os(as) estudantes da FFCLRP e reafirma seu compromisso com a defesa dos espaços de organização política, cultural e acadêmica da comunidade universitária, que caracterizam esse ambiente e conferem-lhe um papel público e formativo. Ações intimidatórias, de vandalismo e de violência política não podem ser naturalizadas nem toleradas, somente na ditadura esses espaços foram censurados.
O ocorrido não pode ser compreendido isoladamente. Insere-se em um contexto mais amplo de ofensivas da extrema-direita contra as universidades públicas, a ciência e a construção de pensamento crítico. Nos últimos anos, têm-se multiplicado iniciativas que buscam deslegitimar as universidades, atacar sua autonomia, restringir a liberdade de ensino e de pesquisa e criminalizar movimentos estudantis e sindicais.
Não por acaso, universidades, entidades estudantis e organizações da comunidade acadêmica tornaram-se alvos recorrentes dessas investidas. A extrema-direita busca intimidar e silenciar espaços marcados pela diversidade de ideias, pela produção científica e pelo pensamento crítico. A invasão e a depredação de um espaço estudantil para fins eleitorais expressam essa lógica autoritária, incompatível com os princípios que sustentam a universidade pública.
Repudiamos toda tentativa de incursão da extrema-direita na Universidade de São Paulo, especialmente quando associada à violência política, à intimidação e ao desrespeito aos espaços democráticos de organização da comunidade universitária.
A USP é patrimônio da sociedade brasileira. Sua autonomia, a liberdade acadêmica e os espaços de organização coletiva conquistados por décadas de luta devem ser preservados e protegidos contra toda forma de autoritarismo.
A Diretoria da Adusp exige a apuração dos fatos, a responsabilização dos envolvidos e a adoção das medidas necessárias para garantir a integridade dos espaços estudantis e a segurança da comunidade universitária frente a esses ataques da extrema-direita na USP.
São Paulo, 8 de junho de 2026
A Diretoria da Adusp
Fortaleça o seu sindicato. Preencha uma ficha de filiação, aqui!
Mais Lidas
- Assembleia Geral de 3/6 decide suspender a greve e manter a mobilização por reajuste de 7,52%, convocando a categoria a participar do ato de 10/6
- Governo estadual e cúpula da USP celebram entrada da Google no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, embora a “big tech” forneça IA para o Pentágono; será “complexo de vira-latas”?
- Greve estudantil é encerrada na Poli e na Faculdade de Direito; DCE-Livre realiza assembleia geral na segunda (8/6) para decidir rumos do movimento
- Militantes de extrema-direita arrombam portas de salas das entidades estudantis da “Filô” e rasgam cartazes; direção da unidade pede providências à Reitoria
- Diretoria da Adusp entrega carta à Reitoria na qual requer reabertura das negociações da data-base e do diálogo com estudantes em greve