Estudantes dos cursos de saúde da USP, profissionais do Hospital Universitário (HU) e de outras unidades da universidade realizaram uma manifestação na tarde desta quarta-feira (29 de abril), com bloqueio da Av. Dr. Arnaldo e caminhada até a Av. Paulista.

O ato teve dois objetivos principais. O primeiro deles é denunciar a mercantilização do ensino médico público por meio do programa “Experiência HCFMUSP na Prática”, que cobra um total de quase R$ 9 mil de estudantes do 4º ao 6º anos de outras instituições, principalmente particulares, por estágio de um semestre no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

O segundo é reverter o sucateamento do HU, iniciado na gestão do ex-reitor M. A. Zago (2014-2017) e mantido pelos seus sucessores, V. Agopyan (2018-2021) e Carlos Gilberto Carlotti Jr. (2022-2025).

CAOCCAOC
Cartaz expõe reivindicações dos(as) alunos(as) na FMUSP

Zago e Carlotti Jr., recorde-se, são médicos e fizeram carreira docente na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) — em 2024, Carlotti Jr. transferiu-se para o quadro da FMUSP. O atual reitor, Aluísio Augusto Cotrim Segurado, também médico, é ligado há cinquenta anos à faculdade da capital, onde fez graduação, mestrado e doutorado e se tornou docente.

Os(as) alunos(as) da faculdade decidiram aderir à greve proposta pelo conjunto dos(as) estudantes da universidade. Desde o último dia 23 de abril, os(as) discentes interromperam as atividades teóricas na FMUSP, mas mantêm a participação nas atividades assistenciais. A continuidade do movimento será avaliada semanalmente.

Discurso da concessão de bolsas a discentes é usado para justificar curso pago

Criado em 2023, o “Experiência HC” registra crescimento ano a ano. Em 2026, estão previstas até 2 mil vagas para alunos(as) externos(as), número que supera em 3,7 vezes o total de estudantes de medicina do 4º ao 6º ano da USP.

O preço por aluno(a) do “Experiência HC” é de R$ 8.450, valor que pode ser pago à vista ou parcelado em 12 vezes de R$ 704,16, além da inscrição, de R$ 350.

De acordo com o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), entidade discente da FMUSP, a previsão é de que o “Experiência HC” gere cerca de R$ 15,2 milhões em 2026. A responsável pelo programa e por outros cursos pagos é a Fundação Faculdade de Medicina (FFM), fundação privada dita “de apoio” às atividades da FMUSP e do HC.

Depois de fazer repasses obrigatórios de 5% à faculdade e 5% à Reitoria da USP, a FFM administra o restante dos recursos. Normalmente, coordenadores(as) e demais docentes participantes embolsam 90% das receitas geradas por atividades remuneradas desse tipo.

Recursos oriundos do programa são utilizados para o pagamento da Bolsa Afinal — complementar ao Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAFPE) e destinada a estudantes da FMUSP — e de um curso específico para alunos(as) do 5o ano da faculdade.

A vinculação direta à arrecadação do “Experiência HC” de itens como financiamento de bolsas estudantis e pagamento de preceptores e de custos operacionais de disciplinas gera uma distorção importante, considera o CAOC.

“Essa lógica é uma estratégia que busca vincular o pagamento de itens necessários [para a faculdade] a um programa desnecessário, para garantir a sua existência e expansão de forma arquitetada”, afirma Henrick Munhoz Martins, vice-presidente do CAOC e membro do comando de greve. “Diante do orçamento da USP e de entidades vinculadas à universidade, os valores arrecadados pelo ‘Experiência HC’ são proporcionalmente pequenos e não justificariam a adoção do modelo”, continua Martins, para quem essas verbas poderiam tranquilamente vir de outras fontes.

A discriminação dos gastos divulgada pela FFM mostra que há destinação de dezenas de milhares de reais para confecção de broches, cadernos ou garrafas, “que não são de real necessidade para os estudantes”, diz Martins.

“Temos propostas concretas para a substituição da verba do programa, e batemos na tecla da desvinculação dos gastos da graduação ligados ao ‘Experiência HC’, como as bolsas de permanência e de preceptoria”, afirma.

Vale lembrar que, embora seja para todos os efeitos uma “entidade sem fins lucrativos”, a FFM obteve em 2025 um “superávit” de R$ 42 milhões, conforme suas demonstrações contábeis. O resultado é 28,8% superior ao de 2024, quando o superávit registrado foi de R$ 29,9 milhões.

Alunos(as) da FMUSP têm acesso restrito a atividades; prioridade é de pagantes do curso

Na avaliação dos(as) alunos(as) da FMUSP, está em curso um projeto de precarização do ensino médico e do atendimento à população dentro de uma das principais instituições do país.

“Efetivamente, o programa cria um modelo inédito na universidade pública, onde o acesso à prática médica é condicionado à capacidade de pagamento e os estudantes da própria USP ficam com acesso restrito às atividades”, afirma o vice-presidente do CAOC.

A primazia dada ao programa privado tem reflexos no cotidiano dos(as) alunos(as) da faculdade. “Estudantes da FMUSP relatam uma série de situações em que perderam espaço para alunos do programa, com internos deslocados para funções burocráticas, como redigir prontuários de atendimentos realizados por estudantes pagantes; restrição de acesso a centros cirúrgicos para priorizar vagas do programa; superlotação de enfermarias e ambulatórios; e impedimento dos alunos da própria universidade de participarem de exames e discussões clínicas à beira-leito”, descreve Martins. Casos do tipo já haviam sido relatados pela Revista Adusp em 2024.

Desmonte do HU, antes visto como ótimo campo de estágio, prejudica formação

O desmonte do HU, cuja recuperação é outro eixo da luta dos(as) estudantes, está refletido nos números: de acordo com o Anuário Estatístico da USP, em 2024 foram realizadas 43,9 mil consultas médicas, contra 163 mil em 2013. O número de leitos caiu quase pela metade no período: de 233 para 128.

Desde 2014 o hospital perdeu cerca de 30% de seus funcionários e fechou aproximadamente 25% dos leitos de internação e 40% dos leitos de UTI. Como resultado, as internações caíram de 11,6 mil em 2013 para 6,2 em 2024.

“Atualmente o hospital opera com menos de 70% de sua capacidade, deixando desassistida a população da Zona Oeste de São Paulo e comprometendo a formação prática de alunos de diversos cursos da saúde”, ressalta Martins, do CAOC.

“A queda nos números de assistência clínica e procedimentos cirúrgicos impacta diretamente a função social do HU e isso se expressa muito claramente na formação dos alunos, não só da Medicina mas de outros cursos, como a Enfermagem. Se não tem paciente, não tem aprendizado para os alunos”, continua o estudante.

Martins relata que, antes do desmonte, os(as) alunos(as) consideravam o HU um ótimo campo de estágio. Hoje, porém, ele “é visto como um hospital com falta de estrutura e falta de funcionários, em que os alunos mais realizam tarefas administrativas do que assistenciais de fato”.

O movimento dos(as) estudantes pleiteia ainda a revisão curricular do curso de Medicina. Na sua avaliação, o modelo atual do curso não acompanha as transformações do sistema de saúde e não prioriza adequadamente a formação voltada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os(as) alunos(as) defendem que a revisão se dê num processo amplo, participativo e com poder deliberativo real para os(as) discentes.

Diretor clínico do HU apoia reivindicações estudantis

Em manifestação emitida no último dia 24 de abril, o médico João Paulo Becker Lotufo, diretor clínico do HU, expressa o seu apoio ao movimento dos(as) estudantes.

De acordo com Becker Lotufo, o hospital já está há anos “em redução forçada” [de atendimento], por conta da “falta de funcionários e falta de investimentos”.

O médico relata que entrou em contato com o CAOC diversas vezes nas gestões anteriores, iniciando diálogo sobre a situação do HU. “Sinto que a gestão atual está verdadeiramente preocupada com a situação do hospital-escola da nossa universidade, a maior da América Latina, mas que vem sendo desprezado pela sua Administração Central. Esperamos que as justas reivindicações dos alunos sejam atendidas”, afirma.

O diretor clínico ressalta que, para a formação dos(as) alunos(as) de Medicina, “o fim do sucateamento do hospital é de suma importância, pois impacta diretamente a qualidade do ensino e do curso de Medicina”.

Becker Lotufo considera que o ensino dos(as) estudantes “depende da equipe brilhante que aqui trabalha, mas depende também da abertura pelo menos parcial dos leitos fechados, com contratação de equipe de enfermagem e funcionários correspondentes”.

“Quanto menos pacientes atendermos, menor o aprendizado. Este é o problema de várias faculdades de Medicina que não têm hospital de ensino, e não pode também se tornar o nosso”, diz.

O diretor clínico lembra ainda que Aluísio Segurado, “apesar de médico”, foi “o único candidato ao cargo a não aceitar nosso convite para discutir o HU, entre os candidatos à Reitoria, no ano passado”.

EXPRESSO ADUSP


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