Memória
Brasil perde Fernando Novais, um de seus maiores historiadores e Professor Emérito da FFLCH, aos 93 anos
Faleceu nesta quinta-feira (30 de abril), aos 93 anos, Fernando Antonio Novais, um dos principais historiadores brasileiros e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Novais lecionou no Departamento de História da FFLCH entre 1961 e 1986 e depois se transferiu para o Instituto de Economia da Unicamp, aposentando-se em 2003. Atuou ainda como professor ou pesquisador visitante em universidades de Portugal e dos Estados Unidos e ministrou cursos na França e na Bélgica.
Fernando Novais graduou-se em 1958 pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) e concluiu seu doutorado em 1973, sob a orientação de Eduardo d’Oliveira França. Sua tese de doutorado deu origem a uma obra clássica da historiografia brasileira, Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, publicada originalmente em 1979.
“Nos anos 1960 participou, junto com outros destacados intelectuais paulistas, do Seminário Marx. Foi um dos sócios fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969. Como professor e orientador dos cursos de pós-graduação nessas universidades, formou dezenas de mestres e doutores”, escreveu, em homenagem publicada no site da FFLCH, o professor Pedro Puntoni.
“Destacou-se — todos seus alunos podem o confirmar — como grande professor nos cursos de graduação. Ensinando com rigor e método, em aulas teatrais e conduzidas de forma perfeita: sua atividade como mestre vem — há décadas — despertando interesses, vocações e paixões (pela História)”.
Segundo Puntoni, Novais foi professor visitante na Universidade do Texas, Austin, e palestrante em Minnesota, Columbia, Yale, Lisboa, Porto, Sevilha, Louvain e Paris. “Suas linhas de pesquisa tradicionalmente estiveram ligadas à História Social, Econômica e Política do Brasil colonial. Fernando Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal. Era coordenador da coleção ‘Estudos Históricos’, da Hucitec, responsável pela mais densa e longeva coleção de livros da historiografia brasileira”, acrescenta.
Em entrevista publicada pela revista Pequisa Fapesp em 2022, afirmou que a principal contribuição da obra foi “situar, na formação do capitalismo, qual era a posição do Brasil na gestação do centro e da periferia” e “comparar essa posição com a dos Estados Unidos, da América espanhola, dos outros países”. “Quando o capitalismo se completa com a revolução industrial, o sistema todo é redefinido”, disse.
Intelectual de formação marxista, o professor também escreveu muitos outros trabalhos importantes sobre história e historiografia e foi o organizador, nos anos 1990, da coleção História da Vida Privada, publicada pela Companhia das Letras.
Ainda na entrevista à revista Pesquisa Fapesp, ele também contestou a ideia de que o desenvolvimento do Brasil seria de um tipo diferente caso o país tivesse sido colonizado pela Inglaterra. “As 13 colônias da Inglaterra na América do Norte tiveram um tipo de colonização de imigrantes em que a economia é organizada para o próprio consumo. Não foram colônias de exploração como no Brasil e na América espanhola”, explicou. “Um outro extremo da colonização da Inglaterra são as Antilhas, com a Jamaica. Ali, houve situação em que se importava tudo, ovo, galinha, porque o foco era exclusivamente fazer açúcar. Quanto mais morriam escravos, mais aumentava o tráfico, era uma situação limítrofe”, assinalou.
“Entre os extremos, temos a América espanhola e o Brasil, os dois tendentes mais para colônias de exploração do que de imigração, mas sem impedir o desenvolvimento local. Se o Brasil fosse colonizado pela Inglaterra, tenderia a ser uma imensa Jamaica. Vale a mesma coisa com relação aos holandeses. Se tivessem prevalecido no Nordeste, poderíamos ser um imenso Suriname. O fato de termos sido colonizados por Portugal importa, mas não é isso que explica que o Brasil seja mais ou menos desenvolvido hoje”, assegurou.
“É um truísmo afirmar que Fernando Novais foi um dos maiores historiadores brasileiros. Ele se formou na tradição uspiana, como aluno de Eduardo d’Oliveira França e leitor de Braudel, mas também como destacado estudioso de Caio Prado Júnior e Marx. Sua obra é uma síntese dessas leituras”, comentou, a pedido do Informativo Adusp Online, o professor Lincoln Secco. “Ele aprofundou a ideia de Antigo Sistema Colonial de Caio Prado de maneira criativa e se aprofundou na análise do papel da periferia na acumulação mundial de capital. Foi também um grande professor que até o fim de seus dias encantou seus alunos”.
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