Data-base
Depois de pressão das entidades do Fórum das Seis, Cruesp aumenta proposta de reajuste de 2% para 3,47%; segunda reunião de negociação será em 11/5, após debate nas assembleias

O Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) apresentou uma proposta de reajuste de 3,6% (índice rebaixado no dia seguinte para 3,47%) para as categorias de servidores(as) técnico-administrativos(as) e docentes na primeira reunião de negociação da data-base de 2026 com o Fórum das Seis, realizada na tarde da segunda-feira (4 de maio) na Reitoria da Unesp, no Centro de São Paulo.
Essa foi, na realidade, a segunda proposta colocada na mesa pelos reitores. A primeira era de apenas 2%, índice rechaçado com veemência pelos(as) representantes das categorias.
A justificativa do Cruesp para a proposta inicial foi de que a arrecadação da quota-parte do estado no ICMS em 2026 vai se limitar ao montante previsto na Lei Orçamentária Anual de 2026, de R$ 187,1 bilhões, valor que orientou o orçamento das três universidades para este ano. Há técnicos do Cruesp que acreditam inclusive que a arrecadação ficará abaixo do previsto, ressaltou o Boletim do Fórum das Seis.

A presidenta do Cruesp, Maysa Furlan, reitora da Unesp, defendeu que é preciso pensar a partir de um ponto de vista “mais conservador”, considerando inclusive que os orçamentos da Unesp e da Unicamp para 2026 já preveem déficit.
Apresentada a proposta inicial de reajuste de 2%, a representação das entidades questionou o Cruesp, inclusive relacionando o termo “conservador” a atitudes como atacar direitos, arrochar salários e precarizar condições de trabalho.
Os(as) representantes do Fórum enfatizaram que também trabalham com números, em parte divergentes dos apresentados pelos técnicos do Cruesp, mas que o debate deve ser político e considerar a realidade das categorias.
Os reitores foram instados a conversar em separado para avaliar a possibilidade de apresentar um reajuste mais expressivo nesta data-base e então se retiraram. Somente no retorno colocaram na mesa o índice de 3,6%, percentual que estimavam para a inflação dos últimos doze meses, de acordo com o IPC-Fipe.
Indicador da Fipe, que Cruesp adota, aponta inflação menor que IPCA-IBGE
O Fórum insistiu na necessidade de um compromisso dos reitores com uma política de recuperação salarial, tendo como meta a recomposição do poder de compra dos salários em maio de 2012. A reivindicação apresentada na Pauta Unificada de 2026, calculada com base no IPCA-IBGE, estima esse índice em 15,97%, ainda sem considerar a inflação de abril.
Vale lembrar que o Fórum das Seis não reconhece o índice da Fipe como o melhor para calcular a inflação do país, entre outras razões porque se limita ao município de São Paulo. Por isso, adota o IPCA, que é calculado pelo IBGE, um órgão público, e tem abrangência nacional, sendo considerado metodologicamente mais adequado.
As diferenças metodológicas se expressam nos números. Enquanto o IPC-Fipe acumulado nos últimos doze meses foi de 3,47% – dado divulgado nesta terça-feira (5 de maio), depois da reunião, e adotado pelo Cruesp no comunicado que divulgou no dia seguinte –, o IPCA-IBGE aponta inflação de 4,14% (até março de 2026; o percentual incluindo o mês de abril ainda não foi publicado).

A proposta do Cruesp será submetida às assembleias de base das categorias, que vão avaliar se o Fórum deve apresentar uma contraproposta na segunda reunião de negociação entre as partes, agendada para o dia 11 de maio, às 14h.
A Assembleia Geral da Adusp ocorre nesta quinta-feira, dia 7, às 17h30, no Auditório Adma Jafet, no Instituto de Física, com transmissão pelo YouTube e participação das regionais por videoconferência.
Nesta quarta-feira, dia 6, às 18h, a Adusp promove uma reunião online com a categoria para tratar da negociação em andamento. A conversa servirá para colher contribuições e esclarecer eventuais dúvidas.
Cruesp ignora reivindicações discentes, e reitor encerra negociação na USP
A reunião de negociação foi antecipada e acompanhada por um ato público realizado na Praça da República, em frente à Reitoria da Unesp, composto em maioria por estudantes das três universidades, muitos(as) vindos(as) de unidades do interior.
As pautas estudantis, como as reivindicações por melhores condições de permanência e pela contratação de docentes e funcionários(as), no entanto, foram banidas da reunião pela presidenta do Cruesp, que argumentou que o encontro serviria para discutir unicamente as questões salariais.
Os(as) representantes das entidades repudiaram a postura dos reitores — além de Maysa Furlan, estavam presentes o reitor da USP, Aluísio Segurado, e o da Unicamp, Paulo Cesar Montagner — de calar a voz dos(as) estudantes.
O debate é premente, ressaltaram, apontando exemplos como a greve estudantil mantida em várias unidades da USP desde 14 de abril e as manifestações na Unicamp e na Unesp, nesta última com paralisações em vários campi e uma ocupação em andamento no Instituto de Artes em São Paulo.

Montagner chegou a dizer que os(as) estudantes sequer faziam parte do Fórum das Seis, no que foi prontamente corrigido pelo presidente da Adunesp, Antônio (Tato) Luís de Andrade. As entidades estudantis foram incorporadas ao Fórum durante a greve de 2000, fortalecendo e formalizando uma unificação que já vinha ocorrendo na prática.
Para piorar, os(as) estudantes da USP tomaram conhecimento, durante a reunião, da publicação de um comunicado da Reitoria dando por “encerrada a negociação das pautas estudantis”. O comunicado foi ao ar às 15h, exatamente o horário de início da reunião entre Cruesp e Fórum.
Entre os itens abordados na nota, a Reitoria diz que destinou 120 contratações ao Hospital Universitário (HU), medida adotada na recém-encerrada gestão Carlotti Jr.-M. Arminda (2022-2025).
Porém, esse número é absolutamente insuficiente para repor a perda de mais de 500 profissionais ocorrida entre 2013 e 2024, quando o quadro caiu de 1.850 para 1.310 funcionários(as). “Desde então”, prossegue o comunicado, “as vagas decorrentes de desligamentos vêm sendo repostas por meio de concursos públicos”.
Dessa forma, a Reitoria deixa claro que não fará recomposição do quadro de pessoal e que a recuperação do HU, uma das pautas do movimento estudantil da USP, não está no horizonte da Administração.
Em relação a outra reivindicação crucial — o fim do programa “Experiência HCFMUSP na Prática”, que cobra quase R$ 9 mil de cada aluno(a) por um estágio de seis meses no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP —, o comunicado afirma que “a Pró-Reitoria de Graduação e a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, em conjunto com a Diretoria da Faculdade de Medicina (FM) e com representação discente, realizarão uma avaliação independente do programa, especialmente quanto à sua adequação às normas que regem os cursos de extensão da Universidade e quanto a eventuais impactos que possa acarretar aos estudantes da FM”.
O DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” e os centros acadêmicos vão discutir os rumos do movimento em suas assembleias nesta semana.
Ao final da reunião entre Cruesp e Fórum das Seis, Maysa Furlan agendou um encontro entre os reitores e os membros do GT Permanência, composto por representantes das partes (inclusive a representação estudantil), para avaliar o andamento das discussões até o momento. A reunião ocorrerá no próximo dia 11, logo depois da segunda rodada da negociação salarial.
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