Depois de negativa de diálogo por parte do reitor, estudantes ocupam Reitoria para pedir retomada da negociação das pautas da greve; Polícia Militar permanece no interior do prédio
Estudantes diante da Reitoria durante a tarde de sexta-feira, 8/5 (foto: Daniel Garcia)

Ocupada por estudantes desde o final da tarde da última quinta-feira (7 de maio), o prédio da Reitoria da USP foi cercado pela Polícia Militar na manhã desta sexta-feira (8). Porém, posteriormente a maior parte dos policiais militares que estava do lado de fora se retirou. No final da tarde de sexta, a presença da PM era discreta na parte externa da Reitoria. No entanto, um contingente fortemente armado do Batalhão de Ações Especiais (BAEP) permanecia no interior do prédio, separado dos(as) estudantes por uma estrutura de vidro transparente.

Apesar da presença ostensiva dos policiais militares, o clima é tranquilo e não foram registrados incidentes até o início da tarde da sexta-feira. Os(as) estudantes permanecem no saguão do prédio e na área externa. No início da manhã o fornecimento de água e luz do prédio foi cortado. Foram realizadas diversas atividades relacionadas à ocupação, como debates e aulas abertas.

A ocupação ocorreu depois de quase um dia inteiro de manifestação dos(as) discentes, que fizeram um “trancaço” logo cedo, na quinta-feira, reivindicando a reabertura das negociações da pauta da greve estudantil com a Reitoria.

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Geodésica, cartazes e faixas dão novo aspecto à entrada da Reitoria

Como a Administração da USP se manteve em silêncio e não deu nenhuma resposta ao movimento ao longo do dia, os(as) estudantes pularam o portão principal, derrubaram duas portas de vidro que estavam fechadas e ocuparam o saguão de entrada do prédio.

A Reitoria chamou a Polícia Militar, que acionou o Batalhão de Ações Especiais (BAEP). Os policiais entraram no edifício, impedindo que os(as) estudantes ocupassem as demais dependências.

Em nota divulgada no Instagram, o DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” afirmou que “os estudantes em greve da USP tomaram hoje a decisão de ocupar a Reitoria da USP, de forma pacífica e sem depredação como acusa a PRIP [Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento] de forma mentirosa”.

“A nossa ação é um pedido justo e legítimo frente à intransigência da Reitoria que unilateralmente fechou a mesa de negociação, sem o acordo não apenas dos negociadores mas sobretudo da grande maioria dos cursos que seguem em greve em mais de 3 semanas”, prossegue a nota.

“O que pedimos não é nada demais: queremos a reabertura da mesa de negociação. A nossa reivindicação é justa e precisa ser atendida. Se a Reitoria quer acabar com a greve, não será ignorando a forte mobilização que os estudantes estão fazendo, mas atendendo nosso pedido de escuta”, diz ainda o DCE-Livre.

A entidade rechaça “qualquer tentativa de criminalização do movimento”. “O que é um ato de violência não é lutar por nossos direitos, mas ter que conviver com bolsas insuficientes, larvas na comida e moradia precária. Fazemos um apelo: Reitoria, reabra a mesa de negociação! É por nisso que hoje ocupamos o seu escritório. Nossa ocupação tem um objetivo: reabertura da negociação para que nossas pautas sejam atendidas”, reforça o DCE-Livre.

Reajuste das bolsas do PAPFE é a principal reivindicação

No início da noite, estudantes que participam da ocupação deram uma coletiva à imprensa. A estudante Rosa Baptista Miranda, integrante da direção do DCE-Livre, reconheceu que houve avanços nas negociações com a Reitoria, como a revogação de uma minuta sobre os espaços estudantis e o estudo da criação de cotas trans e indígenas para acesso à USP. Porém, a principal demanda do movimento, que é o reajuste das bolsas do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), não foi atendida.

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Estudantes agitam bandeiras no saguão da Reitoria, na noite de quinta, 7 de maio

“Na primeira mesa de negociação, a Reitoria apresentou que não teria como aumentar ou reajustar nenhum valor, mas na segunda mesa voltou atrás e apresentou que era possível sim reajustar. O que a Reitoria trouxe foi um reajuste de R$ 27 e, para os moradores do Cruesp, um aumento de só R$ 5 no valor do auxílio. O que estamos exigindo agora, que é a principal demanda dos estudantes, é sobretudo o aumento do auxílio”, afirmou a diretora do DCE-Livre.

“Esse processo de mobilização é na verdade uma resposta à negligência da Reitoria. É uma resposta daqueles que estão cansados de ser ignorados por um órgão que deveria atender e ouvir os seus estudantes”, prosseguiu.

USP fala em “violência”, “vandalismo” e “intimidação”

Até o início da tarde da sexta-feira, o reitor Aluísio Segurado não havia feito contato com os(as) estudantes. A única manifestação divulgada até o momento foi publicada no site da USP no início da noite de quinta-feira.

A íntegra do comunicado é a seguinte:

“A USP vem a público lamentar profundamente a escalada de violência que levou, na tarde de hoje, dia 7 de maio, à invasão do prédio principal da Reitoria por manifestantes, com danos ao patrimônio público.

Diante dessa situação, e respaldada juridicamente, a Universidade adotou as medidas cabíveis, acionando as forças de segurança pública que, já presentes no local, atuam para evitar a ocupação de outros espaços e prevenir maiores danos patrimoniais. Em toda a ação, serão priorizadas a segurança e a integridade física de todos os envolvidos.

A USP garante que suas Unidades de Ensino e Pesquisa, Institutos Especializados, Museus e Órgãos da Administração Central manterão regularmente suas atividades, cumprindo a missão institucional que lhe foi confiada pela sociedade paulista que nos mantém.”

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Policiais militares do BAEP e estudantes separados por uma estrutura de vidro na Reitoria, em 7 de maio

Na segunda-feira (4 de maio), a Reitoria havia divulgado comunicado no qual afirmava unilateralmente que considerava “encerrada a negociação das pautas estudantis”.

Outros órgãos e unidades também divulgaram notas a respeito. A PRIP divulgou nota de repúdio em que qualifica a ocupação como “atos de violência, vandalismo e depredação do patrimônio público”, acusações que o DCE-Livre rechaçou em seu comunicado.

A Faculdade de Direito repudiou a ocupação. Apesar de afirmar que “o direito à manifestação estudantil, nesse contexto, é legítimo e deve ser plenamente assegurado”, a direção da unidade diz entender, contudo, que “nenhuma reivindicação — por mais relevante que seja — autoriza práticas de violência, intimidação, depredação do patrimônio público ou invasão de espaços institucionais”.

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Contigente da PM chamado a defender a Reitoria porta armas longas e escudos

Na terça-feira (5), a Pró-Reitoria de Graduação (PRG) divulgara comunicado em que reafirma que não houve mudanças no calendário escolar da universidade, em nova ameaça de punição indireta de reprovação por falta aos e às estudantes em greve.

Adusp conclama Reitoria a retomar negociações e preservar diálogo

Na Assembleia Geral realizada na quinta-feira, a Adusp aprovou moção na qual defende “como prioritária, neste momento, a retomada efetiva das negociações e a preservação dos canais de diálogo”.

“Também consideramos inadequadas manifestações recentes da administração universitária e da Pró-Reitoria de Graduação que desconsideram a necessidade de uma construção dialogada de calendários acadêmicos, reposições e períodos de repouso compatíveis com a realidade vivida pela comunidade estudantil”, prossegue a moção.

“Entendemos que conflitos universitários devem ser tratados pelas instâncias competentes com diálogo e disposição efetiva para a negociação. A escalada repressiva e a ameaça de intervenção policial apenas aprofundam as tensões e dificultam o estabelecimento do diálogo fundamental para a recomposição da convivência universitária”, diz o texto.

A moção encerra conclamando “publicamente a Reitoria da USP a retomar imediatamente as negociações com os estudantes, buscando uma solução pacífica, negociada e compatível com os valores democráticos que devem orientar a universidade pública”.

EXPRESSO ADUSP


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