Universidade
Pronto-Socorro do HU vai fechar para reforma, o que aumentará ainda mais a sobrecarga do serviço de urgências na Zona Oeste; triagem será privatizada
O investimento de R$ 50 milhões no Hospital Universitário (HU) recentemente anunciado pela Reitoria da USP deve ser integralmente destinado à reforma do Pronto-Socorro (PS) da instituição. De acordo com informações dadas pelo superintendente do HU, José Pinhata Otoch, a representantes do Coletivo Butantã na Luta, em reunião realizada na quarta-feira da semana passada (5 de agosto), o PS será fechado para as obras, que deverão ser iniciadas antes de dezembro.
Os integrantes do Butantã na Luta tiveram a oportunidade de visitar as dependências do PS, atualmente com 22 leitos, e constataram a situação de precariedade do setor.
Procurada pelo Informativo Adusp Online para comentar a reforma, a Superintendência do HU não se manifestou sobre a formulação do projeto executivo nem sobre o cronograma das obras.
Como ressaltou o Informativo Adusp Online, não há previsão de recursos da USP para que o HU contrate novos(as) servidores(as), a principal carência num hospital que perdeu 30,6% de seu quadro desde 2013. No período, a redução foi de 1.850 para 1.284 funcionários(as).
“A reforma é bem-vinda, que fique claro”, disse ao Informativo Adusp Online o diretor clínico do HU, João Paulo Becker Lotufo. Porém, prossegue o médico, “se não houver manutenção adequada no hospital, em dez anos estaremos sucateados novamente”.
“As demissões da clínica médica só serão repostas ano que vem, se forem”, prossegue. “Fala-se em trazer plantonistas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (HC-FMUSP) para repor provisoriamente as vagas. Isso passa longe do ideal. Como administrar um hospital que demora um ano para repor uma vaga?”
Lotufo também reivindica a reabertura de leitos e de salas cirúrgicas que no momento não estão ativas. “A diminuição dos leitos dificulta o ensino. Se não houver investimentos na equipe que exerce função docente, o ensino perderá em muito”, afirma, lembrando que cabe ao sistema público de saúde a responsabilidade pelo atendimento na Zona Oeste da cidade, mas que o ensino ainda está a cargo da universidade.
Terceirização pode ser início de “passagem da boiada”
Uma “novidade” adiantada por Pinhata Otoch aos integrantes do Coletivo Butantã na Luta é que o HU deve contratar uma empresa terceirizada para gerir a triagem do PS quando da reabertura.
A medida pode representar uma oportunidade para a “passagem da boiada” de um projeto maior de terceirização, privatização ou mesmo, no limite, “desvinculação” do HU, iniciativa já tentada, sem êxito, na gestão do reitor M.A. Zago (2014-2017).
Embora não esteja prevista nos documentos normativos da USP, a “desvinculação” foi obtida no caso do Hospital de Anomalias Craniofaciais (HRAC) de Bauru. Num processo repleto de irregularidades, o Conselho Universitário (Co) aprovou a medida em agosto de 2014, logo no primeiro ano da gestão Zago.
Anos depois, em 2021, a USP e o governo paulista assinaram um acordo de “cooperação técnica” que delegou a gestão do hospital à Secretaria Estadual da Saúde (SES) e abriu as portas à privatização.
A “organização social de saúde” (OSS) Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Faepa) foi contratada em 2022 pela SES para gerir o HCB por cinco anos pela quantia de R$ 309 milhões. No final do ano passado, já havia recebido R$ 592 milhões, quase o dobro do montante previsto inicialmente, graças a nove aditamentos ao contrato de gestão original. Será a entrega ao setor privado também o destino do HU?
UPA Butantã será entregue pela Prefeitura só em 2027, com um ano de atraso
O fechamento temporário do PS traz ainda uma preocupação a mais para a população, porque na atualidade o HU é um dos poucos hospitais referenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), se não o único, a receber pacientes encaminhados(as) para atendimento de urgência e emergência pelas unidades básicas na Zona Oeste de São Paulo.
O Pronto-Socorro Caetano Virgílio Neto (antigo PS Bandeirantes), no Jardim Bonfiglioli, foi desativado e em seu lugar a Prefeitura está construindo a nova Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Butantã. A previsão de entrega era para julho deste ano, mas a UPA só deve ficar pronta em junho do ano que vem, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde.
O Hospital Mario Degni, na Vila Antônio, está em reforma, assim como o Hospital Sorocabana, na Lapa, com reabertura prevista para o ano que vem. Portanto, sem o PS do HU o sistema deve ficar ainda mais sobrecarregado.
O Informativo Adusp Online procurou as secretarias estadual e municipal da Saúde para responder sobre as alternativas de atendimento de urgências e emergências na Zona Oeste de São Paulo no período em que o PS do HU estiver fechado.
A Secretaria Municipal da Saúde, por meio da Coordenadoria Regional de Saúde (CRS) Oeste, disse que “a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) III Rio Pequeno é uma das principais portas de entrada para casos de urgência e emergência na região” e que “as ocorrências que necessitem de suporte hospitalar são encaminhadas, conforme a condição clínica e a especialidade, para serviços de referência da rede municipal”.
A Secretaria Estadual não respondeu aos questionamentos enviados.
A professora Eloisa Silva Dutra de Oliveira Bonfá, diretora da FMUSP e presidente do Conselho Deliberativo do HU, foi procurada pela reportagem, por meio da assessoria de imprensa da faculdade, para falar sobre a situação, mas também não se manifestou. A assessoria da FMUSP disse que o HU iria responder às perguntas, mas a Superintendência do hospital não retornou os contatos.
Fortaleça o seu sindicato. Preencha uma ficha de filiação, aqui!
Mais Lidas
- “Organização social de saúde” presidida por Ludhmila Hajjar vence chamamento do Ministério da Saúde para gerir “Hospital Inteligente”, tendo como sócios Carlotti Jr. e Guido Cerri; contrato de gestão envolve R$ 1,95 bilhão em quatro anos
- Docentes da “Filô” de Ribeirão Preto pedem maior celeridade da Reitoria no reparo de laboratórios danificados pelo vendaval
- Reitoria da USP anuncia investimentos de R$ 50 milhões no Hospital Universitário, mas não prevê contratação de pessoal, maior carência numa instituição que perdeu 30% do quadro nos últimos anos
- Reitoria da Unesp precisa cumprir acordo que encerrou a greve estudantil, cobra Fórum das Seis; na USP, formação de GTs deve ocorrer a partir deste semestre
- “Integralidade e paridade para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias”