Conjuntura Nacional
Extraordinária mobilização popular e centralidade das pautas trabalhistas e sociais deram vitória a Lula, em “virada” histórica
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, anunciou oficialmente neste domingo, 25 de outubro, que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República e candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), saiu-se vencedor ao receber no segundo turno da eleição 64.256.232 votos (51,79%), enquanto seu adversário Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), obteve 59.826.041 votos (48,21%).
Em relação ao primeiro turno, quando chegou em segundo lugar com 53,87 milhões de votos, Lula viu sua votação crescer em 10,376 milhões de votos, graças a uma espetacular mobilização nacional em torno de sua candidatura, enquanto a de seu adversário, que havia recebido 56,1 milhões de sufrágios, cresceu somente 3,721 milhões, apesar do engajamento na sua campanha de governadores de extrema-direita eleitos ou reeleitos, como Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A diferença de 4,4 milhões de votos em favor de Lula foi maior que a do segundo turno da eleição presidencial anterior (2022), quando recebeu 2,2 milhões de votos a mais que o então presidente Jair Bolsonaro (PL). A votação atual de Lula também excedeu em 3,9 milhões de votos a recebida por ele próprio naquela ocasião, de 60,3 milhões de votos.
Neste domingo, 25 de outubro de 2026, votaram 128.236.074 brasileiras e brasileiros (80,78% do eleitorado apto a votar). Abstiveram-se 30.509.005 (19,22%). Embora ainda elevada, a abstenção reduziu-se em quase dois pontos percentuais relação ao primeiro turno (33,469 milhões ou 21,08%). No segundo turno, portanto, votaram 2,96 milhões de eleitoras e eleitores a mais que no primeiro turno.
Houve ainda 2,723 milhões de votos nulos (2,12%) e 1,43 milhão de votos em branco (1,12%). Nestes segmentos também houve redução significativa em relação ao primeiro turno, quando os votos nulos foram 3.674.249 (2,93%) e os votos em branco foram 2.300.798 (1,84%).
“É importante destacar o feito extraordinário, histórico, da virada do presidente Lula. Não só pelo ineditismo, mas pelo tamanho, pela mobilização de rua, por toda a agenda que foi colocada. O presidente Lula se consolida, claramente, como a principal liderança viva da esquerda mundial”, avalia o historiador Paulo Roberto Ribeiro Fontes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Isso está sendo destacado em todo o mundo: como a eleição brasileira pode significar uma virada nessa maré da extrema-direita, do autoritarismo em todas as regiões mundiais”.
Compreender todas as razões dessa virada exige mais tempo, diz Fontes, mas ele aponta desde já algumas questões. “Primeiro, a campanha de rua. Foi sensacional a presença da juventude, das mulheres, dos trabalhadores, dos idosos, todos de certa forma mobilizados nessa articulação entre a campanha de rua e as redes sociais. As pessoas, às vezes, fazem uma dicotomia entre esses dois âmbitos, mas a campanha no segundo turno mostrou como eles estavam interligados e como a campanha conseguiu articulá-los”, assinala. “O deputado [André] Janones teve um papel inegável de mobilização, mas mais do que Janones me parece que foi a articulação disso com a campanha de rua que possibilitou esse entusiasmo e essa vitória”, frisa ele.
Outro ponto digno de nota, a seu ver, é que foi uma campanha centrada nos direitos sociais. “A campanha deu uma guinada no segundo turno e essa guinada foi muito importante no sentido de mostrar os direitos em risco, a democracia em risco e junto com ela vários direitos dos trabalhadores, das trabalhadoras, vários direitos sociais. Isso também foi decisivo e ficou muito claro no último debate, com o ataque abjeto do Flávio Bolsonaro ao presidente Lula, o xingamento dos ‘nove dedos’ e a forma como Lula reagiu. Um tipo de simbolismo fundamental e que destaca a centralidade da questão dos direitos nessa campanha e para essa virada”.
No entender do docente do Instituto de História da UFRJ, que falou com exclusividade ao Informativo Adusp Online, o quarto mandato do presidente Lula tem desafios enormes pela frente, a começar pelo Congresso Nacional “muito difícil, muito conservador”. Porém, pondera, Lula já mostrou em outras ocasiões a sua habilidade para lidar com esse tipo de situação adversa. “O governo dos EUA é um problema, mas esse governo também está sob escrutínio, em duas semanas haverá eleições nos EUA que podem modificar significativamente esse quadro”.
O novo governo Lula, reforça Fontes, “precisa ser feito com as ruas, com as demandas da população, em particular da população mais jovem, por direitos, por saúde, educação, oportunidades de trabalho, renda”, como aliás anunciou o próprio Lula, no discurso da vitória na noite de domingo, na Avenida Paulista.
“Isso tem que ser o centro desse governo, o centro do quarto mandato, e eu acredito que vá ser. Então, apesar de todos os obstáculos e dificuldades, eu particularmente estou muito otimista, porque a mobilização social mostrou-se fundamental para a campanha e vai ser fundamental para o governo”.
A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, professora da University College de Dublin (UCD, Irlanda), celebrou em seu perfil na rede X a vitória de Lula: “Eu nunca vi tamanha mobilização nas ruas. Eu amo o povo brasileiro. Pela vida das mulheres, das gays, das pessoas com deficiência, pelas pessoas negras, pelas indígenas! Nós estamos vivas! E hoje nós estamos em festa!”. Ela homenageou ainda o parlamentar que organizou o “exército digital” do candidato do PT nas redes sociais: “Obrigada André Janones, você foi um herói”.
“Agora que o sufoco passou, penso que teve um lado positivo a derrota do primeiro turno. A vitória de hoje veio do sangue de cada brasileiro. Da mobilização. Da união por algo maior. Acordamos. E vamos governar juntos”, manifestou a docente da UCD em outra postagem, onde também fez alusão ao crescimento da extrema-direita na América do Sul: “O Brasil salvando a América Latina das trevas. O Brasil salvando o mundo”.
“Das ruas e das redes não sairemos”, diz Souto Maior em carta a Lula
Como fez nas anteriores eleições de Lula, o jurista Jorge Luiz Souto Maior, professor da Faculdade de Direito (FD-USP) e desembargador aposentado do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), endereçou carta pública ao presidente reeleito, na qual se congratula com ele e tece considerações tanto sobre os marcantes resultados eleitorais quanto sobre o futuro imediato do país.
Inicialmente, Souto agradece a Lula “pela dignidade de se manter na luta, com essa energia contagiante e que não se abala com nada”. Afirma que “sua vitalidade, sua determinação e sua trajetória precisam ser reverenciadas”, até porque, a seu ver, “constituíram o exemplo para que tantas pessoas, até há bem pouco tempo desligadas do processo político e não inteiradas dos problemas sociais do país, vislumbrassem a importância do momento e compreendessem de que lado da história deveriam ficar”.
Hoje, prossegue o docente da FD, “estamos comemorando a mais importante vitória política dos muitos anos da história desse país, como você costuma dizer, e que, inclusive, situa o Brasil como o país de maior referência de poder popular do mundo”. Uma “virada histórica [que] veio, por certo, como sempre, dos estados do Nordeste do país, mas é importante também registrar que o mapa da eleição registra viradas em mais de 200 cidades espalhadas por todo o país e um aumento expressivo de seus eleitores em todos os estados da Federação e, de quase o dobro, em diversos outros países”.
Souto aponta os principais protagonistas da virada: “a força da juventude e das periferias (de uma população majoritariamente negra, pobre, explorada e, em muitos aspectos, ainda excluída e esquecida)”, que produziu 10 milhões de votos a mais no segundo turno e 4 milhões de votos de distância para o candidato derrotado. “Uma vitória incontestável da rejeição ao atraso, mas, igualmente, da esperança de um país melhor”.
A pauta vencedora da eleição, “conforme explicitamente manifestado nas ruas e nas redes”, envolveria a preservação e ampliação dos serviços públicos, em geral, e especialmente da educação pública de qualidade; do Sistema Único de Saúde (SUS); da Previdência Social; e das políticas públicas de distribuição de renda (Bolsa Família e outras). Envolveria, ainda, o reconhecimento dos movimentos sociais; a rejeição ao imperialismo e ao neoliberalismo; o combate a todas as formas de violências racistas, misóginas, homofóbicas e transfóbicas.
Por fim, “e centralmente”, a pauta vencedora incluiria a melhoria das condições de trabalho, implicando a eliminação da escala 6×1, mas, também, a revogação da “reforma” trabalhista; o afastamento do “fantasma da ‘pejotização’”; a garantia da aplicação dos direitos trabalhistas, na integralidade, aos(às) trabalhadores(as) por aplicativos; e ainda a recomposição e reforço da organização sindical.
Embora admita as dificuldades existentes no Congresso Nacional para a implantação de tais medidas, Souto avalia que não são insuperáveis, e dá o tom da nova conjuntura histórica que se abre: “Mas já fique sabendo que das ruas e das redes não sairemos, para que tais pautas avancem efetivamente” (leia aqui a íntegra da carta).
“Mobilização desmontou projeto de regime ditatorial”, avalia Coggiola
“A acachapante derrota eleitoral de Bolsonaro foi, antes de mais nada, produto de uma impressionante mobilização popular, iniciada pela juventude, em especial o movimento estudantil”, comenta, a pedido do Informativo Adusp Online, o historiador Osvaldo Luis Angel Coggiola, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).
“Salvo exceções, o movimento sindical esteve praticamente ausente. A virada eleitoral de Lula, e o isolamento do bolsonarismo dentro da propria direita (que não encampou sua impugnação judicial do processo), foram consequências dessa mobilização”, avalia Coggiola.
“Que desmontou o projeto de criação de um regime ditatorial, com o judiciário e o legislativo reduzidos a marionetes de um executivo dominado por um clã de chefes milicianos, uma autêntica quadrilha”.
A seu ver, a mobilização popular foi o primeiro passo para uma luta mais ampla, “cujo horizonte aparece agora mais claro, em que a defesa e ampliação dos direitos sociais e da soberania nacional sejam a plataforma de uma derrota definitiva dos exploradores da nação”.
A decisão da Adusp, e do Andes, “de apoiar e se engajar na campanha eleitoral de Lula, derrotando Bolsonaro nas ruas e nas urnas”, prossegue o docente da FFLCH, “revelou-se inteiramente justa, pois não era possível manter uma posição de isenção em condições de uma encruzilhada nacional que afetava toda a população e todas as instituições do país, a Universidade pública incluída”.
A derrota da extrema-direita no país, por outro lado, “pode dar inicio à reversão do avanço reacionário na América Latina, em condições em que o mundo inteiro passa por uma situação de convulsão”.
Plataformas como a Meta atuaram em favor da extrema-direita
“As eleições de 2026 deixaram absolutamente nítido o papel nefasto que as plataformas digitais já têm cumprido em relação à democracia e em relação aos debates de várias pautas. As plataformas evidenciaram que não são neutras, muito pelo contrário. Elas estão atuando abertamente em favor da extrema-direita em âmbito global, algo que a gente já sabia, já vinha acontecendo pelo menos desde 2016, com a eleição de Donald Trump, mas que ficou ainda mais explicitado nessas eleições”, disse ao Informativo Adusp Online a professora Helena Martins do Rêgo Barreto, da Universidade Federal do Ceará (UFC).
“Mesmo os trabalhadores da Meta denunciaram que, pela primeira vez, manipulações, alterações no sistema de recomendação da empresa, foram tão absurdas que chegaram a ser sentidas pelos mais diversos usuários. Tivemos censura de jornalistas, censura de instituições públicas, censura inclusive do próprio presidente Lula, como no caso do impedimento de impulsionar publicações, e também com a redução de visualizações, de entrega de conteúdos associados ao campo progressista”, prossegue.
“Então é de fato um momento histórico para a gente perceber o papel dessas plataformas e obviamente para avançar no sentido de uma alteração desse cenário. Essa alteração já vinha sendo reivindicada há muito tempo pela sociedade civil, chegando a ser objeto de debate no próprio Congresso Nacional”, relembra a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFC.
“Temos diversos projetos de lei, parados no Congresso, que apontam para a regulação de plataformas em várias perspectivas, por exemplo o PL 2.630, que coloca liberdade, responsabilidade, transparência, que tinha como uma das medidas a garantia do devido processo, que é exatamente as pessoas terem o direito de saber o que está acontecendo nas suas contas, se tiveram contas retiradas do ar teriam mecanismos, canais previstos nesse projeto para demandar explicações, ou mesmo mudanças nas políticas de moderação de conteúdo das plataformas”.
Outro projeto importante é o 4.675, voltado para o combate a práticas anticoncorrenciais e que prevê a criação da Superintendência de Mercados Digitais no âmbito do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Sua finalidade é garantir políticas que impeçam a concentração econômica e de poder em torno das plataformas.
“Outro projeto é o 2.338, que estabelece regras para o desenvolvimento e uso ético da inteligência artificial (IA). “Um problema que a gente viu nesta eleição foram os sistemas de IA sendo utilizados para gerar conteúdos favoráveis ao candidato Flávio Bolsonaro e não podendo ser utilizados para fazer o mesmo em relação ao candidato Lula. Essas questões envolvendo a IA e o sistema de recomendação tinham sido objeto de portarias do TSE, havia proibição de recomendação de candidatos, de produção de materiais por meio de IA”, explica.
“No entanto, o que a gente viu foi não só um flagrante desrespeito a essas determinações do TSE como uma total ausência de esclarecimentos públicos, mesmo quando a situação escalou tanto que não só levou a diversos processos judiciais das campanhas, mas até mesmo as Nações Unidas emitiram um comunicado falando das preocupações com as interferências, particularmente, da Meta nas eleições brasileiras”, observa a docente.
“O que vejo agora é que temos uma sociedade bastante sensibilizada para essa pauta, que tem uma história, que já tem como ser respondida por projetos que já existem e por muitas outras ideias que a sociedade civil, o Comitê Gestor da Internet no Brasil e diversos órgãos e instituições já produziram. Nós sabemos o que fazer”, argumenta HelenaH .
“Historicamente essa pauta não foi enfrentada porque havia uma análise de que enfrentá-la traria à tona o argumento da censura, ou porque não haveria correlação de forças para aprovar algo nesse sentido no Congresso, ou mesmo para o governo fazer um decreto. O que a gente tem agora é uma alteração desse cenário. Uma sociedade mais mobilizada, mais consciente desse poder das plataformas, do seu papel nefasto”, sustenta ela.
“E o presidente Lula reconhecendo no seu discurso, logo após o resultado da eleição, a necessidade de avançar na regulação das plataformas. Isso precisa continuar na agenda do dia, precisa continuar tendo centralidade, não podemos perder mais uma vez a oportunidade não só de regular, mas de construir políticas para uma soberania digital real do Brasil”, propõe.
“Quer dizer: a gente não só precisa diminuir o poder das plataformas, ampliar o controle público sobre essas estruturas, mas também garantir alternativas, para que as pessoas, cidadãos e cidadãs brasileiras, possam ter outras plataformas: plataformas públicas, abertas, de software livre, que possam ser regidas a partir de um controle social, do próprio Estado, com órgão regulador com poder social. Essa é a agenda que temos de continuar defendendo, e que agora tem mais espaço para ser efetivada no Brasil”, conclui Helena.
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