Desigualdades raciais
Na Esalq, IV Encontro para a Consciência Negra discutiu racismo ambiental e concentração fundiária, além de implantar Bosque de Baobás no campus Luiz de Queiroz
O Coletivo Negro Baobás, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP), realizou, nos dias 15 e 17 de novembro, o IV Encontro para a Consciência Negra, dedicado à discussão sobre racismo ambiental e justiça socioecológica.
Momento forte da programação foi a implantação do Bosque de Baobás, no sábado 15 de novembro, nas proximidades do Museu Luiz de Queiroz. Foram realizados plantios de seis mudas da árvore de origem africana, com a participação de mais de 30 pessoas. Antes da atividade, o engenheiro florestal Paolo Sartorelli, da empresa Baobá Florestal, apresentou as características das mudas e de seus biomas de origem, além da importância cultural e simbólica da espécie.
A iniciativa foi organizada pelos estudantes do Coletivo após mais de um ano de trabalho para articulação de parcerias e obtenção da autorização da Prefeitura do campus para a criação do Bosque de Baobás. O gesto, ambientalmente importante, ganha relevância ainda maior em um campus da USP marcado por tradição conservadora e por práticas de trote que mobilizam referências racistas do período da escravização, o que aliás tem sido negligenciado pelas autoridades universitárias, como apontado em matéria do Informativo Adusp Online publicada em maio deste ano.
A programação teve sequência na segunda-feira, dia 17/11, quando foi realizada uma mesa de debate com participação das ativistas Raquel Gualberto e Michelle Graziela Cavalleri. A primeira, assessora da Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo, militante ecossocialista e integrante do Movimento Luta e do coletivo Subverta, discutiu a justiça socioecológica a partir das experiências cotidianas no ambiente universitário. Ressaltou o papel das instituições de ensino — especialmente aquelas situadas no campo das ciências ambientais e agrárias — na investigação crítica para enfrentamento da emergência climática. Insistiu ainda que a participação e a organização popular, especialmente da população negra e indígena, constituem o principal caminho de luta para a justiça social e climática.
Michelle Graziela Cavalleri, vice-presidente da OAB de Piracicaba e integrante do Black Sisters In Law, abordou o racismo estrutural no sistema jurídico brasileiro. A seu ver, a baixa porcentagem de juristas negros contribui para a reprodução de desigualdades e práticas discriminatórias, que ocorrem de forma velada em diversas decisões judiciais. Ela mencionou o histórico de concentração fundiária no país, lembrando que a Lei de Terras de 1850 restringiu o acesso a este meio de produção, tornando a terra uma mercadoria fictícia. Nesta medida, favoreceu latifundiários e impediu que a população negra recém-liberta tivesse condições de garantir o direito aos territórios. Para Michelle, os efeitos dessa legislação permanecem atuais e tornam a questão agrária central para qualquer debate sobre direito agrário e justiça socioecológica.
O debate contou com intensa participação do público, que fez perguntas e comentários. Entre as manifestações, pode-se destacar a crítica segundo a qual, apesar da adesão formal da USP à Lei de Cotas, a universidade ainda falha em garantir condições efetivas de permanência para estudantes negros e indígenas. Exemplo disso são as recorrentes crises do restaurante universitário da Esalq (Rucas), registradas em reportagens do Informativo Adusp Online.
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