Falta de infraestrutura e de políticas de apoio contribui para evasão de estudantes de graduação e pós que têm filhos(as), mostra relatório do MEC
Mais da metade dos(as) estudantes já precisou levar filhos(as) para a sala de aula (Foto: ALRR)

Levantamento realizado com 7.648 estudantes que têm filhos(as), matriculados(as) em instituições de ensino superior de todo o país, mostra que 47,5% já precisaram trancar a matrícula ou desistir de seus cursos. As principais causas para a evasão incluem a dificuldade para conciliar horários de aulas com os cuidados infantis, apontada por 81,6%. O desgaste emocional é citado por 68%, enquanto problemas financeiros são indicados por 61,7%.

A falta de políticas de apoio nas instituições é relatada por 55,4% dos participantes. O estudo aponta que 60% dos(as) declarantes não recebem auxílio financeiro institucional e que 66,2% das instituições públicas de educação superior não disponibilizam espaços de apoio. Mais da metade dos(as) estudantes (55,8%) afirma que já precisou levar os filhos para a universidade, mas 50,6% esbarram na falta de acesso à alimentação para as crianças nos restaurantes universitários.

Os dados fazem parte do Relatório do Grupo de Trabalho da Política Nacional de Permanência Materna nas Instituições de Ensino Superior Brasileiras, lançado pelo Ministério da Educação (MEC) no dia 2 de julho. O GT teve formação majoritária de representantes da sociedade civil, com participação de diversos coletivos de mães matriculadas em instituições de educação superior do país.

O grupo também contou com integrantes das secretarias de Educação Superior (Sesu) e de Educação Básica (SEB) do MEC, além da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e de entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes).

Parentalidade impacta diretamente a permanência no ensino superior

A pesquisa evidenciou que a responsabilidade de cuidado recai majoritariamente sobre as mulheres, que representam 86,52% dos(as) respondentes. A maior parte do público que respondeu à pesquisa estuda em instituições federais (78,2%). Desse total, 62,6% estão matriculados em cursos de graduação. O rendimento familiar de 24,1% dos participantes é de até cinco salários-mínimos, e 11,3% relatam ausência total de renda.

Na apresentação do relatório, o secretário de Educação Superior, Marcus David, defendeu que é preciso corrigir o quadro de evasão de estudantes motivada por falta de apoio institucional à maternidade. “O levantamento apresentado pelo GT faz um diagnóstico denso e aponta soluções construídas por quem vivencia esses desafios. Nosso papel, agora, é utilizar essa base para transformar as demandas em políticas de Estado, estruturando nossas universidades para garantir a permanência de estudantes com esses perfis. Isso deve ser abarcado no escopo da Política Nacional de Assistência Estudantil”, afirmou.

A coordenadora do movimento Parent in Science no Brasil, Fernanda Staniscuaski, disse ao Informativo Adusp Online que o ponto mais importante do relatório é que ele dá visibilidade nacional a uma realidade que, até pouco tempo atrás, era tratada como problema individual das estudantes.

“Os dados mostram que a parentalidade impacta diretamente a permanência no ensino superior. Entre estudantes de graduação com filhos, 54,4% já precisaram desistir ou trancar seus estudos em razão da parentalidade. Na pós-graduação, esse percentual é de 36,4%. Isso é muito expressivo e mostra que não estamos falando de casos isolados”, ressalta Fernanda, docente do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Pais e mães têm, em média, 33 anos na graduação e 38 na pós

De acordo com o relatório, “a média de idade das pessoas com filhos(as) na graduação foi de 33 anos, com predominância de estudantes na faixa etária entre 25 e 44 anos e uma representação significativa na faixa de 35 a 44 anos”.

Esse perfil, diz o texto, “contrasta significativamente com a composição geral do corpo discente no Brasil: de acordo com a 15ª edição do Mapa da Educação Superior, publicado pelo Instituto Semesp (2025), a maioria dos(as) estudantes matriculados em cursos de graduação em 2023 estava na faixa de até 24 anos de idade”.

“A diferença evidencia o impacto da parentalidade sobre o percurso educacional, revelando que pessoas com filhos(as) tendem a ingressar ou permanecer no ensino superior em idades mais avançadas, conciliando os estudos com as responsabilidades da parentalidade”, prossegue o relatório.

Na pós-graduação, o perfil também é diverso. Assim como na graduação, a amostra é composta majoritariamente por mulheres (85,4%), indicando uma participação significativa de mães na pós-graduação stricto e lato sensu.

Embora a diferença de gênero entre respondentes seja expressiva, “não se pode afirmar que essa proporção reflita a realidade nacional, devido à ausência de dados oficiais sobre parentalidade no ensino superior brasileiro”, ressalta o documento.

A média de idade das pessoas com filhos(as) na pós-graduação é de 38,1 anos. A maior concentração de respondentes está na faixa etária de 35 a 44 anos.

Universidades são marcadas por ausência de estruturas de apoio

De acordo com o relatório, “estudantes com filhos(as), em especial as mães, seguem enfrentando um percurso acadêmico marcado por desigualdades estruturais, invisibilização institucional e ausência de suporte consistente”.

“A quase ausência de estruturas e serviços voltados à presença de crianças no ambiente universitário revela o quanto a parentalidade segue sendo tratada como uma exceção, quando, na verdade, é uma realidade compartilhada por milhares de estudantes. A precariedade no acesso à alimentação dos filhos(as), a invisibilidade do direito a licenças, a negligência em relação às redes de apoio e a alta incidência de trancamentos e desistências não são episódios isolados: formam um padrão recorrente de exclusão silenciosa. Dessa forma, os desafios enfrentados por mães e pais estudantes não podem ser reduzidos a questões individuais, mas devem ser compreendidos como expressão de um sistema educacional que ainda não foi estruturado para acolher a diversidade de experiências que compõem o corpo discente”, aponta o relatório.

Na avaliação de Fernanda Staniscuaki, quando a universidade não reconhece a realidade da falta de estrutura institucional, “a permanência passa a depender quase exclusivamente da capacidade individual de cada estudante, o que aprofunda desigualdades de gênero, raça e renda”.

Orçamento é fundamental para compatibilizar direito à educação e maternidade

O GT propõe a criação de infraestrutura de apoio, como a instalação de cuidotecas/brinquedotecas; licenças e adaptações acadêmicas; políticas de acesso e auxílio financeiro; inclusão em processos seletivos e ajustes normativos, entre outros pontos.

“O relatório é importante porque não fica apenas no diagnóstico. Ele apresenta encaminhamentos concretos, construídos a partir de dados nacionais e da escuta dos fóruns regionais”, diz a coordenadora do Parent in Science.

“Na minha avaliação, o encaminhamento mais urgente agora é transformar essas recomendações em política pública efetiva, com regulamentação, orçamento (o mais fundamental) e acompanhamento”, afirma Fernanda Staniscuaski.

“O relatório já mostra o problema e aponta caminhos. O próximo passo é garantir que as instituições de ensino superior passem a reconhecer a parentalidade como parte real da comunidade acadêmica e não como exceção ou desvio da norma. Sem isso, muitas mães seguem tendo que escolher entre estudar e cuidar, quando o direito à educação deveria ser compatível com a maternidade”, conclui.

(Com informações da Sesu/MEC)

EXPRESSO ADUSP


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