Memória
Morre o historiador Carlos Guilherme Mota (1941-2026), “guerreiro pela universidade e por sua democratização”

Morreu nesta quarta-feira (20 de maio), aos 85 anos, o historiador Carlos Guilherme Mota, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Em nota publicada nesta quinta-feira (21), o Instituto de Estudos Avançados (IEA), do qual o professor foi um dos idealizadores e primeiro diretor (1986-1988), diz que Mota “destacou-se como um dos mais importantes intérpretes da formação histórica, política e cultural do Brasil, deixando contribuição fundamental para as ciências humanas no país”.
Mota graduou-se em História pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da universidade, em 1963. Também na USP obteve os títulos de mestre (1967) e doutor (1970). Tornou-se livre-docente com a tese “Ideologia da cultura brasileira (1933-1974)”, mais tarde publicada em livro. Em 1997, concluiu pós-doutorado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.
Além da FFLCH, foi professor do Instituto de Filosofia e Ciências (IFCH) da Unicamp, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Getúlio Vargas. Atuou ainda como professor visitante na Espanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Mota também dirigiu o Arquivo do Estado de São Paulo, esteve entre os fundadores do Memorial da América Latina e dirigiu a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP.
Ele foi autor, coautor ou organizador de mais de trinta livros, entre eles Ideia de Revolução no Brasil (1979), Viagem Incompleta – A Experiência Brasileira (2000) e História do Brasil – Uma Interpretação (2008), ao lado de Adriana Lopez, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas. Em 2011, a Academia Brasileira de Letras concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra.
Ao receber o título de Professor Emérito da FFLCH, em 2009, o historiador fez várias críticas ao contexto vivido pela USP na ocasião. Poucos dias antes da cerimônia, a Tropa de Choque da Polícia Militar havia invadido o câmpus para retirar estudantes que ocupavam a Reitoria, então sediada nos blocos K e L da Administração Central, a pedido da reitora Suely Vilela, durante o governo de José Serra (PSDB).
“Neste momento difícil para a universidade, o recurso à força policial somente se deve à incompetência das autoridades universitárias atuais e à falta de capacidade de negociação, capacidade que deveria embasar a gestão de uma instituição já veneranda. A nossa USP não pode ser confundida com quartel, nem partido, nem sindicato, nem hospital de dementados (com todo o respeito humano aos efetivos dementados)”, disse.
Ao falar sobre a sua formação, citou muitos nomes importantes da universidade no período e também descreveu situações decorrentes das perseguições da Ditadura Militar.
“Pois bem: foi nesse caldo cultural que brotou e se desenvolveu aqui um pensamento próprio, abrangendo todos os quadrantes, obtido e aprimorado por novas metodologias e técnicas de pesquisa, e balizado por teóricos nacionais e internacionais reconhecidos mundialmente. Por volta de 1964, nossa Faculdade de Filosofia já estava consolidada e começava a incomodar o establishment com seus formandos iracundos, reformistas. O golpe civil-militar viria sofrear nosso desenvolvimento e o golpe dentro do golpe de [19]68 tentaria abalar ainda mais os alicerces de nossa Escola”, lembrou.
Mota mencionou as cassações e a dispersão de docentes para outras instituições, ressaltando que o “espírito” da escola “migrou e deu frutos, que também se multiplicaram, nas faculdades do interior do estado e alhures, Unicamp incluída”. “Muitas escolas públicas da rede escolar” e “alguns colégios particulares de alto nível”, acrescentou, igualmente “se beneficiaram com a formação que muitos de seus diretores e professores tiveram nesse clima científico-cultural”.
O professor foi um dos entrevistados para a produção do vídeo Ecos de 1950 – 50 Anos Depois, produzido pelo Canal USP, no qual aborda o tema.
Professor defendeu eleições diretas para todos os órgãos da universidade
“Carlos Guilherme Mota não foi apenas um dos intelectuais mais importantes que a USP criou”, ressalta o professor Francisco Alambert, do Departamento de História da FFLCH. “A par de seus muitos e influentes livros, ele foi um guerreiro pela universidade e por sua democratização. Quando chefe do departamento, instituiu a plenária, na qual o conjunto de professores, com representação de alunos e funcionários, decidia as questões de interesse da universidade”, disse ao Informativo Adusp Online.
Alambert foi o autor da saudação a Mota quando da concessão do título de Professor Emérito, em 2009. Na ocasião, lembrou que Mota havia sido “anticandidato” a reitor em 1985 e que “apoiou desde sempre as eleições diretas para todos os órgãos da universidade”.
“Um homem que os funcionários mais antigos do Departamento que ele chefiou lembram com respeito e admiração. Um homem que foi eleito para ser diretor da Faculdade de Filosofia, mas que também não foi aceito pelo mesmo sistema que ainda hoje vigora. Em vez disso, logo em seguida, ele transformou essa derrota gloriosa em vitória universitária: nos deu, congregando outros mestres, pesquisadores e escritores, nada menos que um Instituto de Estudos Avançados” assinalou.
Também docente do departamento, o professor Lincoln Secco declarou ao Informativo Adusp Online que Ideia de Revolução no Brasil é “uma obra inovadora, na qual Mota procurou as ‘tomadas de consciência’ da transição do Brasil de colônia a nação no final do século XVIII e início do século XIX”.
“Na sua pesquisa, ele construiu uma classificação histórica em que emergiram formas revolucionárias de consciência, mas também as formas ajustadas ao sistema e as intermediárias. Foi um historiador que marcou o Departamento de História da USP e a historiografia brasileira”, considera.
“O legado de Carlos Guilherme Mota permanece profundamente ligado à história do IEA e ao pensamento crítico brasileiro. Sua atuação ajudou a consolidar o instituto como um espaço de reflexão plural, interdisciplinar e comprometido com os grandes desafios da sociedade contemporânea”, disse a diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes, em declarações registradas pelo site do instituto.
O velório do professor Carlos Guilherme Mota foi realizado nesta quinta-feira (21). Mota deixa as filhas Tereza, Carolina e Júlia.
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