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USP precisa fazer “perguntas que podem doer” em relação a suas políticas de armazenamento, segurança de dados e proteção dos sistemas, diz superintendente da STI
A Superintendência de Tecnologia da Informação (STI) da USP vai constituir um Grupo de Trabalho (GT) com especialistas para discutir questões como o investimento em equipamentos e ferramentas para Inteligência Artificial (IA) e o melhor modelo para High Performance Computing (HPC) na universidade.
As discussões deverão subsidiar as decisões estratégicas para o futuro da área na USP, de acordo com a exposição feita pela superintendente da STI, Fátima de Lourdes dos Santos Nunes Marques, na sessão do Conselho Universitário (Co) do dia 25 de agosto.
“Muitos pesquisadores estão recebendo clusters de IA, clusters de HPC. Só que nós recebemos um ativo, mas qual é o custo de manutenção dessas máquinas? Custo de armazenamento? Precisamos discutir isso”, disse a professora. “O que nós fazemos com isso [modelo de HPC]? A USP provê tudo, ou nós descentralizamos e cada unidade cuida do seu? Não sabemos.”
A resposta em relação a temas como as ferramentas de IA “talvez seja a que todo mundo queira, inclusive eu”, disse. “Adoraria ter essa resposta pronta hoje”, prosseguiu Fátima, ressaltando a importância do papel do GT.
A superintendente apresentou ao Co uma série de perguntas relacionadas ao que chamou de “visão de futuro: questões estratégicas” (veja quadro), a serem tratadas como prioritárias na gestão. A primeira se relaciona às estratégias de armazenamento de dados, tema crucial, na avaliação da professora.
“Nós precisamos ter uma política de armazenamento sustentável”, disse Fátima. Na atualidade, a USP tem dois contratos de armazenamento com o Google. “Mas o crescimento de armazenamento que temos está nos levando a um crescimento que pode não ser sustentável em médio prazo, só com o orçamento da universidade. Precisamos pensar nisso e ter uma política sobre isso.”
Vale lembrar que, em 2024, a big tech Google decidiu “descontinuar o armazenamento (Drive) ilimitado do Google Workspaces for Education para as universidades em âmbito mundial”.
Na ocasião, a STI comunicou aos e às docentes que o limite de armazenamento das contas associadas ao e-mail da USP seria de 100 GB, “abrangendo arquivos do Google Drive, Gmail e fotos”.
“Aquelas contas que ultrapassarem este limite estarão impedidas de criar e atualizar arquivos, embora continuem a receber e-mails”, prosseguia a STI em seu comunicado. “Adicionalmente, nesta mesma data [18/6/2024], o serviço de Drives Compartilhados será descontinuado e todos os arquivos neles contidos serão migrados para um novo serviço de armazenamento em nuvem denominado Google Cloud Platform, conforme contrato firmado entre a USP e a Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp), por intermédio da Superintendência de Tecnologia da Informação”.
A megaempresa norte-americana tem ampliado a sua presença na Cidade Universitária com iniciativas como a criação da “Cátedra Google-USP em IA Responsável” no Instituto de Estudos Avançados e a inauguração de uma unidade especial no câmpus do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
“Não podemos colocar uma universidade do tamanho da USP em risco”
Em relação ao modelo de segurança de dados, Fátima Nunes fez uma referência indireta aos ataques cibernéticos sofridos pela USP em março do ano passado, quando os sistemas corporativos da universidade tiveram os seus serviços interrompidos ou funcionando precariamente e foram registrados vários outros problemas, como queda de páginas de unidades.
Na época, o então superintendente da STI, João Eduardo Ferreira, sem fazer menção aos ataques, chegou a dizer em sessão do Co que a “instabilidade” se devia à troca da “estrutura de proteção de firewall de toda a universidade”.
O hacker apontado como responsável pela invasão dos sistemas da USP e de outras instituições públicas teria sido preso em junho do ano passado.
“Nós sabemos o que aconteceu no nosso passado recente, e precisamos trabalhar em tecnologias, processos e pessoas para proteger nossos dados e evitar a interrupção dos nossos serviços. Isso envolve, principalmente, fazermos algumas perguntas que podem doer”, afirmou a professora Fátima.
“Perguntas como: nós devemos deixar qualquer pessoa instalar softwares nos nossos computadores institucionais? Alguns acham que sim, outros acham que não. Precisamos passar por essas discussões, porque isso nos deixa expostos” continuou. “Como é a contratação de software particular? Várias unidades contratam software particular, mas nós tivemos relatos, por exemplo, de IPs da USP cedidos a instituições particulares. Será que nós devemos permitir esse tipo de ação? E por aí vai, são muitas questões de segurança.”
De acordo com Fátima, “a preocupação número um das universidades estrangeiras no topo do mundo é segurança, e não IA, e principalmente segurança da IA”. “Nós não sabemos até que ponto os modelos de IA fornecidos hoje são seguros. E estamos o tempo todo sendo interpelados por esses modelos e utilizando esses modelos”, comentou.
Fátima considera que os sistemas corporativos são bastante integrados na USP, embora ainda seja necessário “avançar muito” nesse campo. É preciso melhorar, por exemplo, a interface dos sistemas nos dispositivos móveis, reconheceu, dizendo ainda que não se trata de uma tarefa fácil.
Na avaliação da superintendente, todos esses temas estão relacionados à segurança dos(as) usuários(as). “O que não podemos fazer é colocar uma universidade do tamanho da USP, com 110 mil usuários regulares, estou falando dos regulares, e não só dos externos e temporários, em risco. Não podemos ter esse risco”, afirmou.
Política para criação de centro de dados próprio já foi traçada
Além das chamadas questões estratégicas, Fátima Nunes apresentou ao Co os principais projetos encaminhados pela STI nos primeiros meses da gestão. Um deles é a criação de um centro de dados (data center) próprio da USP. “Esse é um assunto bastante crítico para nós, não podemos brincar com esse assunto”, ressaltou. A professora disse que já há uma política traçada sobre o tema pela STI e corroborada pela Reitoria e pela Procuradoria-Geral (PG) da USP, mas não deu detalhes.
Quanto ao investimento no backbone para os campi do interior, a superintendente comunicou que um outro GT deve apresentar nos próximos meses uma proposta de nuvem para a USP.
“Vamos para uma nuvem particular? É um alto investimento. Vamos para uma nuvem pública? Qual é a segurança disso? Talvez devamos ir para uma nuvem híbrida. Nossos dados numa rede privada, por exemplo, e os dados que não são sensíveis, na pública. Não sabemos, estamos esperando a resposta desse GT”, disse.
Fátima mencionou também que até o final do ano deve submeter ao Co um Plano Diretor de Segurança com foco em governança e segurança da informação.
Outra iniciativa apresentada é a elaboração de uma política de acesso a dados, em colaboração com o Escritório de Proteção de Dados e Informações (EPDI), ligado ao Gabinete do Reitor.
“Nós não temos uma política hoje. Quem pode ter dados providos pela STI? Nós somos simplesmente o guardião dos dados. Os dados não são nossos, os dados são de quem os produz. Então, o dado do aluno é do aluno. Mas quem é que pode ter acesso aos nomes dos alunos? Podemos ter acesso aos dados agrupados? Precisamos de uma política. Não pode depender de quem pede”, considera.
A STI também quer intensificar a utilização de compras centralizadas (para pacotes de antivírus, por exemplo), que permitem preços mais vantajosos.
Fátima Nunes citou ainda a importância da internacionalização, “não aqui no sentido de pesquisa, mas no sentido de captar o que as TIs das grandes universidades líderes do mundo estão fazendo, para que possamos avançar”.
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