Conjuntura Internacional
Após protesto público do professor Paulo Sérgio Pinheiro, USP recua e cancela feira internacional que teria a participação de Israel
Por determinação da Reitoria, a Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani) decidiu cancelar a realização da “Feira Cultural Internacional 2025”, evento que promoveria no próximo dia 23 de abril, no Centro Intercultural Internacional (CII). Foi despublicada matéria do Jornal da USP, publicação online oficial da Reitoria, que trazia informações a respeito da feira. “Informamos que a decisão foi tomada a pedido da Reitoria, considerando o atual contexto internacional”, declarou a Aucani quando consultada a respeito pelo Informativo Adusp Online.
O cancelamento ocorreu depois que o professor sênior Paulo Sérgio Pinheiro (FFLCH-USP), diplomata atuante na Organização das Nações Unidas (ONU), ex-ministro de Direitos Humanos (no governo de Fernando Henrique Cardoso) e integrante, posteriormente, da Comissão Nacional da Verdade (CNV), fez circular um texto de sua autoria com fortes críticas à anunciada participação, na feira, do Consulado Geral de Israel. O texto repercutiu intensamente e foi reproduzido também pelo Informativo Adusp Online.
Nele, Pinheiro acusa o governo israelense de “perpetrar um genocídio em Gaza”, e lembra que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teve sua prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional por “crimes contra a humanidade e crimes de guerra”. Assim, apelou à Aucani “que não permita a participação do consulado do Estado de Israel, cujas ações são frontalmente contrárias aos valores da comunidade acadêmica da USP”. O professor afirmou ainda que o Consulado Geral de Israel procurava “pateticamente” maquiar as atrocidades cometidas contra os palestinos ao oferecer, na feira, atividades como “Shalom & Sugar! Aprenda Hebraico e ganhe um doce!”.
Neste domingo, 6 de abril, Pinheiro comemorou em seu perfil no Facebook o recuo da USP, em texto intitulado, com ironia, “Não haverá mais distribuição de doces”. Graças ao cancelamento da feira, “o Consulado do Estado de Israel, que continua a promover o genocídio em Gaza, não poderá servir-se desse espaço na cidade universitária”, e “não poderá demonstrar na USP sua expertise em confeitaria de doces como anunciava”, observa, cáustico, o docente sênior da FFLCH. “Faz um mês que a população de Gaza não recebe nenhuma ajuda humanitária por causa de um bloqueio promovido por Israel, se valendo da fome como arma, para o genocídio. Além disso os bombardeios sobre Gaza foram retomados, provocando centenas de mortes de crianças e provocando o deslocamento forçado, crime de guerra, de 100 mil palestinos nas última semanas”.
Por intermédio da Aucani, a USP mantém atualmente quatro instrumentos de intercâmbio com Israel, que são objeto de condenação por parte dos movimentos sociais que defendem a Palestina. Além de um convênio acadêmico com o Consulado Geral israelense, que tem como propósito o “Israel Corner” montado no CII, há um acordo de cooperação e um convênio acadêmico com a Universidade Ariel, e outro convênio acadêmico com a Universidade de Haifa. Todos devem encerrar-se em 2026.
“Lamentamos informar que, por motivos alheios à nossa vontade, a Feira Internacional 2025 está cancelada. Agradecemos a todos que se inscreveram nas atividades e, em especial, aos consulados que confirmaram participação”, diz a agência em comunicado disponível no seu site. “Esperamos poder reprogramar a feira em um futuro próximo. Reforçamos que, independentemente desse cancelamento, o Centro seguirá com suas atividades culturais regulares”.
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