Universidade
Reitor cria “Comitê Gestor” de investimentos financeiros da universidade e um GT para “analisar declaração de rendimentos de servidores”, mas não explica motivação
Nesta terça-feira, 16 de junho, o Diário Oficial do Estado publicou duas portarias do reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado, de números 789 e 790/2026, que causaram surpresa e questionamentos no corpo docente.
A primeira delas cria um colegiado, designado “Comitê Gestor da Política de Investimentos Financeiros da Universidade de São Paulo”, incumbido de “avaliar e definir as estratégias de investimento dos recursos financeiros da Universidade — em especial, no que se refere à composição da carteira, grau de exposição ao risco, prazos e rentabilidade em comparação ao mercado —, bem como de definir as instituições financeiras responsáveis pela gestão dos recursos financeiros da Universidade”.
Além disso, a portaria 789/2026 nomeia as pessoas que integram o Comitê Gestor: o próprio reitor, a vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci, a presidente da Coordenadoria de Administração Geral (Codage), Adriana Marotti de Mello, e outros dois integrantes da Codage: o diretor geral do Departamento de Finanças, Cleber de Souza Silva, e o assessor econômico Alberto Teixeira Protti.
O Informativo Adusp Online indagou à Reitoria qual a necessidade de um comitê gestor de investimentos financeiros, uma vez que a universidade dispõe das equipes técnicas da Codage e da Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP) que, em tese, são qualificadas para conduzir as providências correspondentes. (E, como se vê acima, os integrantes do Comitê Gestor pertencem, na sua maioria, à Codage.) Até o fechamento desta matéria não houve, contudo, resposta da Reitoria.
Tudo indica que o reitor foi aconselhado a acompanhar mais de perto as “estratégias de investimento” dos recursos financeiros da USP num momento histórico em que, graças ao arrocho salarial, a universidade tem acumulado reservas financeiras na casa de bilhões de reais.
Os números registrados nos últimos três anos bateram recordes sucessivos. A universidade chegou ao final de 2023 com saldo de R$ 6,68 bilhões; de 2024, com R$ 7,889 bilhões em caixa; e de 2025 com espantosos R$ 8,666 bilhões em caixa. Essa dinheirama, uma vez aplicada no mercado financeiro, rende à USP centenas de milhões de reais.
São essas generosas verbas extraorçamentárias, que compõem parte das chamadas “receitas próprias” da universidade, que permitem aos reitores, eventualmente, aplicar recursos de maneira nada ortodoxa. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando Carlos Gilberto Carlotti Jr. decidiu comprar do governo estadual um terreno em Ribeirão Preto, por R$ 281 milhões, apenas para cedê-lo em seguida ao próprio governo estadual.
É o que ocorrerá também com a GACE e a GAACED, as gratificações criadas por Segurado: quando começarem a ser pagas, serão financiadas pelas “receitas próprias”, que incluem o retorno das aplicações financeiras.
Portaria 790/2026 cita “obrigação de depósito das declarações de rendimentos dos servidores”
A Portaria 790/2026, por sua vez, institui um Grupo de Trabalho, designado “GT Declaração de Renda”, que deverá “analisar e regulamentar a apresentação de declaração de rendimentos e proventos de qualquer natureza pelos servidores docentes e técnico-administrativos da Universidade de São Paulo” e terá a atribuição, ainda, de “operacionalizar os aspectos normativos, informáticos e de proteção de dados visando ao atendimento da obrigação de depósito das declarações de rendimentos dos servidores da USP”.
Integram o novo GT Edmilson Dias de Freitas, Chefe de Gabinete do Reitor, que será seu coordenador; Otavio Luiz Rodrigues Junior, superintendente jurídico da USP; Edgard Bruno Cornacchione Junior, controlador-geral; Fátima de Lourdes dos Santos Nunes Marques, superintendente de Tecnologia da Informação; Solange Oliveira Rezende, cordenadora do Escritório de Proteção de Dados e Informações da USP.
É provável que a criação do GT seja uma resposta da Reitoria à ocorrência de discrepâncias entre as declarações de rendimentos de docentes fornecidas pela Reitoria em 2026, referentes ao ano-base de 2025, e os dados correspondentes disponíveis nos arquivos da Receita Federal.
Na tarde desta sexta-feira, depois que a versão original desta matéria foi publicada, a Reitoria encaminhou ao corpo funcional da USP, por e-mail, um comunicado sobre a Portaria 790/2026 e o GT Declaração de Renda. O comunicado faz referência à “Declaração de Bens obrigatória, via sistema SPPatri, prevista no Decreto Estadual 70.091/2025” e informa que “neste momento, não há necessidade de qualquer ação por parte dos servidores técnico-administrativos e docentes”.
“Assim que as diretrizes e procedimentos forem estabelecidos pelo Grupo de Trabalho, comunicaremos as orientações e prazos através dos canais oficiais da Universidade”, conclui a Reitoria.
Nota da Redação. O texto foi atualizado para inclusão de comunicado posterior da Reitoria sobre a Portaria 790/2026.
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