Universidade
Remuneração de pessoal foi menor que em 2024, e USP chegou ao final de 2025 com “incríveis” R$ 8,699 bilhões em caixa
As “Demonstrações Contábeis do Exercício de 2025” da USP, publicadas no Diário Oficial do Estado do último dia 31 de março, confirmam a notável saúde financeira da universidade. Os números mostram que a USP chegou ao final de 2025 com impressionantes, “inacreditáveis” reservas no valor de R$ 8,699 bilhões — um aumento de 10,27% em relação ao saldo de 2024, que foi de R$ 7,889 bilhões.
Para efeito de comparação, a inflação oficial do país, medida pelo IPCA-IBGE, ficou em 4,26% em 2025. De um ano para outro, a universidade acumulou mais R$ 810,5 milhões no caixa.
Parte desse montante vem da “economia” dos recursos recebidos do estado. Em 2025, o Tesouro repassou R$ 8,714 bilhões à universidade, sendo R$ 8,711 bilhões referentes ao percentual de 5,0295% da cota-parte do ICMS e R$ 2,421 milhões oriundos de emendas parlamentares.
As notas anexadas às demonstrações explicam que “as despesas empenhadas totalizaram o valor de R$ 8.207.990.961,45, gerando uma economia orçamentária de 10,59% em relação à dotação atualizada”. Isso significa que mais de meio bilhão dos recursos destinados pelo estado entrou para a reserva de caixa.
O orçamento realizado pela USP no ano passado alcançou R$ 9,179 bilhões, dos quais quase R$ 1 bilhão têm origem em receitas próprias — prestação de serviços, aluguéis, reembolsos etc.
O aumento das receitas, do superávit anual e da reserva acumulada não se refletiu na alínea “remuneração de pessoal”, conforme explicitam as demonstrações. Em 2024, essa alínea alcançou R$ 4,114 bilhões, mas em 2025 o valor caiu para R$ 3,979 bilhões — queda de 3,3%. Somando-se os encargos, os valores são de R$ 5,179 bilhões em 2024 e de R$ 5,157 bilhões no ano passado. Ou seja: como vêm denunciando a Adusp e as demais entidades do Fórum das Seis, as universidades estaduais paulistas têm feito caixa às custas do arrocho salarial.
Os draconianos “Parâmetros de Sustentabilidade Econômico-Financeira” que a gestão M.A. Zago-V. Agopyan fez aprovar em 2017 estipulam que as reservas da universidade devem ser de no mínimo 3 folhas de pagamento mensais. Ocorre que o montante de R$ 8,699 bilhões alcançado no final de 2025 supera 24 folhas de pagamento mensais — ou seja: equivale a mais de duas folhas de pagamento anuais.
A despeito da robustez dos seus números, porém, a Reitoria da USP segue sustentando em seu discurso oficial que não é possível destinar mais dinheiro para a permanência estudantil, nem avançar (ao lado de suas congêneres Unesp e Unicamp) na recuperação das perdas salariais das categorias docente e de funcionários(as) referente à data-base de 2026.
Assim, a inegável saúde financeira da USP parece não ser condição suficiente para que a universidade amplie os investimentos em permanência estudantil, especialmente no reajuste do valor da bolsa do Programa de Auxílio à Permanência e Formação Estudantil (Papfe), principal demanda da greve discente, que já chega a um mês de duração.
Conforme demonstrou o Informativo Adusp Online, o aumento necessário para igualar o valor da bolsa ao salário-mínimo paulista, pleito dos(as) estudantes, seria de R$ 165 milhões, o equivalente a somente 1,9% do orçamento da USP para 2026.
Quanto à definição do índice a ser aplicado no reajuste anual das categorias, obviamente ele precisa levar em conta a situação financeira das três universidades públicas estaduais e não apenas a da USP. Mas a Unicamp parece ter as contas igualmente em bom estado, com saldo em caixa de R$ 1,8 bilhão em dezembro de 2025 (dos quais R$ 1,5 bilhão “em espécie para o exercício seguinte”), em números redondos. Mesmo a Unesp, em situação financeira geralmente mais delicada, chegou ao final do ano com mais de R$ 900 milhões em caixa.
Na atual negociação, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) ofereceu apenas 3,47% de reajuste salarial às categorias, com base no IPC-Fipe, índice que é calculado por uma fundação privada e que está abaixo da inflação dos últimos doze meses medida pelo IPCA-IBGE, de 4,39%. O Fórum das Seis reivindica um índice total de reajuste de 15,97% para recuperar as perdas salariais acumuladas desde maio de 2012.
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