Por unanimidade, Conselho Universitário aprova concessão do título de “doutor honoris causa” para Vladimir Herzog; “excelência na pesquisa e no ensino só faz sentido em liberdade”, adverte diretora da ECA
Vladimir Herzog com o amigo Fernando Pacheco Jordão, quando trabalhavam na BBC de Londres (foto: acervo do Instituto Vladimir Herzog)

Por decisão unânime, com o voto favorável de 107 integrantes, o Conselho Universitário da USP (Co) aprovou na sua primeira reunião de 2026, em 24 de fevereiro último, proposta da Escola de Comunicações e Artes (ECA) de concessão in memoriam do título de doutor honoris causa ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 no DOI-CODI de São Paulo, principal centro de torturas mantido pelo Exército durante a Ditadura Militar (1964-1985). Quando morreu, Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura e professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Seus assassinos permanecem impunes.

A proposta de concessão do título partiu do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA e foi referendada pela Congregação da unidade, por unanimidade e por aclamação, no dia 25 de junho de 2025.

Na reunião do Co, o parecer da Comissão de Legislação e Recursos (CLR), favorável à proposta da ECA, foi lido pelo decano desse colegiado, professor Fernando Martini Catalano, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) — a nova composição da CLR foi eleita na própria reunião, momentos antes, e portanto ainda não tem presidente.

“A proposta fundamenta-se na trajetória de Herzog como jornalista, comunicador e professor voluntário [sic] da ECA, destacando seu compromisso com a comunicação pública, a liberdade de expressão e os direitos humanos. O documento da ECA relembra sua formação na própria universidade: bacharel em filosofia pela FFLCH, sua carreira internacional, e a circunstância de seu assassinato em 1975 nas dependências do DOI-CODI durante a Ditadura. Ressalta ainda a posterior luta pela retificação de seu atestado de óbito e pela reparação histórica”, disse Catalano.

“A proposta está em conformidade com o artigo 92 do Estatuto da USP, que autoriza a honraria a personalidades de relevante contribuição à Humanidade, sendo portanto cumpridos todos os requisitos formais de mérito. Além disso, a iniciativa recebeu o apoio de diversas unidades da USP e entidades da sociedade civil. Diante disso, o relator da CLR recomenda a aprovação final do título, reafirmando o compromisso da universidade com a democracia, a verdade e a liberdade de imprensa”, completou o docente.

Cecília Bastos/USP ImagensCecília Bastos/USP Imagens
Professora Maria Clotilde, diretora da ECA, pronuncia-se na reunião de 24/2 do Conselho Universitário

Após a manifestação da CLR, subiu à tribuna a diretora da ECA, Maria Clotilde Perez Rodrigues. A história de Herzog “se confunde com a história da luta pela liberdade no Brasil”, assinalou a professora, pedindo ao reitor e demais integrantes do Co que apoiassem a proposta da sua unidade. O título de doutor honoris causa (doutor “por causa da honra”) vem a ser “a mais alta distinção acadêmica concedida a personalidades eminentes, que se destacaram no progresso das ciências, das artes, da cultura ou por serviços excepcionais prestados à sociedade e ao seu país”, destacou.

“Qual o sentido de se propor essa honraria a Vladimir Herzog? Ao se falar de Vladimir Herzog, estamos falando de um homem, de um profissional, de um professor, mas não apenas isso. Ao se falar de Vladimir Herzog, somos levados a ultrapassar a idiossincrasia inerente à história pessoal de um indivíduo, para transbordarmos a uma história universal, ou seja: uma história pessoal que provoca uma curva epistemológica, e com isso muda o fluxo dos fenômenos”.

A trajetória de Herzog “se assemelha à trajetória de muitos de nós”, disse Clotilde, fazendo referência ao nascimento do jornalista em Osijek, na então Iugoslávia (hoje essa cidade pertence à Croácia), em 27 de junho de 1937, e à vinda de sua família para o Brasil, em 1946, bem como aos seus estudos na FFLCH; à sua participação em grupos de teatro amador; ao encontro com Clarice Ribeiro Chaves, com quem veio a se casar e teve filhos; e ao início de sua carreira como repórter do jornal Estadão, em 1959. A diretora da ECA também mencionou seu envolvimento com o cinema.

Como repórter, ele “cobriu a inauguração de Brasília, a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil e a posse de Jânio Quadros”, e em 1962 foi à Argentina cobrir o Festival de Mar del Plata. Passou depois pela TV Excelsior, Rádio BBC de Londres, revista Visão, TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na TV Cultura, assumiu a direção de jornalismo da emissora em 1975, depois de uma passagem anterior em 1973.

Como desdobramento de sua atuação como jornalista, Herzog tornou-se professor da ECA. “Vlado aceitou o convite para lecionar a disciplina de Jornalismo Televisivo em um momento de grande instabilidade institucional. A ECA, criada apenas nove anos antes, enfrentava o peso da repressão e de suas perseguições políticas”, disse a professora, passando a citar trechos de depoimento do então professor Sinval Medina.

“Atmosfera repressiva dominava a universidade”

“O país vivia uma das fases mais violentas da Ditadura Militar, e a atmosfera repressiva dominava a universidade. Porém, na ECA, e particularmente no Departamento de Jornalismo e Editoração, respirávamos um clima de liberdade que beirava a ousadia. Essa ousadia, como sabemos, teve consequências severas. A virada se deu com a chegada, em 1972, do diretor Manuel Nunes Dias, nome de infausta memória, que impôs um regime de controle rígido na ECA”, contou Medina. “Proibiu palestras, retirou cartazes estudantis, impediu a formação da Congregação. Professores como José Marques de Melo, Thomas Farkas, José Freitas Nobre e Jair Borin foram afastados. Este último chegou a ser preso dentro da própria ECA, em 1974”.

Em março de 1975, continuou Clotilde, “Sinval Medina foi reprovado em exame de qualificação de mestrado por uma banca arbitrária, e viu-se forçado a deixar o departamento”. Solidários ao colega, os professores Valter Sampaio, Paulo Roberto Leandro e Cremilda Medina pediram demissão, relatou a diretora. “Evidentemente a repressão também atingia os estudantes, as atividades culturais e artísticas, tão características da ECA. Mais do que nunca, se tornaram uma forma de resistência. Enquanto reuniões de discussão política eram duramente reprimidas, apresentações artísticas chegavam a reunir centenas de pessoas. A ECA se tornou o centro da resistência intelectual e política da USP”.

Foi neste contexto, explicou a professora, que Vladimir Herzog chegou à ECA, convidado a ministrar aulas para uma turma de 30 estudantes de jornalismo, muitos deles iniciando contato com a televisão. “Vlado encontrou um departamento mutilado pelo regime, como bem descreveu o jornalista Luís Prado em reportagem recente do Jornal da USP. Ainda assim, se dedicou com entusiasmo a estimular a curiosidade e o senso crítico dos seus estudantes, pois antes de mais nada acreditava na força transformadora da palavra, da responsabilidade social da imprensa e do papel libertador da educação”.

Assim era a vida de Herzog, prosseguiu Clotilde. “Uma vida como a nossa, ou talvez não. Como em um roteiro de filme, a vida tranquila de uma pessoa adulta, criativa e preocupada com o jornalismo, a educação e a arte teve um elemento precipitador de situação. Em 24 de outubro de 1975, em plena Ditadura, militares procuraram Vladimir Herzog na TV Cultura. Vlado garantiu que estaria disponível na manhã do dia 25 para o interrogatório. Vlado compareceu espontaneamente e sozinho à sede do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna, DOI-CODI de São Paulo, na Vila Mariana, para depor. Nunca mais voltou. Ali foi assassinado. Além da tortura e da violência mortífera, os militares forjaram uma falsa versão de suicídio, nova violência sofrida, impetrada de forma mais vil e pusilânime pelo Estado brasileiro”. Versão que não se sustentou, já de imediato, acrescentou ela.

“Montaram um teatro de suicídio”, disse um aluno à Comissão da Verdade

“No dia seguinte, a notícia espalhou-se pela ECA, provocando consternação e indignação. ‘Lembro que chegamos na segunda-feira na escola’, relatou Robson Correia de Camargo à Comissão da Verdade da Universidade de São Paulo. ‘Juntamos todos, muito tristes e revoltados, e fomos de escola em escola, denunciando o acontecido. Um professor nosso foi chamado para uma oitiva, e montaram um teatro de suicídio. Começou ali uma grande mobilização’. No dia 31 de outubro de 1975, uma multidão de mais de 8 mil pessoas se dirigiu à Catedral da Sé. O que se viu ali foi um marco na luta pela democracia e o início da luta pela derrubada do regime ditatorial, [que foi] uma vergonha na nossa história”.

O ato ecumênico celebrado por dom Paulo Evaristo Arns, reverendo Jaime Wright e rabino Henry Sobel desafiou a versão oficial de suicídio, tornando-se o primeiro grande protesto contra o regime depois de 1968. “Qualquer um de nós poderia ter sido Vlado. Mas é aí que uma idiossincrasia se torna uma história não mais individual, mas universal. Neste momento Vlado já não era mais um de nós. Ele se tornou um elemento de transformação, social, cultural e política”, ponderou Clotilde.

“O seu assassinato se tornou o início do fim da Ditadura Militar. A vida de Vlado já não era mais como a nossa. Ele se tornara um símbolo de coragem e resistência. E a partir dali, a esperança passou a ter algum sentido. Sua vida e sua morte nos lembram que tanto a comunicação quanto as artes são campo de construção coletiva, exercícios de escuta, sensibilidade e responsabilidade com as pessoas e com nosso tempo”, assinalou ela.

“Conceder o título de doutor honoris causa in memoriam a Vladimir Herzog é uma forma não de premiá-lo, simplesmente, mas de a USP se posicionar frente à sociedade, deixando claro que aqui é a casa dos direitos humanos. Da dinâmica de construção e desconstrução constantes dos conhecimentos e das ciências, sempre em harmonia, com amplo respeito a toda a diversidade. Que aqui não se toleram preconceitos, pré-juízos e desumanidades. Que aqui a excelência na pesquisa e no ensino só fazem sentido em liberdade. É também uma forma de dizer que a vida de Vlado poderia ser a de qualquer um de nós, mas que o seu desfecho jamais poderá ocorrer novamente. E o enfrentamento pelos direitos universais e pelos conhecimentos será a nossa principal epistemologia”.

Ao final de seu discurso, após mencionar o fato de que a ECA está comemorando o sexagésimo aniversário de criação, Clotilde informou que a proposta da concessão do título de doutor honoris causa a Herzog recebeu o apoio da Faculdade de Direito (FD), da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) e da Faculdade de Educação (FE), bem como da Comissão de Direitos Humanos da USP.

Citou igualmente o apoio da Tv Cultura e de todas as entidades que participam da Comissão do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos: Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Instituto Vladimir Herzog, Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, InterCom, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Conectas Direitos Humanos, Instituto da Mulher Negra Geledés, Conselho Federal da OAB, OAB São Paulo, Instituto Sócio-Ambiental (ISA), Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo, Periferia em Movimento, União Brasileira dos Escritores.

Ao encerrar sua fala e deixar a tribuna, a diretora da ECA foi fortemente aplaudida por vários minutos.

Políticas de memória não devem parar, propõe diretor da FFLCH

O professor Adrián Pablo Fanjul, diretor da FFLCH, se inscreveu para lembrar que a Congregação dessa unidade também aprovou a proposta da ECA, por unanimidade. Ele destacou ainda que “memória, verdade e justiça” sempre foram objeto de luta em todos os processos de transição de regimes ditatoriais para regimes considerados democráticos. Apontou como exemplo seu país de origem, a Argentina, onde o governo Milei ameaça rever conquistas históricas como a condenação de repressores responsáveis por milhares de assassinatos de militantes de esquerda durante a ditadura militar iniciada em 1976.

“Então me parece importante reconhecer os avanços, e penso que o Brasil nos últimos anos avançou nesse sentido, e que na USP tem havido avanços neste sentido, que sempre serão objeto de movimentação, de luta, de contradição, não é algo que automaticamente se dê. A outorga deste título pode constituir mais um passo em políticas de construção de memória que aqui foram iniciadas com a formação de uma Comissão da Verdade, tiveram como outro passo a Diplomação da Resistência em diversas unidades. E este pode ser mais um elemento na construção de políticas de memória que, é claro, não têm que parar”, afirmou Adrián.

“Estamos efetivamente cumprindo um papel historicamente memorável e condizente com os princípios basilares de nossa universidade”, declarou o reitor Aluisio Segurado ao anunciar o resultado da votação.

Confira aqui o vídeo que registra a reunião do Co. A parte da sessão dedicada ao debate da proposta e à respectiva votação se encontra entre 1h06 e 1h42.

EXPRESSO ADUSP


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