Conjuntura Nacional
No último domingo, “Caminhada do Silêncio” reuniu familiares de vítimas da Ditadura Militar e de crimes posteriores cometidos pela PM; docentes da USP participaram da manifestação

Centenas de pessoas participaram da sexta edição da “Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado”, que foi realizada em São Paulo no último domingo, 29 de março, saindo do local que sediava o antigo DOI-CODI — centro de torturas mantido pelo Exército brasileiro, durante a Ditadura Militar (1964-1985), na rua Tutóia 921, na Vila Mariana, onde hoje funciona o 36º Distrito Policial — e rumando para o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera.

No local de concentração, e no trajeto percorrido até o Ibirapuera, familiares e amigos de militantes de esquerda assassinados(as) pela Ditadura Militar juntaram-se a familiares de vítimas de crimes de estado mais recentes, cometidos pela Polícia Militar (PM) ou por outras forças de segurança, bem como a ativistas de organizações da sociedade civil envolvidas na pauta de luta pelos direitos humanos e por memória, verdade e justiça.

No Brasil, o terrorismo de estado se manteve mesmo após o encerramento oficial do período ditatorial em 1985, graças à ação, principalmente, das PMs. Basta lembrar de episódios como Carandiru (1992), com 111 mortes de presidiários desarmados; a execução de 21 trabalhadores rurais sem terra pela PM do Pará em Eldorado dos Carajás, em abril de 1996; os crimes de maio de 2006 em São Paulo, que somaram cerca de 500 pessoas assassinadas pela PM em poucos dias; as chacinas da Baixada Santista cometidas pelo governo de Tarcísio Freitas (em 2023 e 2024) e que resultaram no assassinato de 84 populares. Ou ainda o massacre ocorrido nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, com cerca de 130 pessoas assassinadas com requintes de crueldade.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), divulgado em 2014, no final do primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff (PT), recomendou à União o fim da impunidade dos torturadores (que implica rever decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal em 2010), pedido de perdão das Forças Armadas à sociedade brasileira, desmilitarização das PMs e extinção das Justiças Militares estaduais, mas nenhuma dessas medidas foi implementada.

Durante a Ditadura, a PM paulista destacou dezenas de agentes seus para atuarem no DOI-CODI da rua Tutoia, sob comando de oficiais do II Exército, hoje denominado Comando Militar Sudeste. Mais de 50 militantes de partidos de esquerda e sindicalistas foram assassinados no local, entre os(as) quais docentes, discentes e ex-discentes da USP.

A professora Vera Paiva, do Instituto de Psicologia (IP), caminhou até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos conduzindo um cartaz com a imagem de seu pai, o ex-deputado federal Rubens Beyrodt Paiva, assassinado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, em 22 de janeiro de 1971, e cujos restos mortais foram deliberadamente ocultados pelos militares. Em determinado momento, Vera empunhou ao mesmo tempo outro cartaz, com a frase “Onde estão nossos desaparecidos?”.

Outros docentes da USP que participaram da atividade foram Celso Frederico (Escola de Comunicações e Artes), Dario Horácio Gutierrez Gallardo (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas-FFLCH), Everaldo de Oliveira Andrade (FFLCH), Luiz Guilherme Galeão da Silva (IP), Pedro Paulo Chieffi (Faculdade de Medicina) e Marcos Bernardino de Carvalho (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), diretor da Adusp.

Fizeram-se presentes, igualmente, os deputados federais Ivan Valente (PSOL-SP) e Juliana Cardoso (PT-SP), o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), a vereadora Luna Zaratini e o vereador Nabil Bonduki (ambos da capital e do PT).

Também compareceram o ex-deputado estadual Adriano Diogo (PT), que presidiu a Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” na Alesp, em 2015, e Rogério Sottili, ex-ministro de Direitos Humanos e diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, uma das entidades que organizaram a Caminhada.

Antes da saída, no pátio do 36º DP, causou estranheza a presença de um numeroso contingente de policiais militares da Força Tática, fortemente armados, em meio a manifestantes concentrados(as) para participar de uma atividade pacífica e silenciosa. Ao lado das viaturas estacionadas, a curta distância da concentração, um soldado PM empunhava um fuzil-metralhadora.

Porém, a passeata percorreu sem incidentes o trajeto até o Parque do Ibirapuera. Os manifestantes tiveram de caminhar pelo entorno do quartel-general do Comando Militar Sudeste, área obviamente controlada pelo Exército, e do Clube Militar. Eles foram escoltados pela Força Tática e por um grupo de motociclistas da PM (“Rocam”), que se encarregaram de bloquear os cruzamentos atravessados pela passeata.

Após a chegada dos manifestantes ao Monumento aos Mortos e Desaparecidos Políticos, foi lido o Manifesto da Caminhada. “Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-CODI, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas”, diz o texto. “Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser uma lembrança e voltou a ser projeto”.
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