Universidade
De 67 professores(as) titulares da Faculdade de Medicina que manifestaram apoio à Reitoria, 15 lecionam no curso pago “Experiência HC”, cuja extinção é reivindicada por estudantes
No último dia 7 de maio, o Jornal da USP, publicação oficial da universidade, publicou matéria a respeito de um “manifesto” em apoio à Reitoria assinado pelos(as) sessenta e sete professores(as) titulares da Faculdade de Medicina e entregue pessoalmente, por um grupo de signatários(as) ao reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado e à vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci.
Exemplo de máxima concisão, o “manifesto” tem apenas quatro frases, mas deixa clara a finalidade de condenar a greve estudantil.
“Nós, Professores Titulares da Faculdade de Medicina da USP, reconhecemos e apoiamos a atuação da Reitoria na condução do processo de negociação com os estudantes, que permitiu avanços importantes em pautas apresentadas ao longo das últimas semanas. Entendemos, no entanto, que o limite possível das negociações foi alcançado”, diz o texto.
“A continuidade deste processo compromete a reposição das atividades e impacta diretamente a qualidade da formação. Alinhados à Reitoria, manifestamos nosso apoio à retomada das atividades acadêmicas, reafirmando nosso compromisso com a formação dos alunos e com a responsabilidade acadêmica que compartilhamos com a Universidade e a Sociedade”.
Importante notar que nada menos que quinze signatários(as) do “manifesto” são docentes do curso pago “Experiência HC”, cuja extinção é reivindicada há anos pelos estudantes da Faculdade de Medicina (FMUSP). Por sua importância estratégica, essa pauta foi assumida pelo conjunto do movimento estudantil, na greve iniciada na segunda quinzena de abril.
O “Experiência HC”, criado e organizado pela Fundação Faculdade de Medicina (FFM), entidade privada dita “de apoio”, custa a cada aluno R$ 8.450 por especialidade e taxa de inscrição de R$ 350 — e constitui um instrumento de privatização direta da FMUSP, pois é destinado a “Estudantes de Medicina do Brasil do 4º, 5º e 6º ano”. Na prática, o curso procura atrair o alunado de instituições privadas, cuja “imersão” no Hospital das Clínicas de São Paulo se dá às custas das e dos estudantes do curso regular de Medicina, mantido pela USP.
“O Experiência HC, além dos problemas práticos que já demonstra quanto à competição entre acadêmicos da FMUSP e alunos externos por atividades e procedimentos, representa um programa de mercantilização e privatização do ensino e do espaço público”, advertiu, já em 2024, o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC). “Cobrar valores exorbitantes de pessoas abastadas para complementarem sua educação num espaço que é mantido por investimento estatal abre prerrogativas para uma cada vez maior privatização de faculdades e universidades públicas”.
Pois bem: de acordo com a página do “Experiência HC”, o programa desse curso pago inclui disciplinas lecionadas pelo seguinte grupo de docentes: Eloísa Bonfá, diretora da FMUSP; Alexandre Fogaça Cristante, Alberto Queiroz Farias, Clóvis Artur Almeida da Silva, Eduardo Ferriolli, Fabio Biscegli Jatene, Linamara Rizzo Batistella, Ludhmila Abrahão Hajjar (autora do projeto do “Hospital Inteligente”), Luiz Henrique Martins Castro, Luiz Paulo Kowalski, Paulo Andrade Lotufo, Paulo Manoel Pêgo Fernandes, Rodrigo de Souza, Roger Chammas e Rossana Pulcineli Vieira Francisco, ex-presidente da Câmara de Atividades Docentes (CAD), como é possível conferir aqui e aqui.
Além disso, quatro titulares que assinam o manifesto são integrantes do Conselho Curador da FFM, o mais importante colegiado dessa organização privada que controla há décadas o HC de São Paulo (e que é na verdade quem administra as verbas auferidas pelo “Experiência HC”): Eloísa Bonfá, que o preside; Alexandre Fogaça Cristante, Giovanni Guido Cerri e Roger Chammas.
Tanto a diretora da FMUSP como Chammas foram acusados pela Receita Federal, após investigação, de receber remuneração indevida pelos cargos que exercem na FFM, por meio de falsos “projetos”. A remuneração de dirigentes é uma prática ilegal, uma vez que a FFM é considerada “entidade filantrópica”, o que tem lhe permitido deixar de recolher centenas de milhões de reais em contribuição patronal ao INSS. Na mesma situação se encontra Tarcísio Eloy Pessoa de Barros Filho, outro ex-diretor da FMUSP e também signatário do lacônico manifesto pró-Reitoria.
A leitura da relação de signatários(as) do documento permite constatar, ainda, que alguns deles exercem cargos importantes na atual gestão reitoral. É o caso do ex-reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr., atual presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani); de José Ricardo de Mesquita Ayres, pró-reitor adjunto de Inclusão e Pertencimento; e de José Pinhata Otoch, superintendente do Hospital Universitário (HU), cuja revalorização é outra pauta importante da greve discente. Portanto, não resta dúvida de que eles estão, como diz o texto, “alinhados à Reitoria”.
Nota da Redação- Ao contrário do que informava inicialmente a matéria, o professor Paulo Andrade Lotufo não exerce mais o cargo de superintendente de Saúde da USP. O texto foi atualizado para corrigir esse equívoco.
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