Em novo ato público, estudantes e pesquisadores(as) reivindicam revogação total das mudanças anunciadas pela Fapesp na BEPE
Gabryella Cardoso (em primeiro plano na imagem): a ANPG exige a revogação total dos cortes no BEPE (foto: Daniel Garcia)

Estudantes e pesquisadores(as) realizaram uma manifestação em frente à sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na última sexta-feira (4 de setembro) para protestar contra as mudanças anunciadas pela fundação no formato da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE).

A manifestação reiterou que o recuo parcial da Fapesp em relação à política de bolsas, anunciado na semana passada, não é suficiente. Gabryella Cardoso, vice-presidenta da Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG) em São Paulo, salientou que os(as) estudantes exigem a revogação total das medidas e a retomada de todo o contingente de bolsas.

“Não vamos recuar e não vamos sair daqui enquanto as bolsas BEPE não forem recompostas, enquanto o valor de 50% do complemento do pós-doc não for recomposto, enquanto não tivermos previsibilidade das bolsas de ciências”, afirmou.

“Sem ciência no Brasil não existe soberania nem desenvolvimento tecnológico e industrial. Precisamos que os pesquisadores sejam valorizados e reconhecidos enquanto uma carreira de trabalho”, defendeu.

Gabryella mencionou as desonerações fiscais concedidas pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos)-Felicio Ramuth (PSD), que vão retirar do orçamento do Estado de São Paulo mais de R$ 80 bilhões no ano que vem. Parte desses recursos deixa de ser destinada ao financiamento das universidades estaduais paulistas e da própria Fapesp, que recebe 1% da receita tributária paulista.

A pesquisadora lembrou que o próprio Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) criticou a falta de transparência na concessão dos benefícios. Ao aprovar, com ressalvas, as contas do governo Tarcísio referentes ao ano de 2025, o relator do processo, conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli, falou da existência de um “orçamento paralelo das renúncias de receita”. O TCE-SP registrou que apenas 1% das empresas cadastradas fica com cerca de 80% de todos os benefícios concedidos.

“Nós somos a sua prioridade, Fapesp”, defende doutorando da FMUSP

Outro orador no ato, Mateus Miceli, doutorando em Imunologia na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), citou seu trabalho de pesquisa sobre a Doença de Chagas, mal que acomete aproximadamente 3 milhões de brasileiros. Em cerca de 30% a 40% dos casos, os(as) pacientes desenvolvem a chamada cardiopatia chagásica, que não raro leva à morte.

“Só quem for lá no InCor [Instituto do Coração] sabe como é horrível ver um familiar chorando porque mais uma pessoa morreu de Doença de Chagas”, disse.

O estudante lamentou que os cortes na BEPE podem privá-lo da “oportunidade de aprender coisas mais avançadas lá fora e trazer para cá para salvar brasileiros”.

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Mateus Miceli, doutorando da Faculdade de Medicina da USP: cortes afetam a pesquisa sobre Mal de Chagas

“A prioridade da pesquisa são os bolsistas, os pesquisadores, não é financiar o projeto. Quem vai fazer o projeto se não for um bolsista? Somos nós que fazemos os projetos e que pesquisamos, e eles estão dizendo que não somos a prioridade. Nós somos a sua prioridade, Fapesp”, defendeu Miceli.

Rafaella Uhiara, pesquisadora colaboradora, docente e orientadora externa do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, afirmou que “a pesquisa se faz cada vez mais globalmente, numa relação de troca com outros países”. “Não apenas trazemos coisas de fora, mas levamos também. Representamos o Brasil quando vamos para o exterior e isso é muito importante”, apontou.

Rafaella mencionou os entraves burocráticos e de adaptação enfrentados por bolsistas no exterior e afirmou que não é possível um(a) pós-doutorando(a) “fazer a sua pesquisa decentemente” permanecendo apenas seis meses noutro país.

Samira Sabri Saeed, aluna do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e bolsista de Iniciação Científica (IC), disse à reportagem do Informativo Adusp Online que os cortes das bolsas de estágio no exterior prejudicam a produção científica na pós e também na graduação.

“A requisição já é um processo bem complicado. O meu projeto ficou mais de 50 dias nas mãos de um parecerista da Fapesp. E quando se consegue a bolsa, que é uma conquista enorme para um estudante, somos pegos de surpresa dessa forma”, lamenta.

“É muito importante lutar para que haja bolsas em todas as áreas, na IC, na pós-graduação e no pós-doc, e em todas as áreas do conhecimento. Todas precisam de investimento e de recursos, e ninguém nem nada pode ser deixado para trás”, afirma.

Depois de reprimenda de Tarcísio, fundação anunciou recuo parcial

As mudanças na BEPE foram anunciadas pela Fapesp no final de agosto. Imediatamente, entidades de pós-graduandos(as) se mobilizaram para encaminhar um ofício à agência no qual defendiam a revogação das medidas, que acarretavam significativos cortes nos recursos destinados à modalidade.

No dia 28 de agosto, representantes das entidades estiveram na sede da Fapesp para entregar o ofício pessoalmente ao presidente da agência, o ex-reitor da USP M. A. Zago, mas não foram recebidos. O grupo conversou na calçada com o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da fundação, Carlos Graeff, ex-pró-reitor de Pesquisa da Unesp, acompanhado do gerente de Comunicação, Herton Escobar.

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Soberania, ciência para o povo e “Zago, moleque, devolve a minha BEPE” estiveram entre palavras de ordem

No mesmo dia, o governador Tarcísio de Freitas deu uma declaração à imprensa dizendo que a Fapesp iria rever as alterações, o que deixou Zago em situação constrangedora.

No dia 2 de setembro, o CTA divulgou um comunicado no qual anuncia alguns recuos em relação às mudanças, entre eles a volta da possibilidade de que estudantes de IC e mestrado recebam bolsas no exterior por meio de chamadas específicas.

As entidades discentes consideram que na prática a situação não mudou, pois não há previsão de quantas bolsas serão ofertadas nem de qual será a periodicidade dos editais.

As reivindicações são: retorno da IC e do mestrado ao fluxo contínuo da BEPE; garantia de manutenção do número histórico de bolsas; revisão da redução da duração das bolsas de doutorado e pós-doutorado; ⁠recomposição integral do complemento de 50% da bolsa de pós-doutorado; transparência sobre orçamento e critérios das mudanças; proteção integral do financiamento constitucional da Fapesp; nenhuma desvinculação de recursos destinados à ciência.

EXPRESSO ADUSP


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