Carreira docente
Três quartos dos(as) docentes relatam trabalhar além do horário, e 83,1% afirmam vivenciar sobrecarga decorrente da pressão por produtividade, revela pesquisa do Andes-SN
O relatório consolidado da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente, promovida pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), revela uma intensificação estrutural do trabalho de professores e professoras no período posterior à pandemia.
Na enquete, 67,3% dos(as) participantes afirmaram que houve aumento das atividades desempenhadas em comparação aos anos anteriores, enquanto 75,4% relataram trabalhar além da carga horária prevista em seus regimes.
A pesquisa também evidenciou o crescente avanço do trabalho sobre o tempo livre, com atividades profissionais sendo realizadas regularmente aos finais de semana e feriados. Como consequência, 83,1% dos(as) docentes ativos(as) afirmaram sentir-se sobrecarregados(as), condição associada à pressão por produtividade, ao uso intensivo de tecnologias de comunicação e à dificuldade de estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal.
Para Jacqueline Lima, 1ª secretária do Andes-SN e integrante da coordenação do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria da entidade (GTSSA), os resultados apontam uma mudança estrutural no padrão de trabalho docente após a pandemia.
“A percepção dos docentes sobre as condições de trabalho após a pandemia indica que houve uma mudança do padrão de trabalho. Coletivamente, os docentes estão submetidos a uma exigência maior de trabalho, inclusive para além do horário, envolvendo finais de semana e feriados”, afirma.
A segunda etapa do levantamento foi realizada entre 2024 e 2025 e contou com a participação de 3.591 docentes da ativa e 256 aposentados(as) de instituições de ensino superior de todo o país. A primeira etapa, ocorrida em 2023, teve a participação de 1.874 professores(as).
A iniciativa buscou estimular um processo de reflexão coletiva sobre as condições de trabalho e saúde da categoria e evidenciou o aprofundamento da precarização do trabalho docente, especialmente após a pandemia de Covid-19. Os dados vão subsidiar a atuação sindical na defesa de melhores condições de vida e trabalho.
Entre os(as) docentes ativos(as), predominam mulheres cisgêneras (53,9%) e pessoas brancas (65,8%); 89,5% possuem doutorado; 96,2% têm vínculo efetivo e 91,8% atuam em regime de dedicação exclusiva. A maioria (63,4%) trabalha em instituições federais e exerce atividades principalmente na graduação, e mais da metade atua também em outros níveis de ensino. Entre os(as) aposentados(as), o perfil é semelhante.

Hiperconectividade piora condições de saúde
O relatório apontou que a utilização intensiva de aplicativos de mensagens, e-mails e plataformas digitais para resolver demandas de trabalho fora do expediente se tornou uma característica permanente da atividade docente.
Entre os(as) respondentes, 89,3% relataram utilizar diariamente aplicativos de mensagens para fins profissionais, enquanto 81,8% afirmaram resolver demandas profissionais frequentemente (37,9%) ou sempre (43,9%) fora do horário regular de trabalho.
A enquete identificou uma relação direta entre a hiperconectividade e a piora das condições de saúde, considera Jacqueline Lima. “Os dados mostram que, quanto maior o uso de aplicativos, e-mails e sistemas online para resolver demandas de trabalho, pior tende a ser a avaliação da saúde dos docentes. Esse grupo também relatou menos horas de sono e menor prática de atividades físicas”, destaca.
Os impactos das condições de trabalho se refletem diretamente na saúde da categoria. Mais da metade dos(as) docentes (51,8%) relatou piora das condições de saúde no último ano; 52,5% afirmaram ter menos horas de sono e 41% disseram ter diminuído a prática de atividades físicas.
As doenças musculoesqueléticas (36,4%), que afetam ossos, músculos, articulações, tendões, ligamentos e coluna vertebral, e os transtornos de ansiedade (35,4%), como síndrome do pânico e fobia social, apareceram entre os principais problemas de saúde identificados pela enquete.
Para 67,8% dos(as) entrevistados(as), o adoecimento está diretamente relacionado às condições de trabalho enfrentadas nas instituições de ensino.
O levantamento também registrou que os(as) participantes sofreram situações de assédio moral (60,9%), violência política (54,1%) e machismo (47,4%) no cotidiano institucional.
“A intensificação do trabalho docente se tornou um problema coletivo, agravado pela ampliação das demandas para além da jornada regular e pelo uso de ferramentas digitais. Por isso, é necessário construir estratégias de enfrentamento, no âmbito do Andes-SN e das seções sindicais, incluindo o diálogo com as reitorias, para melhorar as condições de trabalho e conter a sobrecarga da categoria”, diz Jacqueline Lima.
Mais de um terço dos(as) professores(as) realiza atividades adicionais para complementar a renda
O estudo também revelou as desigualdades estruturais dentro da academia. Além de realizarem mais orientações e coorientações de estudantes de graduação, as mulheres acumulam uma carga significativamente maior de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
As docentes relataram maior sobrecarga no trabalho, registrando 88,1%, frente a 77,2% dos homens. Elas também mencionaram, com mais frequência, dificuldades para cumprir as demandas de trabalho, além de estar mais expostas a diferentes formas de violência no ambiente laboral.
O machismo é apontado como uma presença constante (“sempre”) por 12,5% das professoras, ao mesmo tempo em que o índice entre os homens é de apenas 1%. Outro dado preocupante é que 22,5% das docentes afirmaram sofrer racismo nas relações de trabalho.
O levantamento apontou ainda para as dificuldades financeiras enfrentadas por parcela significativa da categoria. Quase 60% dos(as) docentes ativos(as) relataram ter recebido reajustes salariais abaixo da inflação nos últimos anos, enquanto 23,5% afirmaram não ter recebido qualquer reajuste.
Além disso, 67,8% possuem algum tipo de dívida, e mais de um terço realiza atividades remuneradas adicionais para complementar a renda, evidenciando os impactos das perdas salariais e da desvalorização da carreira docente. Docentes pretos, pardos e indígenas apresentaram índices mais elevados de endividamento (77,3%).
Entre docentes aposentados(as), o relatório mostrou que persistem desigualdades de gênero e raça relacionadas à saúde e ao endividamento. As reformas da Previdência e as mudanças na carreira docente contribuíram para o achatamento salarial e para a deterioração das condições de vida de parte significativa deste segmento da categoria.
Na avaliação do GTSSA, os dados reforçaram que o debate sobre saúde docente não pode ser tratado apenas como uma questão individual, mas deve ser compreendido a partir das condições concretas de trabalho e das desigualdades que atravessam a categoria.
“Somos um sindicato classista, mas reconhecemos que existe uma interseccionalidade de gênero, raça e de geração que precisa ser considerada quando planejamos estratégias de luta e enfrentamento. Quando lutamos por aposentadoria com integralidade e paridade, por melhoria salarial e valorização da carreira, estamos também lutando pela promoção da saúde e da qualidade de vida da categoria”, ressalta Jacqueline Lima.
(Com informações do Andes-SN)
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