Desigualdade de gênero
Maternidade e tarefas de cuidado “pesam” e fazem carreira das mulheres na academia avançar mais devagar do que a dos homens
Vários eventos foram organizados nos últimos dias pela Rede Não Cala! para marcar a programação alusiva ao 8M na USP.
No dia 19 de março, ocorreu na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) a mesa “Mulheres e desigualdades na carreira acadêmica”, que teve mediação da professora Gabriela Calazans, do Instituto de Psicologia da USP. O debate foi realizado em parceria com a Adusp e com apoio da ECA Diversidade e da FFLCH. A íntegra está disponível no YouTube.

Uma das expositoras, Ana Maria Carneiro, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas e coordenadora associada do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação da Unicamp, abordou a questão das desigualdades de gênero e raça na carreira acadêmica em instituições de ensino superior brasileiras.
Ana Maria apresentou exemplos históricos, como o de Lise Meitner, que participou do desenvolvimento do mecanismo da fissão nuclear, no começo do século passado. Porém, ela enfrentou uma série de limitações, como a impossibilidade de liderar um laboratório e de obter financiamento. Além disso, passou por migração forçada quando da anexação da Áustria pela Alemanha, pouco antes da II Guerra Mundial. O trabalho sobre fissão nuclear recebeu o Prêmio Nobel em 1944, mas o laureado foi o alemão Otto Hahn, enquanto Lise “ficou escondida, esquecida”, definiu Ana Maria.
A pesquisadora também citou o trabalho da bioquímica húngara Katalin Karikó, relacionado a descobertas ligadas à tecnologia mRNA, fundamental para o desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19. “Ela também passou por coisas meio parecidas, inicialmente enfrentou muita dificuldade para ter o lugar reconhecido na área da ciência, para conseguir liderar um laboratório, para conseguir financiamento, e também tem uma história de migração por melhores oportunidades”, apontou.
“Mesmo em condições adversas, elas deram grandes contribuições. Mas não deveria ser assim: as oportunidades deveriam ser iguais para homens e mulheres e todos os outros recortes que a gente puder imaginar”, disse.
Mobilidade internacional, que favorece a carreira, é facilitada para homens
A diversidade de gênero e raça traz novos temas e debates que precisam fazer parte da agenda científica, defendeu Ana Maria. Porém, nem todos os grupos conseguem progredir na carreira e obter reconhecimento pelas descobertas que trazem no seu campo de atuação.
Entre os pontos que citou como razões desses problemas estão a diferença na taxa de sucesso na requisição de bolsas por parte dos homens. Isso se deve em parte a fatores como maior mobilidade internacional destes em relação às mulheres, seja para estágios mais longos, visitas ou participação em congressos. As mulheres são prejudicadas nesse aspecto porque acabam assumindo as tarefas da maternidade de forma mais intensa.
“Nas situações em que há uma paridade maior, em que esse viés não aparece, é quando as agências de fomento fazem as avaliações sem olhar o currículo dos candidatos, só avaliando os projetos”, disse.
A pesquisadora também citou o trabalho de Daniel Natalizi sobre o efeito do fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na área de nutrição. A pesquisa demonstra que a taxa de aprovação de propostas submetidas em chamadas regulares e chamadas temáticas na área de Nutrição entre 2005 e 2018 foi maior entre os homens, embora a área seja de maioria feminina.
“Por que isso acontece? Há vários motivos, mas o que me chama a atenção é que provavelmente elas não estão em posições em que tenham atingido os requisitos para concorrer naquelas chamadas que possibilitam projetos de maior valor”, ressaltou.
A professora citou estudos do movimento Parent in Science que demonstram que o nascimento dos filhos leva a um declínio imediato na produtividade, que persiste por cerca de quatro anos após cada evento.
Mencionou também várias medidas de instituições de ensino superior voltadas para a melhoria do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, além de mudanças no formato da avaliação dos projetos por parte das agências de fomento.
Encargos do cuidado sobrecarregam as mulheres
Camila Infanger, doutoranda da FFLCH, ressaltou que, em função dos papéis tradicionais de gênero, espera-se que “as mulheres estejam no papel de cuidado”. “Sempre que se tem qualquer situação envolvendo criança ou idoso, ou outros tipos de cuidado para além da parentalidade, nunca se espera que o homem se ausente. Inclusive, há um viés negativo quando a mulher já se coloca como mãe, porque você imagina que ela vai se ausentar”, disse.
“A gente também está numa academia neoliberal onde a separação entre o profissional e o pessoal é esperada, e é muito difícil viver como acadêmica fingindo que não é mãe e viver a maternidade como se não tivesse outras obrigações além da maternidade. Essa separação é muito difícil para pessoas com responsabilidade de cuidado”, prosseguiu.

Em sua pesquisa de doutorado, Camila analisa a trajetória das políticas que incluem maternidade na carreira acadêmica das mulheres no Brasil. A maternidade tem influências em questões como mobilidade internacional, apontou, concordando com Ana Maria. “É muito difícil conseguir conciliar isso com o cuidado de filhos, ou viajar para congressos, ou participar de eventos noturnos, ao mesmo tempo que você também não é aquela mãe superpresente porque você trabalha a qualquer momento. A gente vive constantemente esse conflito”, enfatizou.
“Vivemos uma dupla jornada bem quantificável. Apesar dessa realidade, somos submetidas aos mesmos critérios de mérito para progressão na carreira. Esse é o fundamento da criação do Parent in Science, que foi justamente uma crítica a essa análise de quedas de produtividade na carreira acadêmica das mulheres”, lembrou.
Essas quedas acabavam levando a sanções contra professoras, como no caso de Fernanda Staniscuaski, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que fundou o movimento porque recebeu um parecer por conta de queda de produtividade nos anos em que tinha tido filho e estava sujeita a perder um recurso continuado em seu projeto de pesquisa.
“Quando compartilhou essa experiência, ela viu que era comum a muitas mulheres. Então, questões específicas de gênero e família incidem sobre a produtividade acadêmica e são diferentes de outras questões de impacto”, disse Camila.
A questão da maternidade causa impactos específicos que geram efeito cumulativo na carreira acadêmica, de modo que as mulheres que conseguem chegar no topo da carreira alcançam essa condição com mais idade do que os homens, avalia.
A pesquisadora usou a imagem do “teto de vidro”, ou seja, barreiras que não são visíveis mas que se apresentam em momentos específicos. Um dos exemplos é o caso de bolsas-sanduíche para doutorado que não oferecem apoio para a inclusão de dependentes. Isso dificulta a mobilidade internacional, que faz diferença na análise de currículos, como apontou também Ana Maria.
Mudança de regime de professora foi revertida por pressão da Adusp
Camila citou o caso da professora Cynthia Ferreira, que chegou a ser desligada do Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP) depois de voltar de licença-maternidade. O caso só foi revertido após pressão da Adusp, da comunidade e de iniciativas como um abaixo-assinado em favor da docente.
“Admiro bastante a professora Cynthia Ferreira por ter ido a público e colocado o seu caso em divulgação pela Adusp, porque é uma exposição muito grande, mas realmente isso nos mostra que nem quando atingimos certos patamares na carreira estamos livres desse tipo de hostilidade frente às nossas escolhas de planos reprodutivos”, considera Camila.
Na sessão de perguntas, Carolinne Porto da Silva, mestranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), falou de sua pesquisa sobre desigualdades de gênero nas Ciências Matemáticas. Já em seu trabalho de conclusão de curso na graduação, obteve dados que revelam que as docentes do Instituto de Matemática e Estatística (IME) levavam 30 anos em média para chegar a professora titular, enquanto os homens levavam em média dez anos.
Atualmente, esses períodos caíram para dez e cinco anos, respectivamente. “Embora as mulheres tenham tido muitas conquistas, elas ainda levam o dobro de tempo em relação aos homens”, disse.

Também se manifestou o professor José Ricardo Ayres, pró-reitor adjunto de Inclusão e Pertencimento da USP.
Na última quinta-feira, a programação alusiva ao 8M teve continuidade com o debate “Violência de gênero na universidade: enfrentamentos e desafios”, que teve a participação de Fabiana Severi (FDRP), Heloisa Buarque de Almeida (FFLCH) e Carolina Bezerra (UFJF), e mediação de Daniela Osvald (ECA). O debate foi realizado no Auditório Lupe Cotrim, da Escola de Comunicações e Artes. Nesse mesmo dia, mais cedo, a Rede Não Cala! promoveu um piquenique na Praça do Relógio.
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